Por Eduardo Geraque — Revista Pesquisa Fapesp

Um momento decisivo da vida acadêmica é quando o pes­quisador termina o doutorado. Para um número crescente de jovens pesquisadores, a questão é achar um caminho factível depois dele. Nos últimos anos, quem é recém­-doutor tem de lidar com opções escassas. De um lado, as vagas permanentes em universidades e institutos de pes­quisa não são suficientes para absorver a todos. De outro, ao menos em países como o Brasil, há um relativo desin­teresse do setor privado na formação dessas pessoas. Há ainda a chance de fazer um pós-doutorado, caminho que também é temporário, durando apenas alguns anos.

Sobre o estudo

1,3 milhão de publicações científicas analisadas

Publicadas entre 2005 e 2020

Circulação, não fuga

Dos brasileiros com experiência internacional no exterior 68% retornaram para o Brasil

Poucos, mas produtivos

Só 15% dos pesquisadores tiveram experiência internacional, mas eles foram responsáveis por 59% de toda a produção científica analisada

“O pós-doc não é exatamente uma alternativa à carreira acadêmica, mas faz parte dela”, diz Stevens Rehen, pro­fessor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). O neurocientista tem décadas de experiência com proje­tos que unem os setores público e privado. “O que estamos vendo hoje, no Brasil e fora dele, é que esse período deixou de ser uma etapa de transição relativamente curta e passou a funcionar, muitas vezes, como um período prolongado e inevitável da formação, mas também de incerteza.”

A consequência de todo esse processo é uma geração que vive entre bolsas temporárias, vínculos frágeis e deci­sões profissionais cada vez mais difíceis. É possível conti­nuar procurando vagas de pós-doutorado em diferentes instituições, por exemplo, já que não há um limite para o número desses projetos de pesquisa, mas não se trata de uma solução de longo prazo. Para muitos jovens pes­quisadores, a escolha tem sido entre permanecer nesse ciclo sem muita saída ou buscar caminhos fora da uni­versidade — no setor privado, no empreendedorismo, no serviço público ou no exterior.

O fenômeno é global. Reportagem publicada em junho de 2025 na Nature, assinada por Diana Kwon, apontava que o número de doutores formados no mundo cresceu em ritmo muito superior à oferta de vagas na academia — cenário que vem pressionando universidades a repensar o modelo tradicional de formação de PhDs.

Países como China e Índia lideram essa expansão. No gigante asiático, por exemplo, o número de estudantes matriculados em programas de doutorado dobrou em uma década: passou de cerca de 300 mil, em 2013, para mais de 600 mil, em 2023. O crescimento é impulsionado pela ampliação do acesso ao ensino superior e pela percepção de que títulos acadêmicos aumentam as chances de ascen­são social e econômica. A pergunta “Onde você estudou?” entre os chineses é, muitas vezes, fundamental.

O problema é que o mercado acadêmico não acompa­nhou esse avanço. O número de vagas em universidades e centros de pesquisa cresce em ritmo muito menor do que o contingente de doutores formados. Muitos estu­dantes ainda entram no doutorado pensando exclusiva­mente em uma carreira universitária, embora a realidade atual seja marcada por forte competição e poucas opor­tunidades permanentes na academia.

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Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália, a maior parte dos doutores já trabalha fora do ambiente acadêmico. Uma pesquisa feita no país europeu com mais de 4.500 doutores, ainda segundo a Nature, mostrou que mais de dois terços atuam em empregos não acadêmicos. Em muitos casos, esses profissionais acabam em funções pouco relacionadas à área de especialização desenvolvida durante o doutorado.

Na África do Sul, por exemplo, 18% dos doutores entre­vistados em uma pesquisa afirmaram ter dificuldade para encontrar empregos ligados à própria área de exper­tise. Parte deles relata a sensação de sobrequalificação e subaproveitamento profissional.

Apesar disso, a satisfação geral com a carreira perma­nece relativamente alta: mais de 90% dos doutores bri­tânicos disseram estar satisfeitos com o trabalho atual. A diferença aparece principalmente entre áreas. Forma­dos em ciências e tecnologia tendem a encontrar mais posições ligadas à pesquisa e inovação, enquanto profis­sionais das áreas de humanas e artes enfrentam maior dificuldade de inserção em empregos diretamente conec­tados ao doutorado.

O texto também levanta uma questão cada vez mais presente no debate internacional: o doutorado ainda traz vantagens salariais claras em relação ao mestrado? Um estudo citado pela reportagem mostra que doutores bri­tânicos, em média, ganham mais por hora do que mes­tres — mas isso não ocorre em todas as áreas. Em cam­pos como direito, economia e gestão, doutores chegaram a receber ligeiramente menos do que profissionais que tenham apenas mestrado. Quando o tempo de experiên­cia profissional é considerado, mestres passam a apresen­tar rendimento médio um pouco superior.

Diante desse cenário, pesquisadores e formuladores de políticas públicas defendem uma reformulação dos programas de doutorado. A ideia é que eles deixem de funcionar apenas como treinamento para a carreira uni­versitária e passem a preparar estudantes para diferen­tes setores da economia. Países como Japão, Alemanha e Reino Unido já começaram a implementar mudanças, incluindo estágios remunerados em empresas e modelos de “doutorado industrial”, realizados em parceria com o setor privado.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

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