Alta do real e da Bolsa após eleição reflete otimismo dos investidores, diz economista da UEG
Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

A forte valorização dos ativos brasileiros após o primeiro turno reacendeu o debate sobre uma possível mudança na percepção internacional em relação ao país. Com o real ganhando força frente às principais moedas, a Bolsa alcançando níveis históricos e investidores voltando a olhar para mercados emergentes em meio às incertezas fiscais observadas na Europa, o ambiente passou a ser marcado por um otimismo renovado.
Ao Jornal Opção, a coordenadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), a professora Adriana Pereira de Sousa, porém, ainda é prematuro interpretar esse movimento como uma mudança estrutural e definitiva.
“Minha leitura é que a forte valorização dos ativos brasileiros neste momento deve ser interpretada como uma reprecificação das expectativas, e ainda é cedo para classificá-la como uma mudança estrutural e sustentável do fluxo de capitais para o Brasil”, afirma.

Segundo a economista, embora a valorização do real tenha chamado a atenção do mercado, ela não representa, por si só, a confirmação de um retorno permanente do capital estrangeiro. Adriana explica que o câmbio responde simultaneamente a diversos fatores, como fluxo de capitais, diferencial de juros, preços das commodities, comportamento da moeda norte-americana no exterior, percepção de risco e expectativas sobre a política econômica.
“Eu não interpretaria ainda a cotação como confirmação de um retorno estrutural do capital estrangeiro. O movimento pós-eleitoral mostra claramente uma mudança de percepção dos investidores em relação aos ativos brasileiros, mas precisamos observar a persistência desse fluxo nas próximas semanas e, principalmente, sua composição”, explica.
Ela aponta que, para uma valorização mais duradoura da moeda brasileira, dependerá de fatores estruturais. “Uma valorização sustentável do real dependerá de fatores mais estruturais, como melhora das expectativas fiscais, redução do risco-país, manutenção de investimentos produtivos e equilíbrio das contas externas. Portanto, eu classificaria o movimento atual como uma reprecificação importante, mas ainda não como uma tendência estrutural consolidada”, afirma.
Na avaliação da especialista, o resultado das eleições teve papel decisivo para impulsionar os ativos brasileiros, mas não pode ser analisado de forma isolada. Ela observa que o desempenho recente do mercado reflete uma combinação entre fatores domésticos e internacionais.
“O componente eleitoral parece ter sido bastante relevante para a movimentação dos ativos brasileiros, em um movimento de forte valorização associado à percepção dos investidores sobre o resultado do primeiro turno e às expectativas para a política econômica do próximo governo”, aponta.
Ao mesmo tempo, Adriana ressalta que existe um contexto mais amplo por trás da movimentação dos mercados. “Não podemos atribuir toda a valorização ao resultado eleitoral. Existe também uma busca global por ativos, diferenças de juros entre economias e movimentos de realocação de portfólio”, explica.
A economista lembra que o cenário externo está longe de ser inteiramente positivo. “Além disso, o ambiente internacional não é simplesmente favorável. O dólar vem se fortalecendo e o euro está pressionado pela deterioração das condições fiscais e políticas em alguns países europeus, especialmente a França. Portanto, temos uma combinação de fatores externos e domésticos”, comenta.
Nesse contexto, ela entende que o processo eleitoral serviu como um gatilho para uma mudança de expectativas já em construção. “Eu diria que o resultado eleitoral funcionou como um catalisador de uma reprecificação que já encontrava condições internacionais para acontecer, mas ainda precisamos verificar quanto desse movimento permanecerá depois que o efeito inicial da eleição for absorvido pelos mercados”, aponta.
A fragilidade fiscal europeia, especialmente na França, também contribuiu para alterar o fluxo de recursos globais e pressionar a moeda comum do bloco. De acordo com Adriana, as preocupações se concentram na combinação de déficits elevados, crescimento da dívida pública e dificuldades políticas para implementar medidas de ajuste.
“O problema francês está relacionado principalmente à combinação de déficit fiscal elevado, dívida pública crescente, aumento do custo de financiamento e dificuldade política para aprovar medidas de ajuste”, explica.
Ela observa que o aumento do diferencial entre os juros pagos pelos títulos franceses e alemães reavivou receios que lembram momentos anteriores de tensão na zona do euro. Ainda assim, faz uma ponderação importante sobre os movimentos cambiais.
“É importante, entretanto, fazer uma distinção: a queda do euro em relação ao real não significa que o problema europeu, isoladamente, tenha causado a valorização do real. Temos dois movimentos simultâneos: enfraquecimento do euro e fortalecimento relativo dos ativos brasileiros. Ou seja, a taxa EUR/BRL incorpora as duas pontas da relação”, diz.
Em relação à Bolsa de Valores, a professora da UEG afirma que os recordes recentes refletem muito mais uma mudança de expectativas do que uma comprovação definitiva da melhora dos fundamentos econômicos.
“Eu evitaria interpretar o recorde como uma fotografia definitiva dos fundamentos da economia brasileira. A Bolsa antecipa expectativas. Quando o mercado acredita que haverá melhora das condições fiscais, redução do risco, juros menores ou maior crescimento econômico, os preços dos ativos podem subir antes que esses resultados apareçam efetivamente nos indicadores econômicos”, afirma.
