Robinson Farinazzo: ‘Interferência dos EUA é real e precisa ser enfrentada’

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O comandante Robinson Farinazzo afirmou que a interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil representa uma ameaça à soberania nacional e precisa ser enfrentada pela sociedade. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, ele sustentou que a atuação de interesses norte-americanos sobre a política brasileira não constitui um fenômeno isolado, mas integra um processo histórico de influência externa sobre as decisões do país. Na avaliação do militar, a disputa presidencial de 2026 ocorre em um contexto de pressões internacionais que exigem uma reação das instituições e da população.

“A gente precisa unir o Brasil em torno de combater essa interferência externa”, declarou Farinazzo, ao defender que a questão seja tratada como um problema de soberania, independentemente das divergências políticas internas.

O comandante afirmou que já esperava tentativas de influência dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro, mas disse ter sido surpreendido pela intensidade das pressões que identifica na campanha. Segundo ele, o ambiente digital ocupa uma posição central nesse cenário, especialmente pela atuação das plataformas de tecnologia na circulação de informações políticas.

“A gente já sabia que ia ter essa interferência americana. A gente só não sabia que ia ser nesse nível de pressão”, afirmou. Em seguida, acusou as grandes empresas de tecnologia de atuarem contra a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Você tem as big techs trabalhando contra a eleição do Lula. Essa é a verdade”, disse.

A declaração expressa a avaliação política de Farinazzo. Durante a entrevista, ele não apresentou documentos ou dados que permitissem comprovar uma atuação coordenada das plataformas digitais para interferir no resultado da eleição. Ainda assim, o comandante considera que a influência exercida por essas empresas sobre a circulação de conteúdos políticos precisa integrar o debate sobre a autonomia do processo democrático brasileiro.

A interferência estrangeira como processo histórico

Para sustentar sua análise, Farinazzo recorreu a episódios da história brasileira nos quais identificou a presença de interesses estrangeiros na política nacional. Ele mencionou a crise que culminou no suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, a adoção do parlamentarismo durante a crise sucessória de 1961, o golpe militar de 1964 e o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

“Quantas vezes se interferiu no Brasil? Olha, em 54 fizeram o Getúlio se matar. Em 64, a derrubada do Jango, já tinha tido em 61 o golpe parlamentarista. Aí teve depois a derrubada da Dilma e por aí vai”, afirmou.

Ao relacionar esses acontecimentos, o comandante apresentou a interpretação de que a política brasileira tem sido atravessada por disputas nas quais interesses externos encontram apoio em setores internos. Os episódios citados, contudo, ocorreram em circunstâncias históricas distintas, e a atribuição de responsabilidade norte-americana a todos eles não foi demonstrada na entrevista.

Farinazzo também responsabilizou segmentos das elites nacionais por facilitar a influência estrangeira. “Estão sempre interferindo aqui, cara. E o que é pior, com a conivência das elites brasileiras”, declarou.

Na interpretação do comandante, a atuação externa não depende exclusivamente de ações diretas de governos estrangeiros. Ela também pode ocorrer por meio de relações institucionais, mecanismos de cooperação e articulações políticas que, segundo ele, precisam ser submetidos ao escrutínio público quando envolvem interesses nacionais.

O papel das agências norte-americanas

Farinazzo afirmou que a influência dos Estados Unidos sobre outros países envolve diferentes estruturas de poder, incluindo órgãos de inteligência e instituições que atuam fora da administração direta norte-americana.

“Essa interferência que a CIA faz, e não é só ela, são outras agências do governo americano também, e agências independentes, eles fizeram no mundo inteiro”, disse.

O comandante defendeu que a população brasileira compreenda os mecanismos pelos quais essa influência pode ocorrer. Para ele, a dificuldade em reconhecer a possibilidade de ingerência estrangeira reduz a capacidade de reação da sociedade diante de iniciativas que possam comprometer a autonomia do país.

“A gente tem que dizer para as pessoas que isso não é fantasia. A gente tem que explicar que não é fantasia, que isso existe”, afirmou.

Como exemplo de situações que considera problemáticas, Farinazzo mencionou um episódio envolvendo um procurador brasileiro que, segundo seu relato, participaria de um curso no Paraguai relacionado ao enfrentamento do Irã. Ele afirmou que a participação teria sido cancelada após questionamentos públicos.

“Mas isso é interferência, cara. Isso é interferência nos nossos assuntos”, declarou.

O comandante também fez referência a relações entre integrantes do sistema de Justiça brasileiro e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Segundo ele, determinadas conexões institucionais não teriam recebido a investigação necessária.

“Nós temos um caso recente que nunca foi apurado e agora acho que nunca vai ser, de um certo juiz, de relações espúrias com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Isso nunca foi investigado”, afirmou.

