Entenda como caso Davi Sebba se conecta à morte de Valério Luiz em Goiás

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Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

Entenda como caso Davi Sebba se conecta à morte de Valério Luiz em Goiás

Em dois casos separados por poucas horas e investigados em processos diferentes, os assassinatos do advogado Davi Sebba e do comentarista esportivo Valério Luiz revelaram, ao longo dos anos, uma rede de personagens que colocou sob os holofotes a atuação de policiais militares em Goiás e alimentou discussões sobre violência, impunidade e responsabilização.

Os dois homicídios aconteceram no dia 5 de julho de 2012, em Goiânia. Naquele dia, Valério Luiz foi morto a tiros ao deixar a emissora de rádio onde trabalhava, no Setor Serrinha. Horas depois, Davi Sebba morreu após uma abordagem realizada por policiais militares no estacionamento de um supermercado da capital.

Por muitos anos, os dois casos seguiram caminhos distintos na Justiça. No entanto, as investigações revelaram uma série de conexões envolvendo integrantes da Polícia Militar de Goiás (PM-GO) que apareceram nas apurações de ambos os episódios.

A morte de Davi Sebba voltou ao centro do debate público neste mês de outubro deste ano, quando três policiais foram levados a júri popular. A acusação sustentou que o advogado não morreu durante um confronto, mas sim em uma ação que teria sido previamente preparada pelos agentes. Após mais de 14 anos de tramitação, dois policiais acabaram condenados e um terceiro foi absolvido.

Segundo a versão apresentada pelos policiais à época, eles teriam recebido informações de que o advogado participaria de uma negociação de drogas em um supermercado da capital. Os agentes afirmaram que houve reação à abordagem e que dispararam após acreditarem que a vítima estaria armada.

A investigação conduzida pela Polícia Civil de Goiás (PC-GO) chegou a conclusões diferentes. O relatório final apontou que a vítima não teria tido possibilidade de reação e atribuiu aos policiais alterações na cena da ocorrência. O documento também destacou inconsistências nos depoimentos prestados pelos envolvidos.

Foi justamente durante essa investigação que surgiu um dos principais pontos de contato com o caso de Valério Luiz. Um dos policiais citados no processo de Davi Sebba, o então militar Edinailton Pereira de Souza, também apareceu ligado às apurações relacionadas ao assassinato do radialista.

De acordo com relatos reunidos ao longo das investigações, Edinailton Pereira de Souza esteve na cena da morte de Valério Luiz no mesmo dia em que participou da operação que terminou com a morte de Davi Sebba. A informação foi posteriormente destacada em reportagens e documentos analisados por entidades de direitos humanos.

A ligação ganhou ainda mais relevância porque os dois casos acabaram aparecendo em um relatório elaborado em 2012 por organizações de direitos humanos e pela então Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Goiás. O documento reuniu dezenas de ocorrências atribuídas a policiais militares e serviu como base para um pedido de federalização de investigações envolvendo homicídios, torturas e desaparecimentos.

Os episódios analisados tinham como ponto comum policiais vinculados ao Comando de Missões Especiais da Polícia Militar de Goiás. Na estrutura funcionava um núcleo de inteligência informalmente conhecido como CME-2, grupo citado nas investigações dos dois casos.

Os integrantes desse núcleo também apareceram diretamente no processo relacionado à morte de Valério Luiz. Os policiais Ademá Figueiredo e Djalma Gomes da Silva foram denunciados no caso. Ao final do julgamento, Ademá Figueiredo foi condenado como autor dos disparos que mataram o radialista, enquanto Djalma Gomes da Silva foi absolvido.

As duas histórias ainda se cruzam por um aspecto temporal, os homicídios aconteceram em um período de forte debate sobre violência letal em Goiás. De acordo com os dados citados pela Agência Pública mostram que o número de mortes em intervenções policiais registradas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública passou de seis casos em 2011 para 17 em 2012. No mesmo período, Goiás figurava entre os estados com maiores índices de homicídio do país.

No caso de Valério Luiz, a família passou anos cobrando a responsabilização dos envolvidos. O comentarista esportivo foi socorrido após ser baleado, mas não resistiu aos ferimentos. Seu pai, o jornalista esportivo Mané de Oliveira, chegou a retornar à vida política após o assassinato do filho, defendendo a busca por justiça no caso. As discussões judiciais relacionadas ao crime se estenderam por uma década.

Já a família de Davi Sebba precisou aguardar mais de 14 anos para ver o caso ser levado ao Tribunal do Júri. No julgamento realizado em 2026, o policial Jonathas Atenevir Jordão foi condenado por homicídio qualificado, enquanto Edinailton Pereira de Souza recebeu condenação por homicídio simples e porte ilegal de arma. O policial Luiz Frederico de Oliveira foi absolvido.

Apesar de terem motivações distintas e processos independentes, os casos de Davi Sebba e Valério Luiz permaneceram associados ao longo dos anos porque as investigações identificaram a presença de policiais ligados ao mesmo ambiente operacional e porque ambos passaram a integrar um conjunto de ocorrências que provocou questionamentos sobre atuação policial, controle das corporações e demora na responsabilização criminal em Goiás.

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Fonte: Jornal Opção

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