Por Mauri Cruz — Brasil de Fato

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Advogado socioambiental (PUC/RS), especialista em direitos humanos (UFRGS/ESMPU), professor de pós-graduação nas disciplinas de planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade urbana, contratos, licitações, parcerias e gestão de organizações da sociedade civil. Diretor Executivo do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor, sócio e diretor da Usideias – Usina, Ideias e Projetos Ltda pela qual atua nos temas de pesquisa, planejamento, gestão, comunicação e avaliação de programas e projetos há mais de 20 anos.

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Chegamos à reta final das eleições de 2026 com um misto de esperança e apreensão. Esperança porque, depois de um longo período de retrocessos iniciado com o golpe contra a presidenta Dilma que resultou nos (des)governos de Temer e Bolsonaro, o presidente Lula recuperou, a partir de 2023, a reconstrução de um ambiente civilizatório e democrático.

Mais que isso, o Lula 3 esteve à altura dos desafios de nossa era mantendo as pautas de inclusão social, mas, com radicalidade e firmeza, colocando no centro da pauta política o tema das desigualdades e dos privilégios. Só para se ter uma ideia do que isso representa, basta analisar a divisão percentual da remuneração média do povo brasileiro – ver quadro do PNAD Contínua/IBGE – que indica que 70% da população ganha até R$ 2.987,00 e que somente 5% da população brasileira tem renda acima de R$ 9.956,00.

O mantra repetido exaustivamente de “colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda”, finalmente se tornou uma política pública efetiva, com a isenção do IR para rendas até R$ 5.000,00 e a taxação de rendas a partir de R$ 50.000,00 mensais. Por sua vez, a reforma tributária avançou na simplificação focando no combate a sonegação, o que é meritório, no entanto, ainda não pegou pesado com quem acumula riquezas às custas da exploração do trabalho ou ganha “dividendos” através da ciranda financeira alimentada por uma das maiores taxas de juros do mundo.

Por isso, é preciso ir mais além. Neste sentido, no podcast Flow, com o brilhantismo de quem sabe que está do lado certo da história, Lula repetiu uma frase que sintetiza a visão política que o acompanha desde 1978: “Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza. Pouco dinheiro na mão de muitos, é riqueza.” A ideia é simples, mas revolucionária. Para garantir que toda população brasileira faça três refeições ao dia, é preciso uma verdadeira revolução econômica com uma radical distribuição de renda. 

A esperança se baseia nesta nova fase do presidente Lula. A provável vitória será resultado de um delicado processo de construção de unidade nacional, tendo o Nordeste como território forte, mas com retomada de uma base política organizada em todas as demais regiões do país. E as pesquisas por estados demonstram isso. Caso os números se confirmem, a estratégia de unidade tende a se refletir, mesmo que de forma tímida, com maior peso político no Congresso Nacional, palco de duras disputas no próximo período histórico. A esperança nos aponta uma vitória no primeiro ou no segundo turno e o início do que iremos chamar do início do fim da era Lula da Silva, o metalúrgico nordestino que mudou o destino do mundo, apontado mais com atos do que com teorias, um caminho para superar as desigualdades e as injustiças decorrentes da sociedade capitalista.

É preciso reconhecer que foi unidade construída no campo democrático, combinada com a postura firme do poder judiciário contra os atos golpistas de 08 de janeiro de 2023, que desenharam o atual quadro eleitoral onde a direita e a extrema-direita precisaram se apresentar através de vários nomes. Aliás, achei muito espirituosa a análise de um humorista comparando esses candidatos como se fossem todos tipos distintos do mesmo bolsonarismo, tipo os modelos da boneca Barbie: o bolsonarista picareta (Flávio Bolsonaro), o bolsonarista fazendeiro (Caiado), o bolsonarista adolescente (Renan Santos), o bolsonarista professor (Augusto Cury) e o bolsonarista bobalhão (Romeu Zema). Para o partido da Rede Globo, seriam uma penca de opção da chamada “terceira via”, só que não. Meros balão de ensaio para ver se algum deles cola.

