Uma raposa-do-ártico percorreu milhares de quilômetros sobre gelo e terra em poucas semanas, surpreendendo cientistas pela velocidade da viagem
Por Gabriel Correa — Catraca Livre
Em março de 2018, uma jovem raposa-do-ártico deixou o arquipélago de Svalbard, na Noruega. Setenta e seis dias depois, os sinais do equipamento de rastreamento a colocavam na ilha de Ellesmere, no Canadá. Entre um ponto e outro estavam o gelo marinho, a Groenlândia e 3.506 quilômetros de trajeto acumulado. Em linha reta, origem e destino ficavam muito mais perto. A diferença mostra por que essa viagem surpreendeu pesquisadores: o animal não apareceu simplesmente do outro lado do mapa. O registro acompanhou curvas, acelerações e uma mudança entre ecossistemas árticos.
Por onde a raposa passou?
Eva Fuglei, do Instituto Polar Norueguês, e Arnaud Tarroux, do instituto norueguês de pesquisa da natureza, descreveram a dispersão em Polar Research em 2019. A fêmea saiu de Spitsbergen em 26 de março de 2018. Vinte e um dias e cerca de 1.512 quilômetros depois, alcançou a Groenlândia. Prosseguiu pelo norte gelado até a ilha de Ellesmere, onde chegou 76 dias após deixar Spitsbergen. Era uma travessia entre continentes documentada por localização via satélite.
Os 3.506 quilômetros dizem respeito à soma dos deslocamentos entre a saída da ilha norueguesa e a chegada ao Canadá. A distância em linha reta desde a área onde nascera até o destino era de aproximadamente 1.789 quilômetros. Se incluído o período de rastreamento desde 1º de março até a fixação em Ellesmere em 1º de julho, a soma chega a 4.415 quilômetros. Esses números descrevem intervalos diferentes e não devem ser trocados numa manchete.
Como os pesquisadores seguiram um animal no gelo?
A raposa havia recebido um colar transmissor na região de Krossfjorden, em Svalbard. A tecnologia enviava localizações por satélite, permitindo reconstruir o caminho sem que uma equipe a acompanhasse fisicamente por toda a extensão. O mapa resultante não é uma filmagem contínua dos passos: entre pontos registrados, os pesquisadores precisam estimar segmentos de movimento. Ainda assim, a sequência de posições mostrou passagem pela Groenlândia e chegada à ilha canadense.
Para interpretar a velocidade, convém observar o que cada medida representa:
- O trajeto acumulado soma deslocamentos, não a distância em linha reta.
- A média diária de 46,3 quilômetros esconde dias muito mais lentos e mais rápidos.
- A taxa máxima estimada foi de 155 quilômetros num dia sobre a camada de gelo no norte da Groenlândia.
- Os pontos de satélite descrevem o percurso, não cada pausa para repouso ou alimentação.
Por que o gelo tornou essa rota possível?
O gelo marinho e as geleiras ofereceram conexões entre terras que, de outro modo, estariam separadas pela água. A raposa-do-ártico, Vulpes lagopus, é capaz de grandes deslocamentos, mas a rota específica exigiu condições ambientais que permitissem cruzar essas extensões. A equipe classificou a viagem entre as dispersões mais longas registradas para a espécie em tão pouco tempo. Não é uma velocidade de corrida contínua; é deslocamento medido ao longo de dias, com enorme variação.
O animal tinha a coloração azulada associada a ambientes costeiros de Svalbard, onde recursos marinhos participam da alimentação. Ao se estabelecer em Ellesmere, entrou num sistema ecológico em que lemingues são importantes. Os autores apontaram essa transição como parte do interesse científico do caso. A capacidade de viver no frio ártico ajuda a contextualizar a espécie, mas não explica sozinha como uma fêmea específica atravessou regiões tão distintas.
<p>Confira o vídeo compartilhado pelo <a href=”https://www.youtube.com/@UNTVNewsandRescue”>canal do YouTube UNTV News and Rescue</a>, que apresenta a viagem de cerca de 3.500 quilômetros feita por uma raposa-do-ártico em 76 dias:</p>
O rastreamento revela por que ela partiu?
Revela a dispersão, não uma motivação individual comprovada. Procurar alimento, escapar da competição ou encontrar espaço são hipóteses gerais relacionadas ao movimento de raposas, mas o colar não registra decisões. O trabalho discutiu o fenômeno no contexto de conexões entre populações árticas e da passagem sazonal pelo gelo. Um evento documentado demonstra que a travessia é possível; não informa com que frequência outros indivíduos fazem o mesmo caminho.
Também importa distinguir o registro de um recorde absoluto. Foi uma das viagens mais extensas documentadas em curto período e incluiu a maior taxa de movimento então registrada pela pesquisa para a espécie. Outros animais podem ter viajado sem equipamento e permanecido invisíveis aos pesquisadores. O avanço da tecnologia de rastreamento muda justamente o que se pode observar. Nesse caso, as posições sucessivas deram material concreto para estudar uma passagem que antes poderia parecer apenas uma hipótese.
O que essa travessia acrescenta ao estudo da espécie?
Ela mostra uma conexão real entre regiões e cadeias alimentares árticas. Uma única fêmea saiu de um ambiente costeiro, cruzou gelo e chegou a uma área onde presas terrestres tinham outro papel. Isso ajuda a pensar a dispersão e a possível circulação de genes entre populações separadas em mapas convencionais. Não significa que toda raposa consiga repetir os 3.506 quilômetros nem que o gelo esteja sempre disponível na mesma configuração.
O detalhe mais impressionante talvez seja o contraste entre dois números: 1.789 quilômetros em linha reta e 3.506 percorridos na travessia de 76 dias. O primeiro cabe num mapa simplificado; o segundo acompanha o esforço de contornar um mundo de água, neve e gelo. A raposa não deixou um diário da viagem. O colar forneceu algo quase tão raro para a ciência: uma trilha suficiente para revelar a escala de seu movimento.
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Fonte: Catraca Livre