IA vai de documento falso a fazendas de fakes e domina a campanha digital no primeiro turno

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Aos Fatos | Valorize o que é real

Na cobertura do primeiro turno das eleições de 2026, Aos Fatos revelou fazendas de IA com 255 perfis, identificou eleitores artificiais que declaravam voto em falsas entrevistas no TikTok e desmentiu um relatório forjado da PF compartilhado por Nikolas Ferreira. No caso Banco Master, registrou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro.

Esse conjunto de apurações retrata uma campanha em que a IA é usada para fabricar apoio popular e dar aparência de consenso a narrativas políticas. No primeiro turno, a produção em massa de conteúdos enganosos combinou-se com a atuação coordenada de perfis de procedência duvidosa, num debate marcado por pânico moral, conflitos religiosos e ataques pessoais.

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Bets e falsos protestos

Nas semanas que precederam o primeiro turno, a discussão de políticas públicas de governo concentrou-se majoritariamente na proibição, pelo governo de Lula, das casas de apostas online no Brasil, conhecidas como bets.

Desde maio, Aos Fatos apontou a recorrência de narrativas falsas sobre quem é o “pai das bets”, acusando o presidente Lula de autorizar sua atuação no país. No entanto, a modalidade foi autorizada em 2018, no governo de Michel Temer; Jair Bolsonaro deixou passar o prazo de regulamentação; e Lula regulamentou o setor em 2023.

Em julho, uma notícia sobre a sanção da Lei das Bets saiu temporariamente do site do governo para cumprir a legislação eleitoral. A retirada foi apresentada nas redes como tentativa de esconder o papel de Lula na regulamentação das apostas; na época, os posts acumulavam ao menos 200 mil interações no X e no Instagram.

Em setembro, publicações passaram a atribuir à revisão do cálculo do PIB a intenção de favorecer o governo ao incluir estimativas de apostas e de atividades ilícitas. Até o dia 17, reuniam ao menos 7 mil curtidas no Instagram e centenas de compartilhamentos no Facebook. A revisão segue recomendações da ONU, está em preparação desde 2023 e deve entrar em vigor em 2028.

Após a decisão de Lula de proibir as bets, surgiram reações fabricadas. Aos Fatos identificou um vídeo de Romário manipulado com IA e desmentiu supostos protestos da torcida do Flamengo, sustentados por registros antigos, áudio editado e uma imagem artificial.

Master, falso relatório da PF e negativas de Flávio

No caso do Banco Master, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) compartilhou um documento falso, atribuído à Polícia Federal, que afirmava não haver indícios de crime em suas mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal sob a acusação de cometer fraudes financeiras e integrar uma organização criminosa. A montagem circulou entre apoiadores após a divulgação de conversas do banqueiro com o deputado.

A PF negou a autoria, e a apuração do Aos Fatos identificou que a imagem havia sido produzida com inteligência artificial. A assessoria de Nikolas afirmou que ele não sabia da falsificação e havia republicado conteúdo de um site.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, fez ao menos 43 declarações enganosas sobre sua relação com Vorcaro. Negou conhecer o banqueiro e negou as mensagens; depois, admitiu as conversas. Ao surgir a informação de que havia voado em uma aeronave ligada a Vorcaro, afirmou que o avião pertencia a outro empresário. O banqueiro, porém, detinha participação nele.

Fazendas de IA e apoio fabricado a Mendonça

O envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal no escândalo do Banco Master levou a Corte para o centro do debate político eleitoral – o que também gerou desinformação. Aos Fatos desmontou uma rede de perfis no Instagram articulados para inflar o apoio a André Mendonça. Páginas que antes compartilhavam conteúdos religiosos mudaram de nome e passaram a promover o ministro. Mensagens religiosas, publicações conjuntas e convocações de seguidores ajudaram a simular uma mobilização espontânea, prática conhecida como astroturfing.

Ferramentas de IA generativa auxiliaram a produção de conteúdo em escala numa rede de fazendas de IA com 255 perfis no Instagram. Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque obtido pelo Aos Fatos identificou 1.204 publicações entre 15 de agosto e 15 de setembro, que acumularam 58 milhões de visualizações – dentre elas, a rede de perfis pró-Mendonça. As contas compartilhavam audiência por meio de publicações conjuntas, com ataques a Lula e ao STF e promoção de figuras bolsonaristas.

Nossa Senhora Aparecida e a disputa judicial

Aos Fatos reconstituiu o histórico do boato de que Flávio retiraria da santa o título de padroeira do Brasil. A narrativa recupera versões difundidas contra Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e foi associada a um projeto de Victorio Galli, apresentado em 2007 e arquivado em 2008. Um comentário da GloboNews que não citava Flávio também passou a circular ligado ao candidato. Ele negou a promessa, que não foi comprovada e é alimentada por sua proximidade com evangélicos que pregam contra o culto de Maria.

Lula e a falsa acusação de pedofilia

A partir de posts com a gravação de um discurso do presidente em Belém (PA) tirado de contexto para acusá-lo de apologia a pedofilia, Aos Fatos verificou que Lula, na verdade, falava de prevenção ao câncer de próstata. Um recorte do discurso foi retirado de contexto e usado para associar o presidente a crimes contra crianças.

Uma investigação do Aos Fatos sobre 1.819 publicações no X reconstituiu a mobilização para espalhar a acusação. Antes do discurso, perfis já manipulavam perguntas ao Grok para produzir falsas associações à pornografia infantil. Depois, houve pedidos para viralizar o vídeo e acionar influenciadores. O deputado Nikolas Ferreira apareceu entre os políticos que amplificaram a narrativa.

Polymarket e propaganda estrangeira

Uma reportagem do Núcleo Jornalismo, publicada também pelo Aos Fatos, identificou pelo menos dez candidatos, incluindo Flávio Bolsonaro, divulgando cotações de mercados de previsão como demonstração de vantagem eleitoral. Esses percentuais refletem apostas e movimentações financeiras, não a opinião de uma amostra representativa de eleitores. Com esse tipo de modalidade de aposta banida no Brasil, as especulações refletem sobretudo a capacidade de apostar de uma parcela pouco representativa da totalidade da população.

Em análise sobre anúncios pró-Flávio no X, Aos Fatos confirmou publicações pagas de pelo menos 11 contas estrangeiras e expôs conexões entre a Polymarket e uma rede transnacional de desinformação. Entre os perfis estava a UHN Plus, ligada a um grupo de comunicação com atuação na América Latina. Quem financiou os anúncios não é público.

Fonte: Aos Fatos | Valorize o que é real

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