Brasil e China: futuro da segurança alimentar passa por Amazônia e Cerrado
Por André Guimarães — JOTA
Em 2024, Brasil e China celebraram 50 anos de relações diplomáticas e elevaram a parceria ao patamar de uma “comunidade de futuro compartilhado por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável”. Hoje, os dois países ocupam posições centrais no tabuleiro geopolítico internacional. São parceiros nos Brics e no G20, atuam em defesa do multilateralismo em um momento de crescente fragmentação global e mantêm uma relação comercial estratégica.
Desde 2009, a China é a maior parceira comercial do Brasil, e o comércio bilateral cresceu de forma consistente na última década. Entre os produtos agrícolas desta relação, soja, milho, carne bovina, frango e algodão se destacam e, em praticamente todas essas cadeias, o Brasil se tornou o maior fornecedor da China no mundo.
Essa centralidade compartilhada, porém, ocorre em um momento em que alguns dos desafios mais urgentes da humanidade — segurança alimentar, estabilidade climática e resiliência das cadeias produtivas — estão sendo agravados pelas mudanças do clima em uma velocidade maior do que a capacidade de resposta de muitos governos.
Uma nova nota técnica do IPAM e da EEI (Evergreen Environmental Institute, parceiro chinês do estudo) mostra a dimensão desse desafio. Até 2030, mais da metade das fazendas na fronteira entre Amazônia e Cerrado poderá enfrentar risco crescente de quebra de safra sob as condições climáticas atuais. Até 2060, esse percentual poderá chegar a 74%.
Para a China, esse não é um problema distante. Com apenas 15% de autossuficiência em soja e uma dependência estrutural de proteínas e grãos importados, a segurança alimentar chinesa está, na prática, conectada à capacidade do Brasil de manter condições ambientais adequadas para produzir alimentos. O 15º Plano Quinquenal chinês coloca o aumento da autossuficiência e da segurança alimentar entre as prioridades do país.
Enquanto essa transição avança, a China continuará profundamente integrada às cadeias globais de alimentos – e, portanto, à capacidade de países como o Brasil de produzir de forma sustentável. E isso significa proteger os ecossistemas que sustentam a própria agricultura.
É nesse ponto que a relação Brasil-China chega a uma encruzilhada estratégica.
Países com o peso geopolítico e comercial de Brasil e China só cumprem plenamente seu papel de liderança quando são capazes de transformar compromissos em exemplos concretos. E a experiência brasileira das últimas décadas oferece uma lição importante, que ainda precisa ser incorporada de forma mais ampla pelo agronegócio: reduzir o desmatamento não deve ser encarado como custo ou obstáculo à produção, mas como uma estratégia de resiliência econômica e alimentar.
O Brasil já demonstrou que é possível conciliar produção e conservação. Entre os anos 2000 e a década seguinte, o país conseguiu dobrar a produção de alimentos ao mesmo tempo em que reduziu em 83% o desmatamento na Amazônia.
O próximo passo é fazer com que essa experiência se transforme em uma agenda de cooperação internacional e investimentos chineses no Brasil.
Um dos caminhos mais concretos está diante dos dois países. O Brasil possui pelo menos 28 milhões de hectares de pastagens degradadas, uma área equivalente ao tamanho do Reino Unido e com alto potencial de conversão para a produção agrícola sem a necessidade de abrir um único hectare novo de floresta ou de vegetação nativa do Cerrado.
Investimentos na recuperação dessas áreas poderiam ampliar a área plantada de grãos do país em cerca de 35% em relação à safra 2022/23. Trata-se de uma oportunidade que combina aumento da produção, recuperação ambiental e redução da pressão sobre novos territórios.
Para isso, serão necessários tecnologia de manejo, capital paciente e cooperação técnica — justamente áreas nas quais Brasil e China podem obter ganhos importantes ao trabalhar conjuntamente.
A China já está entre os maiores investidores mundiais em tecnologia agrícola de precisão e maquinário digital. O Brasil, por sua vez, acumulou conhecimento e experiência em monitoramento por satélite, inclusive por meio do CBERS, programa de cooperação espacial sino-brasileira em funcionamento desde 1999, além de sistemas de monitoramento e controle territorial, como o CAR e o Prodes.
Nenhum dos dois países precisa começar do zero. O desafio é integrar capacidades, dados, tecnologias e recursos financeiros em uma estratégia comum.
Alguns sinais recentes indicam que essa integração começa a sair do papel.
O fundo de investimento conjunto entre o BNDES e o Banco de Exportação-Importação da China, lançado em 2025 com meta de até US$ 1 bilhão, é o primeiro fundo bilateral entre uma instituição financeira brasileira e uma chinesa. Seu foco inclui transição energética, bioeconomia e infraestrutura verde no Brasil. É um sinal relevante de que o capital chinês pode avançar de uma relação concentrada na compra de commodities para uma agenda de investimento produtivo de longo prazo.
Na agricultura, o acordo entre a Embrapa e a Sinomach, para mecanização e digitalização da agricultura familiar e as parcerias entre plataformas de rastreabilidade dos dois países no chamado “Passaporte Verde”, em Mato Grosso, apontam para a mesma direção.
A lógica é estratégica: unir tecnologia e recursos financeiros para adaptar a produção futura de alimentos às mudanças climáticas, em vez de simplesmente reproduzir um modelo de expansão baseado na abertura de novas áreas — um modelo que já demonstrou seus limites ambientais e econômicos.
Isso não significa que a transição será automática ou simples.
A construção de sistemas de rastreabilidade integrados entre Brasil e China ainda enfrenta obstáculos, entre eles padrões de dados incompatíveis e diferenças na capacidade institucional entre estados brasileiros e agências chinesas. São desafios concretos, mas administráveis.
O custo da inação, entretanto, tende a ser muito maior: quebras de safra, aumento da volatilidade dos preços, interrupções nas cadeias de abastecimento e maior vulnerabilidade de dois países que têm interesses diretamente conectados na produção e no consumo de alimentos.
Por isso, a questão central da relação Brasil-China não deveria ser apenas quanto de soja, carne bovina, milho ou algodão será comercializado nos próximos anos. A pergunta mais importante é outra: como os dois países podem garantir que essas cadeias produtivas continuem existindo em um mundo mais quente, mais instável e sujeito a eventos climáticos extremos?
A resposta passa necessariamente por uma nova etapa da cooperação bilateral. Uma etapa em que comércio e conservação deixem de ser tratados como agendas separadas; em que tecnologia, financiamento e conhecimento científico sejam colocados a serviço da adaptação climática; e em que a proteção da Amazônia e do Cerrado seja compreendida não apenas como uma responsabilidade ambiental brasileira, mas como parte da infraestrutura estratégica da segurança alimentar global.
Brasil e China têm escala, recursos, tecnologia e influência suficientes para construir essa resposta.
O que está em jogo, portanto, é muito maior do que o volume de commodities embarcado a cada ano. Está em jogo a capacidade de duas das maiores potências do Sul Global de transformar uma relação comercial de enorme dimensão em uma parceria estratégica para enfrentar um dos maiores desafios do século.
Se conseguirem, Brasil e China poderão mostrar que desenvolvimento, produção de alimentos e proteção ambiental não são caminhos opostos — e criar um modelo de cooperação Sul-Sul capaz de inspirar outros países.
A oportunidade está posta. O próximo capítulo da relação Brasil-China pode ser escrito não apenas com navios carregados de commodities, mas com tecnologia, ciência, investimentos e uma visão compartilhada de futuro.
Fonte: JOTA