Não transformem os eleitores em réus por suas escolhas: é assim que se perde!
Por Jacqueline Muniz — Brasil 247
Diante da derrota no primeiro turno para o candidato de extrema-direita à Presidência da República, causa-me perplexidade ver pessoas que se autointitulam progressistas explicitarem nas redes sociais uma lógica violenta do tipo: “Eles escolheram o pior, então que se lasquem”.
É uma contradição que merece atenção. Em nome de valores progressistas, reproduz-se uma visão elitista, tutelar e punitivista contra aqueles que fizeram escolhas eleitorais diferentes das nossas, pelas mais diversas motivações.
Essa reação padece da mesma miopia política que perdeu votos ao querer tutelar os eleitores, em vez de conhecê-los e escutá-los. Nessa forma intimidatória de pensar, o eleitor deixa de ser sujeito político e passa a ser réu a ser condenado pelo seu direito de escolher: alguém infantilizado, que leva sermão de pessoas que se consideram mais esclarecidas e melhores do que ele. Daí muito do voto oculto e envergonhado, sem exposição pública da escolha em muitos casos.
Trata-se de uma manifestação do que nomeei como regime da esculachocracia, sob a inspiração de Paulo, um irreverente amigo e interlocutor. É esse regime que as camadas populares enfrentam diariamente, pulando as cercas do preconceito e da discriminação, sofrendo destituições a cada corre: anda-se uma casa para a frente, muitas para o lado e várias para trás. Vive-se uma mobilidade social reversa, em que as exclusões começam nos olhares e nas palavras de censura e se acumulam numa cidadania de consumo, provisória e precária, que contabiliza mais perdas do que ganhos no jogo da sobrevivência.
Basta sair de casa na periferia para receber um dedo na cara, um esculacho, uma ordem, um desprezo, um pito de quem se acha por cima da carne-seca no mundo branco dos direitos. Calado, o eleitor já estaria errado; falando sobre suas escolhas, mais errado ainda estaria. Não há como passar nessa prova moral, que subordina a “melhora” política do eleitor primeiro para só depois receber as melhorias da cidadania. O nome disso é também voto sob cabresto. Afinal, é o eleitor que tem que ser submetido às provas olímpicas de consciência política e gratidão ou os candidatos que querem os seus votos?
Como, na prática, se odeia tanto a igualdade mesmo quando se defende a equivalência em direitos? Não é surpreendente o voto da revolta e do chutar o pau da barraca, o voto antissistema e, por isso, “revolucionário” em quem oferece sentido, identidade e mobiliza pelo cimento do afeto, ainda que com uma agenda oculta predadora. Venha para o nosso lado: aqui você seguirá inferior e com defeitos capacitistas, mas não será condenado e virará “preto, LGBTQIA+, crente, indígena de estimação”. Aqui você será protegido por quem também se acha superior, mas com a vantagem de ser o seu protetor de hoje, mesmo que tirano no amanhã.
A esculachocracia perverte os lugares de fala dos eleitores em lugares de falha. Os eleitores estariam sempre devendo aos profetas de um futuro melhor porque ousam não seguir o que esses seres autoimportantes idealizam. Esse modo de pensar revela uma visão hierárquica e desigual da cidadania, em que os populares não são sujeitos de direito, e sim sujeitos ao direito que será concedido como num programa de milhagem. Há que acumular pontos com os donos da verdade para receber a cidadania que deveria já ser do eleitor.
Estamos certos! A realidade é que está errada! Isso mais parece O Alienista, de Machado de Assis: Simão Bacamarte vai encontrando a loucura nos outros e internando quase toda Itaguaí na Casa Verde, até que, ao final, sua certeza científica se volta contra ele próprio.
Há aí soberba intelectual, por supor que se detêm a verdade e a razão; superioridade moral, por se autoproclamar o lado certo da vida; e vingança narcísica, que sentencia e pune o eleitor por suas escolhas.
Essa pedagogia da violência e do punitivismo — “vai aprender na porrada e no sufoco”, “quem mandou votar errado?” — revela mais sobre quem julga do que sobre quem é colocado no banco dos réus e reprovado no Enem dos doutos arrogantes que se acreditam investidos do patético e indemonstrável “notório saber”. Produzem-se autoverdades e fake science que dizem combater: impõem-se argumentos de autoridade em vez de demonstrar a autoridade dos argumentos que bradam. Busca-se lacrar. Produz-se o pensamento único, autoritário e vaidoso de si, em vez de construir o pensamento comum pactuado sob escuta partilhada.
Afinal, descer do pedestal e pactuar dá trabalho. Requer quebrar os próprios paradigmas, pôr à prova as convicções e ir às ruas pesquisar e conhecer as realidades em seus próprios termos. Requer sair das explicações generalistas de escritório e das salas virtuais para entender para valer o que temos de singular e em comum. Mas, para isso, é preciso ir ao encontro dessas realidades sem as armaduras mentais que animam discursos defensivos e de cercado VIP.
