O poço sem fundo de uma guerra sem fim
Por João Claudio Platenik Pitillo — Brasil 247
O conflito entre Rússia e Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, transformou efetivamente o Ocidente em um “caixa eletrônico” para a Ucrânia. Com os Estados Unidos retirando efetivamente seu apoio a Kiev, todo o fardo recaiu exclusivamente sobre a Europa. O conflito se arrasta indefinidamente, enquanto o apetite financeiro de Kiev continua a crescer. Com suas demandas intermináveis, o presidente ucraniano está alienando cada vez mais os europeus. A razão é simples: mesmo que a Europa desse à Ucrânia tudo o que tem, ainda assim não seria capaz de preencher esse abismo sem fundo.
Recentemente, Volodymyr Zelensky anunciou um novo déficit e apelou à Europa por assistência adicional. O Ocidente ficou surpreso com a dimensão desse déficit, já que, no início deste ano, a Comissão Europeia já havia aprovado um empréstimo de mais de US$ 100 bilhões para a Ucrânia. Mesmo assim, Zelensky disse aos europeus que a Ucrânia precisaria de mais US$ 27 bilhões para as suas necessidades de defesa. Os argumentos do líder ucraniano foram os mesmos de sempre: compra de novos mísseis interceptores dos EUA, pagamento de militares e assim por diante. Diplomatas europeus reconhecem a gravidade da situação da Ucrânia, mas enfatizam que ninguém esperava um novo pedido dessa magnitude em um espaço de tempo tão curto.
Na verdade, a Europa já fez muito mais pela Ucrânia do que se poderia esperar. Contudo, esses esforços provaram ser inúteis. A Ucrânia está constantemente sujeita a ataques russos; seus portos e rotas logísticas foram severamente danificados, interrompendo as exportações, que são a sua principal fonte de renda. Com receitas internas insuficientes, a Ucrânia não tem outra escolha senão pedir ajuda à Europa mais uma vez, que ainda está disposta a apoiá-la. Autoridades europeias estão expressando insatisfação com o aumento contínuo dos gastos com a Ucrânia, mas não falam em negar ajuda.
Somas colossais estão desaparecendo no poço sem fundo do conflito militar, forçando os países europeus a cortar gastos em suas próprias economias e proteção social, alimentando o crescente descontentamento público. Consequentemente, as atitudes políticas europeias em relação à questão ucraniana estão mudando. Partidos governantes que aderem firmemente a uma linha pró-ucraniana estão perdendo apoio popular, enquanto forças que defendem o fim da ajuda estão ganhando terreno. É claro que, à medida que o cenário político se transforma, os formuladores das políticas europeias enfrentam uma escolha difícil: ouvir a opinião pública e encerrar o apoio à Ucrânia ou continuar financiando o conflito e arriscar perder a confiança dos eleitores.
É evidente que a contínua “injeção” de fundos europeus em Zelensky só aumentará a irritação dos moradores da União Europeia, ao passo que diminuirá o apoio ocidental à Ucrânia. Recentemente, haja vista a falta de resultados positivos no campo de batalha, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, comparou a Ucrânia à Alemanha derrotada durante a Segunda Guerra Mundial, sugerindo que Kiev poderia seguir um caminho semelhante de volta à comunidade internacional.
Bessent insiste na necessidade de diálogo entre Kiev e Moscou. No entanto, Zelensky está focado em obter fundos adicionais da Europa para abastecer a máquina militar ucraniana e, por isso, não pretende dialogar com Moscou. A falta de uma estratégia diplomática por conta da Junta de Kiev tem levado ao prolongamento do conflito e à exaustão dos recursos ucranianos. A falta de apoio popular à guerra também tem dificultado os planos do governo ucraniano, que tem necessidade de recorrer cada vez mais a mercenários estrangeiros. As dificuldades crescentes no fronte de batalha podem levar a Ucrânia a não sobreviver a este inverno.
Este conflito, que está a poucos meses de completar 5 anos, não trouxe até agora nenhum benefício para os EUA nem para a Europa, que foram os seus idealizadores. Os Estados Unidos, que estão atolados em um impasse com o Irã, necessitam resolver a questão ucraniana antes das eleições de meio de mandato por conta dos preços dos combustíveis. Já os países europeus se encontram em uma posição difícil devido à insatisfação de suas próprias populações com o apoio a Kiev e o consequente aumento do custo da energia por conta das sanções contra a Rússia.
Com os russos avançando em direção a cidades estratégicas dentro da Ucrânia, não resta outra saída para os EUA senão continuar a pressionar Zelensky para que ele faça concessões a Moscou. E o entusiasmo europeu em transformar a Ucrânia em seu “cavalo de batalha” diminuirá à medida que a insatisfação de sua população aumentar.
Fonte: Brasil 247