Uma reflexão sobre eleição, voto do trabalhador e o papel das nossas entidades representativas

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Por Thiago Rodrigues – bancário CEF — Esquerda Diário

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Como votou a classe trabalhadora nesse primeiro turno? Qual o papel dos nossos sindicatos na batalha contra a extrema direita? As grandes batalhas ainda estão por vir, mas a força da classe trabalhadora pra enfrentar a extrema-direita é muito maior do que seu peso eleitoral

A grande imprensa se apressou em fazer circular uma matéria que mostra que nas 100 cidades mais importantes do agronegócio, Flávio Bolsonaro venceu em 82. É um dado significativo, mas é preciso lembrar: essas cidades têm peso diminuto na eleição presidencial. A questão decisiva é outra: as classes médias, setores da classe trabalhadora e setores populares acompanharam esse voto “ruralista” nas grandes cidades?

Pra buscar a resposta dessa pergunta e tantas outras que surgem da vitória bolsonarista deste domingo, vale a pena prestar atenção também em outras cem cidades. No caso, as 100 maiores cidades do país, ou seja, no voto urbano.

O peso dessas cidades é enorme, concentram mais de 30% do eleitorado, mais da metade da classe trabalhadora formal e com direitos e mais de 40% do PIB do país. Em 2002 Lula alcançou um recorde de vitórias nessas cidades (tomando como base o censo populacional de 2025), Lula derrotou os tucanos em 93 dos cem municípios. Entre essa vitória histórica de 2002 e a pior votação em 2018, quando Haddad venceu apenas em 8, no momento atual a situação é intermediária, com 30 vitórias. Acima do que obtinha nos anos noventa, mas abaixo dos resultados do ciclo lulista e de 2022 (39).

Em praticamente todas as cidades Lula reduziu a votação, mesmo nas que ganhou. Apesar de tudo, Lula manteve sua base histórica fiel nas maiores cidades, diferente do resultado desastroso de 2018. Ainda assim, a votação do PT caiu cerca de 1 milhão de votos nessas cidades em relação a 2022, indicando a perda enorme de influência eleitoral para além do que é a sua base tradicional. Nossa hipótese, confirmada pelo mapa geral na votação no município de São Paulo, é que quando verificarmos a votação seção por seção, veremos que o grosso dos votos perdidos não foi na classe trabalhadora, mas principalmente nas classes médias. No entanto, os votos que o PT perdeu não são, em grande parte, os votos que Bolsonaro ganhou.

Ao contrário da pequena perda que o PT teve até nas cidades em que venceu, nas regiões e cidades que são a força eleitoral bolsonarista as vantagens foram avassaladoras. As classes médias conservadoras arrastaram a maioria da classe média e os setores mais despolitizados e precarizados da classe trabalhadora a votar nos seus próprios carrascos. Nas eleições para o Congresso, isso se expressa no fato de que o PT e o conjunto do progressismo manteve sua bancada, e o PL cresceu sobre o espaço do centrão.

Força eleitoral e força social

Numericamente, o PT perdeu uma força proporcional de cerca de 1 milhão de votos na somatória das 100 maiores cidades. O que queremos chamar atenção é que a perda de Lula e do PT nos grandes centros urbanos do país é maior do que a própria soma numérica dos resultados. Ao neutralizar a força social da classe trabalhadora em nome dos acordos com o centrão, com a Fenaban, com ruralistas como SImone Tebet, o PT neutralizou a força mais poderosa na luta contra a extrema direita. Ao abandonar o programa que os líderes corrompidos dos sindicatos defendem apenas demagogicamente em seus discursos e aplicar o programa defendido pelas altas finanças e pelo latifúndio, o que governo fortaleceu apenas os nossos inimigos, sem obter sequer seus votos.

A força social e política da classe trabalhadora que construiu o PT não é igual, nunca foi, ao seu peso eleitoral, é muito maior. Pensemos na força de três categorias, que foram os pilares do PT e da CUT nas suas origens, Metalúrgicos do ABC (cerca de 100 mil), Bancários de São Paulo (cerca de 140 mil), professores estaduais de São Paulo (cerca de 200 mil), junto com os metroviários (menos de 10 mil), que cumpriram um papel tão importante nas últimas décadas. Sua força social , sua capacidade de paralisar toda a economia, sua capilaridade através das forças que representam os professores – e em alguma medida também os bancários – nas suas comunidades, representam um poder muito maior do que a força da soma dos seus votos.

A questão decisiva para chegarmos no momento grave que vivemos, é que essa enorme força social, que foi a base da construção do PT, que foi fundamental para derrotar a própria ditadura, foi sendo sistematicamente neutralizada a partir de dentro. O próprio PT, através dos sindicatos que dirige, fez de tudo para neutralizar essa enorme força da sua própria base. Quando os metroviários encabeçaram a luta contra as privatizações de Tarcisio com três paralisações e assembleias conjuntas com Sabesp e CPTM, a CUT assistiu de longe essa grande batalha. Os principais sindicatos da CUT se tornaram reféns da política de conciliação das direções petistas, que fazem de tudo para que as grandes categorias não se coloquem em movimento e para isso massacraram a democracia nos sindicatos. No entanto, quando nos colocamos em movimento, somos capazes de atrair apoios de vários setores populares para além da polarização eleitoral. Que diferente seria o momento atual se tivéssemos forçado o Congresso a acabar com a escala 6×1 através de uma greve geral…

Para impor seu programa de total destruição de direitos, privatizações e entreguismo sem limites, os Bolsonaro terão que ganhar não só o segundo turno, mas derrotar forças sociais históricas, o que é muito mais difícil que ganhar uma eleição. Para enfrentar os ataques que virão teremos que batalhar em duas frentes, contra os ataques que virão e também para retomar os sindicatos e colocar em movimento a enorme força social da classe trabalhadora.

Fonte: Esquerda Diário

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