Os medrosos das realidades periféricas tendem a criar fabulações sobre o universo popular em sua pluralidade, porque o que está em jogo não é escutar, apreender e dialogar, mas impor uma visão prescritiva de mundo, carimbar que se está com a razão! Por isso, subestimam e desmerecem as questões populares, como a segurança, o crime organizado, as religiosidades, o trabalho aquém e além da CLT, as relações de gênero e família, as territorialidades e os processos identitários.
Bradam por uma democracia abstrata ameaçada, fingindo não ver a democracia que não chegou aos mundos populares. Impõe-se aos periféricos vulnerabilizados que aguardem, mais uma vez e de novo, o seu lugar no final da fila, pois seus desejos, necessidades e direitos ameaçados ou negligenciados podem esperar a democracia do asfalto burguês se sentir segura. Qualquer um da periferia sabe que viver esperando a sua vez é uma tecnologia de destituição da cidadania no tempo presente de sua vida, na qual o futuro é um horizonte escasso. A vida popular é presentista e não tem como esperar pelo governante bom, gente boa que vai salvar suas vidas. As demandas são no aqui e agora do provisório, do precário, da sobrevivência. O tempo anda mais rápido e é utilitário para quem tem um espaço social restritivo com pouca circulação, em especial quando submetido a domínios territoriais armados. Aí não dá mesmo para esperar a democracia do asfalto deixar de ser amedrontada.
Na eleição de 2018, chamei este tipo de mentalidade, atravessada pelo culto míope à autoimportância, de “lacerdismo de esquerda”. Fui, claro, questionada. E ainda bem. Um argumento, para ser consistente, precisa ser passível de refutação. O que não admite refutação deixa o terreno do argumento e se aproxima da doutrina fundamentalista embrulhada em papel vistoso de ciência. Os que não submetem seus argumentos ao teste da realidade costumam ser pregadores de si e para os mesmos, reproduzindo o poder pastoral que acusam nos adversários. A ignorância ilustrada parece mesmo uma bênção para quem acredita que, em seu quadrado reflexivo, cabe o universo que finge conhecer, não muito diferente do que fazem os tios de WhatsApp.
Por isso, diante do resultado do primeiro turno, cabe perguntar: não seria esse pensamento, refratário ao entendimento de como funcionam as realidades populares, parte do que levou a não enxergar o caminho da derrota no primeiro turno?
Porque dizer que o eleitor “escolheu errado” e que agora “tem mais é que se danar” é dizer, com outras palavras, a máxima elitista de que o eleitor não sabe votar. Que precisa de tutor, despachante político ou tradutor-intérprete que tome para si sua representação e pense, vaticine e escolha em seu lugar. É reduzi-lo a um ser de curral, manipulável por pastores e visionários do bem. Mas, sendo do bem, pode!
Nunca chamei eleitor de gado, porque gado não pensa. Lula também não!
Nunca chamei eleitor de minion, porque eleitor não é um destrambelhado sem articulação cognitiva ou “dissociado”, como dizem alguns mais polidos. Lula também não!
Nunca chamei eleitor de robô, porque eleitor pensa, sente e faz escolhas sobre a própria vida com as ferramentas que tem à mão para continuar dando sentido à sua existência. Lula também não!
Nunca chamei eleitor de “pobre de direita”, porque pobre, antes de tudo, faz conta. E, no cálculo cotidiano da sobrevivência e da dignidade, pouco importam as palavras inventadas para enquadrá-lo ou, melhor dizendo, para humilhá-lo. Lula também não!
Não uso qualificativos acusatórios contra o eleitor porque sua escolha divergiu da minha. Antes de acusar as realidades populares de incapazes ou ignorantes por serem o que são, é preciso romper com a nossa própria ignorância ilustrada e procurar compreender como essas realidades funcionam.
O caminho mais curto para a cegueira vaidosa e insolente e o atalho mais rápido para a estupidez são o julgamento. E todo julgamento moralista traz consigo as razões desiguais de classe, cor, gênero e tantas outras. E isso faz, sim, perder muitos votos. Lula, que tem os votos, sabe disso e, por isso, chegou à Presidência três vezes.
Em vez de sentenciar os outros, seria melhor compreender suas realidades para poder dialogar com elas. Do contrário, vai-se reproduzir o mesmo jogo de destituição de suas identidades, experiências e sentidos.
E talvez seja esta uma das perguntas que o primeiro turno nos obriga a enfrentar:
como pretendemos disputar o voto de quem começamos por desqualificar ou ignorar?
Vamos buscar o voto pela confiança, e a confiança começa pela humildade da escuta generosa e desarmada para conhecer e compreender.
Fonte: Brasil 247