A identidade sertaneja de um País capturada pela direita
Por João Lister — Brasil 247
O Brasil está formando uma identidade nacional de bases sertanejas. Esta é a constatação sociológica que se pode verificar para compreender o primeiro turno de 2026: uma cultura nascida das experiências do interior, transformada pela urbanização e fortalecida pelo agronegócio, passou a oferecer referências de pertencimento muito além do campo. A direita se aproxima dessa identidade e conquista reconhecimento. O espectro político de esquerda se afasta dela e perde cada vez mais a capacidade de representar uma população que se vê e sente diferente do ideário de esquerda.
Falar em bases sertanejas significa olhar para a sociabilidade, o lazer, a religiosidade, a família, o trabalho, a propriedade e os hábitos de consumo. A música participa desse universo, mas não o esgota. As festas agropecuárias, os rodeios, os encontros entre amigos, o churrasco, a estética country, o orgulho das origens e a aspiração à prosperidade compõem um modo de viver que chega às cidades e conecta pessoas de ocupações e rendas diferentes.
A expressão sertaneja assume formas regionais distintas. O sertão nordestino, a cultura caipira paulista, as tradições sulistas e o interior do Centro-Oeste têm histórias próprias. O processo nacional ocorre quando essas diferenças encontram referências compartilhadas: orgulho local, vínculos familiares, fé, valorização do trabalho e desejo de autonomia material. A leitura aqui defendida é que esse repertório está se tornando uma linguagem de identificação de ampla presença territorial e suficiente densidade eleitoral para levar ao poder quem consegue representá-lo.
O conceito político de Nação esclarece o alcance dessa mudança. Uma Nação se forma pela consciência de pertencer a uma comunidade histórica, pela memória compartilhada e pelo reconhecimento de um destino comum. Seus símbolos dizem quem somos, o que valorizamos e quem percebemos como próximo. Disputar eleições significa também disputar a representação dessa comunidade.
Quando um repertório cultural ultrapassa seu lugar de origem e passa a organizar a imagem que o país faz de si, ele adquire força hegemônica. Hegemonia significa capacidade de orientar o senso comum, tornar determinados valores familiares e conferir legitimidade a quem os expressa. Uma cultura pode exercer essa força convivendo com outras: sua prevalência aparece no poder de reunir diferenças sob uma narrativa reconhecível de Brasil.
O agronegócio participa desse processo com recursos, publicidade, eventos e entretenimento. A investigação da “Repórter Brasil” sobre o agro documentou parte dessa infraestrutura. O resultado cultural vai além dos interesses imediatos das empresas: o orgulho do interior, antes frequentemente associado ao atraso, ganha uma imagem de sucesso, modernidade e poder. Essa imagem circula também entre trabalhadores urbanos e pessoas que jamais possuíram terra.
É assim que a influência econômica se converte em pertencimento. O empregado pode reconhecer sua história familiar em referências também celebradas pelo empresário. A casa própria, o pequeno negócio, o veículo e o conforto dos filhos representam conquistas desejadas por diferentes classes. Compreender essa identificação exige considerar tanto as condições materiais quanto as aspirações e os vínculos afetivos.
A direita encontrou nesse universo uma linguagem de proximidade. Apoios empresariais e lideranças locais se articulam com discursos sobre família, fé, propriedade, empreendedorismo e ordem. Os apoiadores de Flávio Bolsonaro ajudam a conferir à candidatura uma imagem de continuidade com valores já presentes na vida cotidiana. A política ganha força quando o eleitor percebe que seu modo de viver tem lugar no projeto que lhe é apresentado.
Parte da esquerda, por sua vez, deixou que a crítica ao poder econômico fosse percebida como desqualificação da vida interiorana. A defesa dos direitos trabalhistas e ambientais perde interlocução quando vem acompanhada de desprezo pela fé, pela festa popular ou pelo desejo de prosperar. Nesse desencontro, a direita oferece reconhecimento enquanto a esquerda parece exigir que o cidadão reveja sua identidade antes de ser acolhido.
Lula tem identidade sertaneja. Sua origem pernambucana, sua trajetória de privação e sua linguagem de proximidade o vinculam à experiência popular nordestina. A força eleitoral desse vínculo permanece evidente. Entretanto, o reconhecimento que obtém no Nordeste não se reproduz com a mesma intensidade nas expressões sertanejas do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Sua biografia o aproxima de uma matriz regional, mas não assegura a representação política de todas as formas contemporâneas do interior.
Essa representação cultural tem capacidade de eleger presidentes, governadores e parlamentares porque combina reconhecimento social, organização e escala eleitoral. O resultado de 4 de outubro já lhe conferiu poder nos estados e no Legislativo, embora a Presidência continue em disputa. Nacionalmente, o PL elegeu 121 deputados federais, conquistou dezenove vagas ao Senado e ampliou seus deputados estaduais e distritais de 126 para 212. São posições institucionais que prolongam a influência política para além de uma campanha.
Os estados brasileiros também têm indústria, serviços e culturas urbanas próprias. É justamente essa diversidade que torna relevante a expansão do repertório interiorano: ele atravessa atividades econômicas e oferece uma linguagem comum de pertencimento. A interpretação cultural do resultado considera esse processo em articulação com preços, segurança, avaliação dos governos e vínculos locais. Seu argumento central é que a identificação ajuda a organizar politicamente essas experiências.
A esquerda preserva presença importante: manteve os governos da Bahia, Ceará e Piauí e ampliou seus deputados estaduais e distritais de 117 para 141. O problema é a desigualdade de alcance entre sua representação social e a da direita nos outros territórios estaduais. O vínculo pessoal de Lula continua reunindo muitos eleitores que não encontram a mesma identificação nos demais candidatos de esquerda.
O desafio é compreender a Nação que se forma na vida cotidiana. A população não se reconhece apenas por sua posição no trabalho ou pelos direitos que necessita. Reconhece-se também na fé, na festa, na memória familiar, no orgulho da cidade e no que deseja conquistar. Quando essas referências ganham expressão nacional, tornam-se uma força política capaz de eleger quem lhes dá representação.
O primeiro turno de 2026 expõe esse deslocamento. A direita se aproxima de um Brasil que combina raízes sertanejas e vida urbana, tradição e consumo, religiosidade e desejo de prosperidade. Lula mantém um vínculo profundo com sua expressão nordestina, mas encontra dificuldades para representar esse universo com a mesma força no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A esquerda precisa reconhecer que a disputa por esse pertencimento já está se convertendo em poder.
Uma identidade nacional se torna politicamente prevalecente quando consegue transformar reconhecimento em representação. Esse é o sentido sociológico do resultado: o Brasil de bases sertanejas possui extensão territorial, circulação cultural e densidade eleitoral para eleger seus representantes. A esquerda perde alcance ao se afastar dessa identidade; a direita ganha força ao se apresentar como parte dela.
Fontes de apoio editorial — consultadas em 6/10/2026
https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2026/10/05/eleicao-proporcional-nordeste-lula.htm
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/apuracao/1turno/votos-por-estado/mt/presidente/
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/apuracao/1turno/votos-por-estado/ms/presidente/
https://reporterbrasil.org.br/2025/06/agronejo-braco-cultural-agro-direita/
Fonte: Brasil 247