Apesar da baixíssima qualidade e representação política destes nomes, somados, podem ganhar votos suficientes para forçar a realização de um segundo turno. A disputa segue acirrada. Nos últimos dias, pelos acertos políticos da campanha Lula e, é preciso reconhecer, pelos erros de nossos inimigos, retomamos a ofensiva e crescemos na expectativa de votos. Lula segue na frente. A onda vermelha que começou no nordeste se espalhou pelo país. A pesquisa Datafolha da sexta (02/10) indica vitória do Presidente no primeiro e no segundo turno e, com tendência ascendente. Os mesmos dados indicam que os demais candidatos seguem perdendo votos, mas esse voto não parecem estar migrando para o bolsonarinho. Mas os desafios são enormes. Nada está resolvido. Principalmente porque, segundo alguns analistas, há um percentual do eleitorado que poderia ser denominado de ponto cego, impossível de projetar qual será seu comportamento no domingo. É um percentual significativo em uma disputa tão acirrada, onde algo entorno de 5%, poderá representar o desfecho das eleições já no primeiro turno. 

Soma-se a isso, a declarada intervenção do governo norte-americano que joga todas suas fichas para influenciar o processo eleitoral brasileiro. É preciso estar atento porque, a quase totalidade dos softwares e aplicativos utilizados no país tem como origem empresas norte-americanas, todas suscetíveis a interferência direta do governo. Pura contradição. Os neoliberais que demonizam a intervenção estatal na área privada, não questionam a legislação dos EUA que legitima a intervenção do governo em suas empresas quando, segundo o entendimento do presidente de plantão, houver risco a segurança nacional deles.

Neste embate, impossível não comentar o golpe de mestre dado ontem pelo presidente Lula ao não ir ao debate da Rede Globo. Mais que isso, articular a participação no podcast Flow, no mesmo horário, para fazer o contraponto, ao vivo. Essa decisão, combinada com os despachos judiciais sobre os convidados e o formato do debate, resultou, num primeiro momento, na fuga do candidato Flávio Bolsonaro e num segundo, o cancelamento do próprio debate. Duro golpe para a Globo e, como está sendo exaustivamente compartilhado nas redes sociais, troco da manipulação feita no debate de 1989 pela empresa golpista. Resultado: Lula ficou mais de duas horas, falando de forma franca, acolhedora e tranquila sobre temas complexos e polêmicos, para mais de 1,5 milhões de pessoas ao vivo, enquanto os demais candidatos ficaram sem palanque no antepenúltimo dia de campanha. Como ditos nas redes, primeira vez que um candidato vence o debate sem participar dele.

Certo é que, eleito ou não, Lula inicia neste domingo a trajetória para o encerramento de uma carreira brilhante. Seja exercendo seu quarto e último mandato ou não. E isso não é pouca coisa. A luta popular e democrática no Brasil tem em seu DNA as escolhas deste metalúrgico, sindicalista, fundador do PT e Presidente do Brasil por várias vezes. Há um legado potente. Mas a era pós-Lula, começa agora. E isso é muito importante porque pode significar a reconstrução da estratégia política do campo democrático e popular para o próximo período. Lula é inquestionável. Mas é certo que ele nunca colocou em sua agenda prioritária a superação do capitalismo. Para Lula, o grande capital, quando se dispõe a construir medidas para melhorar a vida concreta do povo, sempre será tratado como aliado. E esse é seu mérito. Mas também um limite estratégico. A base objetiva das desigualdades não é moral, é política. Resulta da forma como organizamos nossas sociedades. E uma sociedade estruturada na exploração do trabalho será sempre, uma sociedade injusta e desigual. Creio que, parte da insatisfação das juventudes decorre dessa postura de uma certa acomodação das esquerdas com o atual sistema. Talvez por isso, em todo mundo, a extrema direita tem assumido um discurso antissistêmico. Justamente ela que sustenta as bases e se beneficia do capitalismo neoliberal. E essa perda da capacidade de diálogo com as juventudes tem se refletido nos processos de disputa político-eleitoral. É preciso retomar a radicalidade da luta anticapitalista.

Seja qual for o resultado, acreditando que as eleições cumprem um papel fundamental na alteração da correlação de forças nas sociedades contemporâneas. É certo que elas se adequam e se moldam de forma a manter os privilégios das elites capitalistas. Aliás, tenho dito que, passado o pleito, os derrotados também seguirão de pé. Mas, é impossível negar que, mesmo nos marcos da democracia burguesa, tem permitido a criação de um ambiente de embate político sobre projetos de sociedades. O PT, os demais partidos democráticos e os movimentos sociais têm conseguido utilizar estes momentos para a defesa de conceitos e projetos que apontam para uma nova sociedade. A extrema-direita também aprendeu a se mexer neste ambiente. Domingo, nossa esperança equilibrista volta as urnas e quiçá, saiamos mais uma vez, vitoriosos para reabrir um novo ciclo histórico rumo a construção de uma sociedade pós-capitalista. Boa luta!

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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Fonte: Brasil de Fato

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