Floriano Pesaro: o risco Bolsonaro não pode ser subestimado
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — A memória política é a principal trincheira de preservação da democracia. Com essa premissa, o sociólogo Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil e figura central na articulação da transição governamental de 2022, concedeu uma contundente entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, na TV 247. A conversa marcou o lançamento do seu novo livro, Consequências Imprevisíveis, obra que reúne e sistematiza dezenas de relatórios de inteligência política elaborados semanalmente entre 2020 e 2022, no auge das investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro.
Longe de ser uma análise retrospectiva tecida no conforto do distanciamento histórico, o livro documenta em tempo real a temperatura institucional de um país que caminhou no fio da navalha. Na avaliação de Pesaro, subestimar a capacidade de articulação, a violência simbólica e o método da extrema-direita não é apenas um equívoco de leitura de conjuntura: trata-se de um risco existencial para o regime republicano.
A “cupinização” do Estado: a tática de corrosão por dentro
Um dos conceitos centrais apresentados por Floriano Pesaro é o da “cupinização” da democracia. Ao contrário dos golpes clássicos do século XX, desfechados por tanques nas ruas de um dia para o outro, a estratégia bolsonarista apostou na destruição paulatina e interna das estruturas públicas.
“É como uma casa em que você vê um foco de cupim em uma parede, depois em outra. As instituições públicas brasileiras começaram a ser atacadas de forma sorrateira. Você reduz o orçamento, asfixia os órgãos de fiscalização e controle como o Ibama, relativiza a ciência nas universidades e aparelha setores estratégicos. Foi um projeto deliberado de enfraquecimento para forçar uma ruptura”, explicou Pesaro.
Segundo o sociólogo, o negacionismo sanitário durante a pandemia de Covid-19 e a retórica agressiva contra os poderes constituídos não eram arroubos retóricos casuais ou manifestações de mera inaptidão administrativa. Tratavam-se de testes de estresse calculados: tensionava-se a corda institucional para medir até onde as instituições — em especial o Supremo Tribunal Federal e os governos estaduais — resistiriam antes de ceder.
Bastidores da transição e os episódios de dezembro de 2022
Como secretário-executivo do gabinete de transição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Pesaro vivenciou de perto a terra arrasada deixada pela gestão anterior. Ao lado do coordenador-geral Geraldo Alckmin, de Aloizio Mercadante e de Gleisi Hoffmann, ele se deparou com apagões intencionais de dados públicos em pastas sensíveis, como Saúde e Educação, e com um ambiente marcado por desconfiança explícita.
Entre as memórias mais dramáticas, Pesaro destacou a noite de 12 de dezembro de 2022, data da diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Superior Eleitoral. Hospedado nas imediações da Esplanada dos Ministérios, ele acompanhou das janelas do hotel as ações coordenadas de vandalismo que incendiaram ônibus e carros em Brasília:
- Mobilização orquestrada: caminhonetes de grande porte descarregando indivíduos organizados com pedaços de pau;
- Conivência local: viaturas policiais que transitavam diante da depredação sem efetuar dispersões imediatas;
- Ensaio para o 8 de Janeiro: um movimento prévio destinado a produzir o caos e justificar uma intervenção de exceção.
“Não havia nada de espontâneo ou de ‘passeio de senhoras com Bíblia na mão’. O que vimos foi uma ação articulada, com métodos que flertavam abertamente com o fascismo e com o objetivo de impedir a posse do governo eleito”, enfatizou.
A Frente Ampla como imperativo histórico
Histórico quadro do PSDB e antigo líder da oposição ao PT na Câmara Municipal de São Paulo, Pesaro relembrou a convivência política de décadas passadas para sublinhar a diferença entre adversários e inimigos da democracia. Para ele, a união entre Lula e Geraldo Alckmin não decorreu de conveniência eleitoreira, mas de uma necessidade premente de sobrevivência do pacto civilizatório.
Pesaro pontuou que figuras de centro e partidos liberais que prezam a estabilidade do país precisam manter a lucidez e não ceder ao discurso de falsa equivalência. A reconstrução das pontes republicanas promovida pelo terceiro mandato do presidente Lula, com Alckmin na vice-presidência, devolveu ao país a previsibilidade e a civilidade institucional.
O perigo da normalização e o recado para as urnas
Ao projetar o cenário político contemporâneo, Floriano Pesaro manifestou preocupação com a desmemória social. Ele alertou que alas da extrema-direita buscam se repaginar como interlocutores palatáveis ou moderados, disfarçando sob um verniz de pragmatismo a mesma matriz golpista e autoritária.
“Esquecer o que ocorreu é assinar um atestado de ingenuidade, se não de irresponsabilidade. Permitir que forças que vandalizaram o Estado brasileiro e flertaram com a quebra da ordem constitucional voltem a ter espaço de poder coloca o país novamente à beira do precipício”, concluiu o sociólogo.
A entrevista de Floriano Pesaro à TV 247 e a publicação de Consequências Imprevisíveis reafirmam a urgência de manter vivos os registros da história recente. O alerta é categórico: as defesas democráticas precisam permanecer vigilantes, pois os métodos de cupinização e desestabilização institucional continuam ativos no horizonte político do país.
Fonte: Brasil 247