Melhor do mundo
Por Luis Cosme Pinto — Brasil 247
Faltam 28 minutos pro domingo virar segunda e o vagão só esvazia na estação Guilhermina-Esperança. O ambulante me cumprimenta com a cabeça, senta e acomoda a sacola preta entre as pernas. Estico o pescoço e vejo, lá dentro, algumas cocadas.
Parece que o trabalho rendeu, mesmo assim quero perguntar das vendas. Aliás, daria com prazer um pouco do meu tempo, do meu sono e até parte do que tenho na carteira para saber não só das cocadas. Quero conhecer, um tiquinho que seja, este trabalhador.
Quem vende cocadas até o último trem do domingo tem muito a contar.
Dou sorte. Mesmo tendo falado o dia inteiro de suas cocadas; que são gostosas, que desfazem na boca, que são baratas, que são mineiras e que vêm direto do vale do Jequitinhonha, ele ainda quer falar.
Ajeita o boné, pigarreia.
– Meu nome é Getúlio. Getúlio Pereira da Silva. G. P. S. Nunca me perco. Entendeu? (rimos os dois) Mas sou conhecido como Raimundo.
Eu explico: Pro ambulante o marketing é tudo. Entro no vagão e anuncio: “Chegou a melhor cocada do mundo, a cocada do Raimundo”. Eu experimentei essa publicidade por que a rima é boa e eu sempre adorei o nome Raimundo. Tem passageiro que comenta. “Olha aí o Raimundo”. Então, deixa ficar. Virei Raimundo. Quer provar uma?
Aceito e me delicio com a doce mistura de coco e rapadura.
– Cremosa, né?
– Maravilhosa, Raimundo. Respondo com a boca ainda cheia e uma lasca de coco entre os dentes.
– Tem uns que reclamam da confusão. A gente grita mesmo. O jogador não pede a bola? O motoboy não buzina? Por que a gente não pode? Ninguém é obrigado a saber da vida dos outros, mas será que o reclamão imagina que por trás de uma cocada tem criança com fome, às vezes doente? Que tem aluguel, boleto, agiota te ameaçando?
– Quantos filhos você tem?
– Três.
Raimundo mostra o celular.
– Anderson, Henrique e a caçula, a Marcela. Aqui a Aurora, quinze anos de casamento.
– Parabéns, Raimundo.
– Eu não peço nada, eu ofereço. Quem quer, quer. Quem não quer, não quer.
– Muita gente compra?
– Compra. E sabe por quê?
– Por quê?
– Porque o produto é bom e barato. E tem mais (ele sussurra): pobre não tem medo de gastar. Ele me vê e pensa: “amanhã eu posso tá desempregado, posso ter que trabalhar como camelô. Então, eu ajudo agora e se depois eu tiver no sufoco alguém vai dar uma força.”
– Mas dizem que é barato porque é clandestino.
– Mentira. É barato porque não tem intermediário. No supermercado o preço é maior porque eles têm muito mais despesa e também querem mais lucro. Aqui é diferente, vou no depósito e pago à vista.
– Então, por que é proibido?
– Porque é fácil mexer com o pobre. Meu produto não deve nada ao do supermercado. Eu ando de metrô e trem todo dia e pago a passagem, viu? Eu sou camelô e passageiro ao mesmo tempo e garanto: a gente não atrapalha ninguém. Sabe o que atrapalha?
– O quê?
– O atraso e a superlotação. Tem que botar mais trens para circular. Só que a empresa ou o governo não quer gastar. É simples: com o trem cheio ganham mais. Agora com a privatização piorou. Os vigilantes vêm pra cima como se o camelô fosse bandido. Eu não sou bandido, sou empreendedor.
– Você capricha, Raimundo. Já tinha falado de marketing, publicidade, agora empreendedor.
– Empreendedor! Eu ouvi essa no tempo que tinha passeata, sindicato. Durante um protesto um cara subiu no caminhão e disse bem assim: “Camelô é empreendedor e empreendedor é quem faz o Brasil crescer”.
– É bom ser empreendedor?
– Toda profissão tem risco e eu adoro esse meu trabalho. Só que as autoridades não dão valor. Eles podiam cadastrar a gente.
– Como seria?
– Um número certo de ambulantes em cada trem, todo mundo com crachá, uniforme. Trabalho organizado.
Última estação. Getúlio levanta e me olha.
– Ué, não vai descer?
– Vou voltar. Vim até aqui para te ouvir.
A porta fecha e a gente acena um pro outro.
A voz feminina se impõe.
– Promoção da última viagem: Diamante Negro! É três por cinco, que eu não brinco.
Fonte: Brasil 247