Farinazzo não apresentou, na entrevista, documentação sobre essas acusações nem identificou formalmente todos os envolvidos. Suas declarações, portanto, devem ser compreendidas como denúncias e avaliações do entrevistado, e não como comprovação de irregularidades.

Fechamento de embaixadas e pressão diplomática

Outro ponto abordado por Farinazzo foi o fechamento de embaixadas, episódio que ele associou à atuação coordenada de países integrantes da aliança de inteligência conhecida como Five Eyes, formada por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

O comandante afirmou ter reagido publicamente ao episódio por considerar que medidas diplomáticas dessa natureza podem transmitir sinais políticos em momentos de disputa interna.

“Eu fiz um vídeo que fiquei indignado a hora que vi esse negócio do fechamento das embaixadas”, relatou.

Na sequência, associou parte dos países envolvidos à estrutura de cooperação de inteligência ocidental.

“A maior parte dos países que fechou as embaixadas são do Five Eyes, que é aquela entidade de espionagem”, declarou.

Para Farinazzo, a questão exige atenção porque decisões diplomáticas podem produzir efeitos políticos para além das relações formais entre Estados. A entrevista, entretanto, não especificou quais representações diplomáticas foram fechadas, as datas das medidas ou os motivos oficiais apresentados pelos respectivos governos. Dessa forma, não é possível estabelecer, apenas com base em suas declarações, que tenha existido uma ação coordenada para influenciar a eleição brasileira.

O comandante criticou o que considera ausência de reação proporcional diante desses acontecimentos. “Quer dizer, uma interferência explícita, né? E pouca gente se indignando”, afirmou.

Consciência nacional e defesa da soberania

Farinazzo comparou a percepção dos brasileiros sobre a influência estrangeira com experiências que afirma ter observado durante viagens à Rússia e ao Irã.

Segundo ele, as populações desses países demonstram maior consciência sobre os interesses internacionais envolvidos em suas disputas políticas e sobre os riscos de ingerência externa.

“Você percebeu isso no Irã? Você percebeu isso na Rússia e no Irã? É a consciência que as pessoas têm do grau de tentativa de interferência externa no país deles”, declarou.

Na avaliação do comandante, essa percepção não está igualmente presente no Brasil. Ele considera que parte da sociedade brasileira encara como normais determinadas relações de influência que deveriam ser debatidas sob a perspectiva da soberania.

“O Brasil não tem, cara. O Brasil não tem. O cara acha normal”, afirmou.

Para Farinazzo, enfrentar a ingerência estrangeira exige, antes de tudo, reconhecer sua existência e discutir publicamente os instrumentos pelos quais outros países podem tentar influenciar decisões nacionais.

A questão, segundo sua análise, ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Embora considere que a eleição presidencial tenha implicações para a relação do Brasil com os Estados Unidos, o comandante sustenta que a defesa da soberania deve constituir uma preocupação permanente.

O risco de novas intervenções

Questionado sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar uma intervenção de maior intensidade, Farinazzo reconheceu a existência de riscos. Ele citou o cenário internacional e as mudanças políticas que poderão ocorrer nos Estados Unidos como fatores capazes de alterar as relações entre Washington e Brasília.

Sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar uma intervenção estrangeira semelhante à registrada em outros países da América Latina, Farinazzo reconheceu a existência desse risco e alertou para a necessidade de vigilância diante das pressões exercidas pelos Estados Unidos sobre a política nacional. 

O comandante ponderou, porém, que o cenário norte-americano também apresenta incertezas. Em sua avaliação, a correlação de forças nos Estados Unidos poderá sofrer alterações após as eleições legislativas de novembro de 2026, reduzindo a capacidade de ação do presidente Donald Trump.

Farinazzo tratou essa possibilidade como uma projeção, não como um resultado definido. Para ele, eventuais mudanças no equilíbrio político norte-americano poderão repercutir sobre a política externa de Washington e, consequentemente, sobre sua relação com o Brasil.

A análise do comandante parte da compreensão de que a soberania brasileira não pode depender exclusivamente das circunstâncias políticas dos Estados Unidos. Na sua avaliação, é necessário que o país desenvolva capacidade própria de identificar e responder a pressões externas.

Ao longo da entrevista, Farinazzo insistiu que a primeira condição para enfrentar esse problema é ampliar a consciência pública sobre as formas de interferência internacional. Para ele, a sociedade precisa reconhecer que decisões tomadas fora do Brasil podem produzir consequências sobre a política nacional.

“Essa interferência existe. Não é fantasia”, reiterou.

A principal mensagem do comandante foi a necessidade de transformar a defesa da soberania em uma questão nacional, capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade. Na avaliação de Farinazzo, a reação às pressões estrangeiras não deve se limitar às disputas partidárias, mas envolver a proteção da capacidade do Brasil de decidir seus próprios rumos políticos.

Fonte: Brasil 247

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