Segundo ela, o desafio agora é transformar expectativa em resultado concreto. “Nesse sentido, os níveis recordes representam principalmente uma mudança de expectativas. Para que essa valorização se transforme em uma tendência de longo prazo, será necessário que o próximo governo entregue resultados concretos: equilíbrio fiscal, estabilidade institucional, segurança jurídica, aumento da produtividade e condições para investimento. O mercado pode antecipar uma melhora, mas posteriormente os fundamentos precisam confirmar essa expectativa”, aponta.
A especialista também chama atenção para a necessidade de distinguir os diferentes tipos de capital estrangeiro que entram no país. Segundo ela, investimentos financeiros de curto prazo e investimentos produtivos possuem comportamentos bastante distintos.
“É importante não colocar todos os fluxos estrangeiros na mesma categoria. O investimento em carteira, especialmente ações e títulos de renda fixa, reage rapidamente às mudanças de expectativas, diferencial de juros e percepção de risco. Já o investimento direto estrangeiro tem uma natureza muito mais estrutural, porque está relacionado à aquisição de participação em empresas e à instalação ou expansão de operações produtivas”, afirma.
Adriana ressalta que o investimento direto continua sendo o principal componente da entrada de recursos externos no Brasil e apresenta menor volatilidade. “Isso mostra uma característica importante da economia brasileira: o país continua recebendo um volume relevante de investimento direto, que é menos volátil que o investimento em carteira. Por isso, para avaliar se existe uma mudança realmente estrutural na percepção internacional sobre o Brasil, eu observaria principalmente o comportamento do investimento direto, e não apenas a entrada de recursos na Bolsa”, diz.
A valorização do real também pode produzir efeitos importantes sobre a inflação e, consequentemente, sobre a trajetória dos juros. De acordo com a economista, uma moeda mais forte tende a reduzir custos de produtos importados e insumos, contribuindo para aliviar parte das pressões sobre os preços.
“Uma valorização do real pode contribuir para reduzir pressões inflacionárias, principalmente por meio da diminuição do custo de produtos importados, insumos e alguns bens comercializados internacionalmente. Isso pode ajudar o processo de convergência da inflação e, em determinadas condições, criar espaço para uma política monetária menos restritiva”, afirma.
Ela alerta, entretanto, que esse processo não ocorre de forma automática. “Mas não é automático. O Banco Central ainda trabalha com expectativas de inflação acima da meta. Portanto, uma apreciação cambial ajuda, mas o Copom continuará olhando para inflação de serviços, expectativas, atividade econômica, mercado de trabalho, política fiscal e demais fatores que determinam a inflação”, aponta.
Já a alta da Bolsa pode influenciar positivamente o ambiente de negócios. “A Bolsa, por sua vez, pode produzir um efeito positivo sobre as condições financeiras e sobre o custo de capital das empresas, favorecendo investimentos. Mas uma valorização muito rápida dos ativos também precisa ser analisada com cautela, porque preços de mercado podem se afastar temporariamente dos fundamentos”, explica.
Para que o atual sentimento positivo seja mantido, Adriana aponta cinco frentes consideradas essenciais pelo mercado. A primeira delas é a credibilidade fiscal. “Primeiro, credibilidade fiscal. O mercado precisa saber qual será a trajetória da dívida pública e quais mecanismos serão utilizados para estabilizá-la”, afirma.
Na sequência, ela destaca a necessidade de previsibilidade institucional. “Segundo, previsibilidade regulatória e segurança jurídica, fundamentais para investimentos de longo prazo”, explica.
A economista também aponta a importância de aprofundar mudanças tributárias e elevar a produtividade da economia. “Terceiro, continuidade e aperfeiçoamento da reforma tributária, especialmente para garantir simplificação, neutralidade e redução do custo de conformidade das empresas. Quarto, uma agenda consistente de infraestrutura, concessões, investimentos e aumento da produtividade”, diz.
Por fim, ela ressalta a relevância da estabilidade política e institucional. “E quinto, uma relação institucional estável entre Executivo, Congresso, Banco Central e demais instituições”, pontua.
Na visão da professora da UEG, a principal exigência dos investidores não é ideológica, mas sim ligada à previsibilidade das regras econômicas. “O mercado não precisa necessariamente de uma determinada orientação ideológica. Ele precisa de previsibilidade”, explica.
Segundo Adriana Pereira de Sousa, é que o atual momento representa sobretudo uma aposta dos investidores em um cenário futuro mais favorável. “No fim, acredito que essa seja a principal mensagem desse movimento atual: o mercado está precificando expectativas. A questão agora é saber se essas expectativas serão confirmadas por políticas econômicas capazes de produzir crescimento, estabilidade fiscal e aumento da produtividade”, diz.
“É essa transição entre expectativa e fundamento que determinará se os atuais recordes do câmbio e da Bolsa representarão apenas uma reprecificação de curto prazo ou o início de um ciclo mais consistente de valorização dos ativos brasileiros”, completa.
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Fonte: Jornal Opção