Jogo é jogo, treino é treino
Por Valéria Guerra Reiter — Brasil 247
A República nasceu em fins do século XIX. Muitos dizem que ela foi um golpe. Um golpe certeiro na monarquia. Um golpe das oligarquias nascidas em terras brasileiras.
A Primeira República, também chamada de República Velha, em sua primeira fase — República da Espada — foi bem repressiva.
Em 1904, durante a Revolta da Vacina, o governo decretou estado de sítio, e inúmeras pessoas foram presas e enviadas para o Acre sem acusação formal ou julgamento. Anos depois, durante o governo de Artur Bernardes, entre 1922 e 1926, o país permaneceu sob estado de sítio por longo período, com censura à imprensa e prisão e desterro de opositores.
Comparando com o período imperial e monárquico, percebemos que este tipo de liberdade trazido pela República não foi tão diferente daquela época.
E o Império também conheceu episódios de forte repressão política. Em 1824, a Confederação do Equador se insurgiu contra o centralismo do governo de D. Pedro I. A reação imperial foi violenta. Frei Caneca, uma das principais lideranças do movimento, foi preso, julgado e condenado à morte. Como os carrascos se recusaram a cumprir a sentença de enforcamento, ele foi executado por fuzilamento em 13 de janeiro de 1825, no Recife.
Mas a história brasileira não pararia aí. Em 1937, já sob a República, Getúlio Vargas instauraria o Estado Novo. O Congresso Nacional foi fechado, os partidos políticos foram extintos e a imprensa passou a sofrer censura. O regime perseguiu e prendeu opositores durante seus oito anos de existência.
Quando pensamos em Getúlio Vargas, pensamos em tomada de poder, em princípio, através também de uma revolução. A Revolução de 1930 levou Vargas ao poder, sem que ele tivesse sido eleito presidente. Ele assumiu o Governo Provisório após a deposição de Washington Luís.
E a questão constitucional também se impôs. A Constituição de 1891 deixou de vigorar com a Revolução de 1930, e o país passou a ser governado pelo Governo Provisório. Em 1932, São Paulo se levantou na Revolução Constitucionalista, reivindicando a reconstitucionalização do país e maior autonomia para o estado. A revolta foi derrotada militarmente, mas o processo constituinte avançou.
Em 1933, foi eleita a Assembleia Nacional Constituinte. Em 1934, uma nova Constituição foi promulgada, e Getúlio Vargas foi eleito indiretamente pela própria Assembleia Constituinte.
E lembramos do episódio com Olga Benário. Não podemos esquecer. Aliás, a história é boa conselheira e nos oferta os fatos que avivam nossa memória.
Olga Benário, militante comunista alemã e companheira de Luís Carlos Prestes, foi presa pelas autoridades brasileiras em 1936, grávida. O governo de Getúlio Vargas determinou sua expulsão e ela foi deportada para a Alemanha nazista, sendo entregue ao regime que a perseguia. Levou consigo a filha que ainda estava no ventre. Mais tarde, depois de passar por prisões e pelo campo de concentração de Ravensbrück, Olga foi enviada para Bernburg, onde foi assassinada em uma câmara de gás, em abril de 1942.
É um episódio que não pode ser apagado da nossa memória. A história nos mostra, mais uma vez, que os jogos de poder podem produzir consequências que ultrapassam os limites das instituições e atingem diretamente a vida humana.
A política também é um jogo: quando um professor entra no palco da sala de aula e inicia a sua jornada acadêmica e discursiva diante do seu alunado, ele está exercendo a política. E, neste jogo, o objetivo final é o aprendizado, o despertar da cognição e a comunicação.
A política partidária inclui e exclui os indivíduos dentro de uma estrutura organizada do ponto de vista sistêmico. Fica aqui a reflexão: será que todo o aparato socioeconômico gerido pelos políticos atende a 100% da população de um país?
Sabemos que, por trás das instituições, dos poderes, há outros poderes, há outros aparatos. É o jogo. A notícia abaixo esclarece o quanto existe uma camada popular que nunca participa do jogo.
