Por que a ‘terceira via’ fracassou mais uma vez em 2026?

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Por Deutsche Welle — Carta Capital

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Candidatos de direita que tentaram se apresentar como alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo devem ter desempenho pífio. Popularidade de Lula e Bolsonaro e polarização dificultam viabilidade de alternativas

A um dia do primeiro turno das eleições presidenciais, candidatos que tentaram se apresentar como alternativas à polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) amargam desempenho pífio nas pesquisas e indiferença da maior parte do eleitorado, com alguns ainda sofrendo pressão para abandonar a disputa.

Somados, os principais nomes da “terceira via” – Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) – têm apenas 11% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira 1º. O mais bem-posicionado, Augusto Cury, tem apenas 4%.

São percentuais que empalidecem diante da vantagem dos dois primeiros colocados: Lula, que apareceu com 42%, e Flávio, que tem 38%. Segundo a pesquisa, a distância de Flávio sobre o terceiro colocado Cury é de 34 pontos. O cenário é mais desalentador para a “terceira via” do que o observado no Datafolha antes do primeiro turno da eleição de 2022, que à época apontou uma vantagem de 28 pontos do segundo colocado sobre o terceiro.

Caso essas porcentagens sejam confirmadas nas urnas, será a segunda eleição seguida em que um candidato descrito como “terceira via” não consegue nem mesmo superar a marca de dois dígitos.

À DW, especialistas afirmam que entre os fatores para o novo fracasso estão a persistente força eleitoral do lulismo e do bolsonarismo, o peso da rejeição na decisão do voto e a cristalização há meses de um cenário de duelo entre os dois líderes nas pesquisas, além de um leque de candidatos de direita que não souberam se diferenciar.

No primeiro semestre, ocorreram especulações sobre potenciais candidaturas de nomes como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e Aldo Rebelo, os governadores Eduardo Leite e Ratinho Junior (ambos no PSD), entre outros.

No final, houve um afunilamento, restando entre as candidaturas mais chamativas Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Todos esses candidatos pontuaram em pesquisas ou antes ocuparam cargos de destaque ou eram filiados a partidos com representação no Congresso, se diferenciando de candidaturas de legendas nanicas que sempre apresentam candidatos, como o PSTU e PCO, mas raramente ultrapassam 1% dos votos e não contam com políticos de projeção nacional.

Apesar de serem chamadas pela imprensa de “terceira via”, essas candidaturas eram todas situadas no campo da direita, segundo Marcelo Tokarski, do instituto de pesquisas Nexus. “Eu não gosto nem de falar de terceira via. Os candidatos não são de ‘terceira via’. São candidatos de direita. Eles correm num campo ideológico mais parecido com o do Flávio. E eles não conseguem crescer”, afirma.

Com discursos semelhantes ao do bolsonarismo, Caiado e Zema penaram especialmente para se diferenciar da candidatura de Flávio, avalia Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Para o eleitor não houve uma diferença substantiva entre projetos. Caiado, por exemplo, verbalizou que se fosse eleito ele libertaria Jair Bolsonaro. O eleitor então se pergunta ‘por que eu votaria no Caiado e não no filho Bolsonaro diretamente?’. O Zema foi a mesma coisa falando de anistia”, diz Prando.

Ao longo do ciclo eleitoral antes do primeiro turno, apenas a candidatura de Augusto Cury chegou a se destacar em pesquisas, registrando um crescimento chamativo na última semana de agosto, saltando de 2% para 11% na pesquisa Nexus, fazendo com que Lula e, especialmente, Flávio, perdessem alguns pontos.

Na ocasião, o crescimento ocorreu na sequência da participação do candidato do Avante numa sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo e no primeiro debate entre os candidatos, na Band.

No entanto, o crescimento de Cury se revelaria efêmero, e já na segunda semana de setembro ele começaria a cair, sem reverter a tendência. Caiado e Renan Santos tiveram como teto 6% e 4% nas pesquisas e depois caíram. A candidatura de Zema teve desempenho ainda pior. Começando a série com 4%, em março, ele pontou apenas 1% no fim de setembro, quando a campanha de Flávio começou a fazer apelos por voto útil.

