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Recebi um convite que me deixou muito honrada: entrevistar Mary Robinson depois de sua fala como palestrante de honra no Global Agribusiness Forum, considerado um dos maiores festivais de cultura agro do mundo. Era minha primeira participação nesse evento, realizado dentro de um estádio de futebol em São Paulo. Mary havia vindo ao Brasil especialmente para aquela ocasião.
Por uma combinação de circunstâncias da programação, acabamos tendo quase duas horas a sós antes de subir ao palco. Sem celulares, sem interrupções, pudemos conversar, escutar e aprender.
Eu já conhecia a presidente Mary Robinson e a havia encontrado em outras ocasiões. Dois anos atrás, os Planetary Guardians, cujo trabalho apoio por meio da Systemiq, vieram ao Brasil e passaram um dia na AYA, onde celebramos a entrada do professor Carlos Nobre no grupo. Mas dessa vez foi diferente.
Comecei perguntando como ela gostaria de conduzir nossa sessão. A conversa logo se abriu para sua visão sobre liderança, a experiência de ser a primeira mulher presidente da Irlanda, multilateralismo, justiça climática e o papel da tecnologia na transformação dos sistemas alimentares.
Mary foi presidente da Irlanda entre 1990 e 1997 e alta comissária da ONU para os Direitos Humanos entre 1997 e 2002. Hoje, é uma referência global em justiça climática e liderança feminina, além de integrar os Elders e os Planetary Guardians. Sua trajetória conecta direitos humanos, segurança alimentar e responsabilidade com as próximas gerações.
Quando perguntei como gostaria de ser apresentada, ela respondeu com humor: “Só seja curta”. Pediu que eu não me limitasse ao currículo. Queria ser descrita também como mulher, esposa, mãe de três filhos e avó de sete netos. Lembrou de sua primeira visita ao Brasil, a convite do então presidente Fernando Henrique Cardoso, e de sua admiração pela ministra Marina Silva.
Foi uma maneira bonita de situar aquela conversa: uma mulher falando de sua vida, de suas relações e daquilo que continua a mobilizá-la.
Segurança alimentar, do solo à mesa
Mary contou sobre sua recente participação no Global Conscious Food Systems Summit, realizado no Butão. O encontro trouxe valores, cultura e consciência para a transformação dos sistemas alimentares, reunindo governos, agricultores, cientistas, povos indígenas e organizações da sociedade civil.
Conversamos sobre a importância de olhar para toda a cadeia, do solo à produção, à colheita e à distribuição, incluindo sua capacidade de responder a choques geopolíticos e climáticos.
Sua empolgação ficou especialmente visível quando falou da FoodCloud, organização irlandesa criada por duas mulheres para conectar excedentes de alimentos a organizações que podem redistribuí-los. Com ferramentas digitais e redes de parceiros, o modelo identifica onde há alimentos disponíveis e organiza sua destinação antes que sejam desperdiçados.
Mary conhecia os detalhes. Falava dos resultados, das possibilidades de expansão e da ambição de chegar a um bilhão de refeições redistribuídas até 2030.
Compartilhei dados sobre o Brasil divulgados pelo Pacto Contra a Fome, cujo trabalho admiro muito. O convite para participar daquela sessão havia vindo de Geyze Diniz, uma das lideranças do movimento.
Segundo as estimativas divulgadas pelo Pacto, o Brasil perde ou desperdiça aproximadamente 55 milhões de toneladas de alimentos ao ano, diante de uma produção estimada em 161,3 milhões de toneladas no recorte utilizado pelo estudo. Cerca de um terço.
Outros indicadores mostram a dimensão da nossa capacidade produtiva. Em 2025, a safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas alcançou 346,1 milhões de toneladas. As exportações de alimentos industrializados somaram US$ 66,7 bilhões, enquanto as do agronegócio como um todo chegaram a US$ 169,2 bilhões. São recortes distintos, mas ajudam a dimensionar nossa relevância.
Ao mesmo tempo, convivemos com dificuldades de acesso à alimentação e importamos cerca de 85% dos fertilizantes que consumimos. Uma potência produtiva pode carregar vulnerabilidades importantes.
Mary apontou semelhanças com a Irlanda. Apesar das diferenças de escala, os dois países têm forte presença nas exportações de carne, especialmente bovina, e estão expostos às cadeias globais. Ela mencionou inclusive a dependência irlandesa de importações de batatas, um alimento tão associado à identidade do país.
A Irlanda ficou em segundo lugar no Índice Global de Segurança Alimentar de 2022. Ainda assim, essa posição não elimina suas dependências externas. Passamos boa parte da conversa nesse tema: segurança alimentar envolve produção, acesso, distribuição, redução do desperdício e resiliência.
