The Washington Post: Brasil tem eleição mais focada em personalidades do que em propostas
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) terminaram em primeiro e segundo lugar no primeiro turno da eleição presidencial do Brasil no domingo (4), configurando uma revanche política para o pleito decisivo marcado para 25 de outubro, afirma análise do The Washington Post.
Com 99,3% das urnas apuradas pelas autoridades eleitorais, Flávio Bolsonaro conquistou 47% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45%. O cenário ocorre quatro anos após Lula derrotar Jair Bolsonaro (PL), pela margem mais estreita da história do país. Jair Bolsonaro, aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusou-se a aceitar o resultado na ocasião; seus apoiadores invadiram e vandalizaram o palácio presidencial do Brasil, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Jair Bolsonaro foi condenado no ano passado por tentar dar um golpe violento para se manter no poder após sua derrota e foi sentenciado a mais de 27 anos. Da prisão, ele escolheu Flávio para concorrer em seu lugar e, caso vença, lhe conceder anistia. Os brasileiros retornarão às urnas em três semanas para escolher entre eles.
“A palavra é mudança”, disse um entusiasmado Flávio Bolsonaro a jornalistas na noite de domingo em Brasília. “O Brasil não aguenta mais. A era do Partido dos Trabalhadores está encerrada, deixando para trás um histórico de desesperança”. ele acrescentou: “Lula está lutando pelo poder. Eu estou lutando pelo Brasil”.
Lula, em São Paulo, disse que o resultado o surpreendeu, mas que fechará a diferença nas próximas semanas comparando “o Brasil da incerteza e de um passado sombrio com o Brasil do futuro”. O presidente afirmou: “Nós nunca conseguimos tudo o que queremos. Confesso que estava convencido de que venceria no primeiro turno, mas já tinha pensado isso antes. O segundo turno é o momento da verdade, o momento em que mostramos o verdadeiro retrato do Brasil”.
Em jogo está se o maior país da América Latina continuará a guinada à direita da região — que já aproximou a Argentina, a Colômbia e outros países de uma cooperação mais estreita com a administração Trump sobre o narcotráfico e outras prioridades — ou se permanecerá como o último principal ponto de resistência da América do Sul, desta o jornal norte-americano. Em uma disputa direta, pesquisas recentes mostraram Flávio Bolsonaro, de 45 anos, e Lula, de 80 anos, em empate técnico.
A campanha de Flávio Bolsonaro, relata o The Washington Post, foi impulsionada no domingo por um desempenho inesperadamente forte de conservadores em disputas estaduais e parlamentares. Ele pareceu se beneficiar de migrações de última hora de eleitores de outros candidatos de direita dispostos a impedir a reeleição de Lula.
O jornal afirma que a corrida eleitoral brasileira tem sido menos sobre políticas públicas e mais sobre personalidades, e uma questão central tem sido a possibilidade de Trump tentar influenciar a votação. Trump não declarou apoio explícito a Flávio Bolsonaro, como fez com seu pai em 2022. No entanto, ele utilizou tarifas e sanções no ano passado em uma tentativa fracassada de pressionar as autoridades a arquivarem o processo contra Jair Bolsonaro e recebeu Flávio na Casa Branca. Seu Departamento de Estado planejava enviar altos funcionários ao país para questionar a integridade do sistema eleitoral, enquanto a administração de Lula afirmou que lhes negaria os vistos.
Flávio Bolsonaro também está sob investigação após solicitar milhões de dólares a Daniel Vorcaro, do Banco Master, destaca a publicação. Seus apoiadores tentaram atenuar o impacto sobre sua campanha destacando mensagens do banqueiro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, a quem acusam de ser aliado de Lula e inimigo de Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro e Lula têm agora três semanas para convencer os brasileiros que votaram contra eles no primeiro turno a apoiá-los no segundo, agendado para 25 de outubro. Pesquisas apontam que cerca de 45% afirmam que não votariam em Lula sob nenhuma circunstância, enquanto 45% dizem o mesmo sobre Bolsonaro.
“Uma eleição sobre mudança é muito difícil para o incumbente”, disse o economista da Universidade George Washington Maurício Moura, fundador da empresa de pesquisas Ideia. “Lula tem que criar a expectativa de que, neste caso, a mudança é ruim”.
Fonte: Brasil 247