Pedro Sánchez convoca eleição antecipada na Espanha para 29 de novembro
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, anunciou nesta segunda-feira (5) a convocação de eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, em uma tentativa de renovar sua base de apoio após sucessivos impasses no Parlamento e a rejeição, na semana passada, de medidas consideradas centrais pelo governo na área de habitação.
Segundo a Reuters, a decisão ocorre depois que decretos voltados ao enfrentamento da crise habitacional foram barrados por parlamentares de direita, provocando grandes manifestações de movimentos por moradia no país. Sánchez afirmou que pretende buscar nas urnas uma maioria mais ampla para sustentar sua agenda.
“Precisamos renovar o apoio das pessoas”, declarou o premiê em pronunciamento televisionado. “Precisamos nos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no Parlamento, que nos permita superar interesses estabelecidos, promover novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha.”
A convocação representa uma aposta de alto risco para Sánchez. O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) aparece atrás da oposição de direita na maior parte das pesquisas eleitorais, enquanto um eventual avanço do Partido Popular (PP), com apoio do Vox, pode levar a extrema direita ao governo central espanhol pela primeira vez desde a redemocratização após a morte do ditador Francisco Franco.
Sánchez reconheceu no pronunciamento que seu governo cometeu erros e não conseguiu cumprir parte das promessas feitas aos eleitores.
“Também sei que parte dessa maioria social está insatisfeita hoje”, afirmou. O primeiro-ministro disse ainda que pretende disputar a eleição para que a Espanha continue sendo “um bastião de abertura, justiça social e responsabilidade ambiental”.
A oposição recebeu o anúncio como uma oportunidade para encerrar o atual ciclo político. O PP publicou a expressão “FINALMENTE” em uma postagem na rede X. O líder conservador Alberto Núñez Feijóo vinha defendendo ao longo da legislatura a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas.
O líder do Vox, Santiago Abascal, adotou tom mais cauteloso apesar do cenário favorável à direita nas pesquisas.
“As pesquisas disseram a mesma coisa em 2023, e Sánchez conseguiu formar uma maioria com todos os seus cúmplices”, afirmou Abascal à emissora Antena 3.
Governo perdeu capacidade de formar maiorias estáveis
A decisão de Sánchez ocorre após um período de crescente fragmentação entre os partidos que sustentam seu governo. Embora tenha conseguido construir diferentes alianças parlamentares desde que chegou ao poder, o premiê enfrentou dificuldades maiores em seu terceiro mandato para aprovar projetos relevantes.
O Executivo também não consegue aprovar um novo Orçamento desde 2023, apesar de a economia espanhola manter desempenho superior ao de grande parte das economias desenvolvidas.
Sánchez permanece no poder há oito anos por meio de coalizões que reuniram partidos da esquerda, da esquerda radical, nacionalistas regionais e setores independentistas. Em nenhuma de suas vitórias eleitorais recentes, porém, o PSOE conseguiu sozinho uma maioria parlamentar suficiente para governar.
Em 2023, Sánchez contrariou as expectativas após fortes perdas socialistas em eleições regionais e municipais e conseguiu permanecer no cargo por meio de acordos com diferentes partidos.
Um dos pontos mais controversos dessas negociações foi a concessão de uma anistia a lideranças do movimento independentista da Catalunha em troca de apoio parlamentar, decisão duramente criticada por adversários políticos e por setores do eleitorado espanhol.
Habitação recolocou agenda social no centro do debate
A crise habitacional passou a ocupar posição central na estratégia política do governo nas últimas semanas. Propostas apresentadas por Sánchez para conter o aumento dos custos de moradia tiveram boa recepção entre setores da população, mas acabaram rejeitadas no Parlamento na sexta-feira.
A derrota provocou protestos de ativistas por moradia em diferentes partes do país e reforçou o argumento de Sánchez de que o governo precisa de uma nova correlação de forças no Legislativo.
Para Lorenzo Bernaldo de Quirós, economista e presidente da consultoria Freemarket Corporate Intelligence, o tema abriu uma oportunidade política para o premiê.
“Esta é uma janela de oportunidade”, afirmou. “Se ele não convocar eleições rapidamente, esses temas voltarão ao centro do debate.”
Entre os assuntos citados pelo economista estão as denúncias de corrupção envolvendo integrantes do PSOE e a pressão política provocada pela questão migratória em Ceuta.
Fonte: Brasil 247