Mulheres e a saúde do planeta
Mary falou também do Project Dandelion, iniciativa que cofundou para mobilizar a liderança de mulheres pela justiça climática. Lembrou que 2026 é o Ano Internacional da Mulher Agricultora e destacou a importância de ampliar a participação feminina no campo, na gestão e nos espaços de decisão.
Conversamos sobre diversidade, participação das comunidades e agricultura regenerativa. Esse olhar nos levou aos Planetary Guardians e à atualização do Planetary Health Check, apresentada em setembro, em Nova York, com o trabalho científico de Johan Rockström e sua equipe.
O diagnóstico de 2026 aponta sete dos nove limites planetários ultrapassados. Para os sistemas agroalimentares, isso significa riscos concretos para a disponibilidade de água, a saúde dos solos, a biodiversidade e a estabilidade climática.
Mary lembrou de duas lideranças brasileiras que admira muito, também dois amigos queridos meus: o professor Carlos Nobre e Flávia Belaguarda. Relembrou o recente reconhecimento de Carlos em Nova York, durante a Semana do Clima, com o Prêmio Thomas Lovejoy, e contou que havia tido contato recentemente com Flávia, que traduziu seu livro sobre justiça climática para o público brasileiro.
Achei especial ouvi-la reconhecer essas pessoas. Em uma conversa de alcance global, havia atenção às contribuições individuais, aos vínculos e à importância de aproximar ciência e sociedade.
A diferença entre poder moral e poder político
Depois de ouvi-la sobre tantos temas, quis aproveitar aquele momento para fazer uma pergunta mais pessoal: qual havia sido seu maior aprendizado como presidente da Irlanda?
Mary destacou a diferença entre poder moral e poder político. Na relação com o primeiro-ministro e com os limites institucionais da presidência, aprendeu que grande parte de sua influência vinha de identificar os grupos com os quais poderia trabalhar, compreender suas necessidades e dar voz às suas experiências.
As mulheres tiveram um lugar central nessa escolha. Ao se aproximar delas e de outros públicos específicos, construiu uma influência tão relevante quanto aquela conferida pelos instrumentos formais do cargo.
Ouvindo Mary, pensei em como o mundo, e também a política brasileira, se beneficiaria de mais lideranças como ela.
Nossa conversa aconteceu numa quinta-feira, três dias antes das eleições brasileiras. Ela se mostrou preocupada, mas extremamente esperançosa.
Presença e simplicidade
Mary disse que precisava voltar para casa, para seu marido. Ele estava preparando um livro sobre a história da Irlanda por meio de caricaturas e representações de homens e mulheres. Um dos desafios era a dificuldade de representar as mulheres, que haviam ocupado tão poucos espaços de decisão no passado recente do país.
Pensei no quanto essa discussão continua atual. Precisamos ocupar esses espaços com nossa presença, mas também com nosso olhar e nossa capacidade de contribuir para um debate qualificado e claro.
A simplicidade de Mary também me marcou. Veio sem equipe, caminhou pelo estádio para chegar à apresentação e voltar, não pediu nada de especial e seguiu diretamente para o aeroporto para retornar à sua casa.
Três conselhos para quem quer liderar
Antes de encerrarmos, perguntei quais conselhos daria a mulheres e jovens que desejam ocupar espaços de poder, de fala e de decisão. Ela me trouxe três aprendizados especialmente pertinentes ao momento que vivemos.
Primeiro, não deixe que a crítica silencie sua voz. Especialmente nas redes sociais, as pessoas criticam quem se expõe e realiza seu trabalho. Isso não pode nos impedir de agir.
Segundo, tenha um mentor ou uma amiga que diga o que você precisa ouvir, e não apenas o que gostaria de ouvir. Alguém em quem confiar e que tenha a coragem de falar com honestidade.
Terceiro, traga mais humor para a vida. Em algum momento, começamos a levar tudo tão a sério que tornamos as coisas mais difíceis e pesadas. O humor ajuda a recuperar a leveza.
Vindo de alguém que carregou tanta responsabilidade ao longo da vida, esse último conselho me tocou especialmente. Compartilhar essas reflexões nesta coluna, de uma forma mais pessoal, me pareceu pertinente ao momento que estamos vivendo.
Não basta ocupar espaços de decisão. Tão importantes quanto o onde e o quê são os comos. Depois dessa conversa, fiquei pensando que precisamos resgatar não somente o humor, mas também o amor.
As lembranças e falas da conversa privada são relatadas a partir da minha experiência no encontro.
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Fonte: umsoplaneta

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