Quem são os excluídos do Brasil? Aqueles que nunca ganham fatia nenhuma para sua evolução social e humana?
Os números ajudam a responder.
Em março de 2024, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, publicou o estudo “A População em situação de rua nos números do Cadastro Único”, de autoria do pesquisador Marco Antônio Carvalho Natalino. O trabalho apresenta um diagnóstico nacional da população em situação de rua a partir dos dados do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.
Os números são expressivos. O estudo mostra que, entre os adultos em situação de rua, 69% realizavam alguma atividade para conseguir dinheiro, mas apenas 1% possuía emprego com carteira assinada. Vinte e quatro por cento não tinham carteira de trabalho e 29% não tinham título de eleitor.
E há ainda a dimensão da educação: apenas 58% das crianças e adolescentes de 7 a 15 anos em situação de rua frequentavam a escola.
E que escola? Uma escola sem a qualidade necessária, sem os profissionais reconhecidos e bem pagos.
São números que ultrapassam a questão da pobreza. Estamos falando de pessoas afastadas de instrumentos fundamentais de participação social: trabalho formal, documentação, educação, moradia e, em muitos casos, do próprio exercício da cidadania.
É como se houvesse um enorme contingente de brasileiros diante de um jogo do qual não participam.
Em outro levantamento, o próprio Ipea mostrou a dimensão da dificuldade de alcance da proteção social. Em 2014, o número de pessoas em situação de rua atendidas pelo Serviço Especializado em Abordagem Social correspondia a 78,3% da população em situação de rua cadastrada. Em 2021, essa proporção havia caído para 34,8%.
Ou seja: mesmo com a existência de uma estrutura pública de assistência social, uma parcela expressiva dessa população permanece fora do alcance efetivo desse serviço.
Em 1970, na Guanabara, a exclusão social já estava presente nas ruas, nas favelas e na própria forma como o Estado tratava aqueles que viviam à margem. A Guanabara tinha, naquele ano, cerca de 4,25 milhões de habitantes, e aproximadamente 565 mil pessoas viviam em favelas.
A população em situação de rua também existia. Havia, inclusive, um aparato estatal específico de repressão à mendicância. Entre 1962 e 1963, veio à tona a chamada “Operação Mata-Mendigos”, envolvendo agentes do Serviço de Repressão à Mendicância da Guanabara.
Não temos, para 1970, uma contagem oficial da população em situação de rua que possa ser comparada diretamente com os números atuais. Mas sabemos que essas pessoas já faziam parte da paisagem social da cidade.
A exclusão mudou de nome, de aparência e de instrumento de medição. Mas ela continua presente.
Então este jogo é apenas um treino, já que não são todos que participam. As chances são desiguais.
Alguns entram em campo com estrutura, recursos, informação e possibilidades de escolha. Outros sequer conseguem chegar ao campo. E há aqueles que passam a vida inteira assistindo ao jogo, sem jamais receber as condições mínimas para disputar a partida.
O povo brasileiro está sob uma Constituição Republicana, mas ainda ensaiando, treinando. A República na verdade não é, ainda, o oásis, que se esperava.
O jogo eleitoral, especialmente o atual, deveria ofertar uma dose de responsabilidade incrível sobre os ombros dos candidatos, que têm a missão sagrada de modificar vidas, que dependem da sua atuação no Parlamento, no Executivo. No entanto, parece ainda um longo treino de adaptação às suas participações, já que temos uma gama de pessoas que se abstêm de escolher alguém para representá-las. O que está dando errado na equação das eleições, da representatividade?
Esta nuance é importante. O nosso presidente, que tenta pela quarta vez assumir o controle do Titanic Brasil, foi surpreendido por um resultado muito aquém de sua perspectiva, especialmente por ter sido baseado em pesquisas que apontavam para um desfecho diferente daquele verificado nas urnas em 4 de outubro de 2026.
Mas, todavia, contudo, sabemos que jogo é jogo e treino é treino, frase do jogador Didi, às vésperas da Copa de 1958. Depois do treino de hoje, foi marcado um jogo para 25 de outubro de 2026…
Fonte: Brasil 247