Em todo esse período, apesar de algumas oscilações, Lula e Flávio nunca ficaram abaixo da marca de 30%.

Para Tokarski, da Nexus, a falta de crescimento da maioria desses candidatos e o voo efêmero de Cury esbarraram numa dinâmica que já havia sido decisiva no pleito anterior.

“É uma eleição de rejeição, como foi a de 2022”, diz. Segundo Tokarski, um quarto do eleitorado, ao ser questionado sobre uma situação de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, opta por um dos dois não por acreditar que se trata do melhor candidato, mas para derrotar o adversário. Dessa forma, nomes mais bem-posicionados como o “anti” de outro candidato no topo acabam se fortalecendo ainda mais. Conforme a eleição se aproxima, mesmo alguns eleitores que haviam optado em algum momento por uma “terceira via” começam a antecipar o voto útil já no primeiro turno.

“Pelas nossas contas, mais ou menos 1/4 do eleitorado escolhe Lula ou Flávio não porque é lulista ou porque é bolsonarista, mas porque é antilulista ou antibolsonarista. Tem quase 25% dos eleitores que dizem que tão votando no Lula contra o Flávio não porque acham o Lula o melhor, mas porque querem derrotar o Flávio”, prossegue Tokarski.

“No caso do Flávio, um terço do voto dele no segundo turno contra o Lula é de pessoas que quando você pergunta: ‘Qual é o principal motivo de você votar no Flávio? É porque o Flávio é melhor que o Lula ou por que você quer derrotar o Lula?’. E a pessoa responde: ‘É porque eu quero derrotar o Lula’. E isso de alguma maneira dificulta a vida da chamada terceira via. Então é uma eleição muito encaminhada para um segundo turno entre Lula e Flávio”, completa.

Prando, da Mackenzie, também aponta que as “bolhas” dos dois principais candidatos têm se retroalimentado. “A força de um dos polos levanta o outro, e é assim que uma polarização acontece.”

Tokarski também destaca a própria força eleitoral de Lula e da família Bolsonaro como fator de dificuldade para que alternativas ganhem força. Os pisos eleitorais do petista e da família Bolsonaro já são altos na largada.

“Pode-se gostar de um, gostar e não gostar do outro, vice-versa, gostar dos dois ou não gostar de nenhum deles. Mas uma coisa a gente não se pode discordar: na história recente política do Brasil são os dois maiores líderes, né? Não o Flávio, mas o pai dele, Jair Bolsonaro, e o Lula. São pessoas que mobilizam o voto”, diz Tokarski.

“Em 2026, temos a permanência de um candidato carismático. Lula é candidato, direta ou indiretamente, desde 1989. Já Flávio recebe o bônus do sobrenome”, aponta Prando. “Mesmo que os candidatos de ‘terceira via’ elaborassem discursos que os diferenciassem, eles até poderiam ter um pouco mais de votos, mas a polarização é tão forte que esses votos seriam insuficientes para ameaçar Lula e Flávio.”

Flávio, após anunciar sua pré-candidatura em dezembro de 2026, já estreou na primeira pesquisa Nexus de voto estimulado, em março, com 38%. Lula, por sua vez, apareceu com 41%. Os candidatos alternativos somavam apenas 12%.

Na última pesquisa Nexus, divulgada nesta semana, 27% dos eleitores foram agrupados como lulistas convictos. Já o percentual de bolsonaristas convictos chegou a 29%. E entre os 42% que afirmaram que pretendem votar em Lula, a decisão do voto foi apontada como imutável para 92%, com apenas 7% afirmando que ainda podem mudar. No caso de Flávio, a certeza foi de 91%, com 8% apontando que ainda podem rever a decisão.

“Se todos que hoje votam no Lula ou que votam no Flávio no 1° turno e que podem mudar o voto abandonassem esse candidato e votassem no Caiado, por exemplo, os pisos de Lula e de Flávio ainda seriam suficientes para levá-los ao segundo turno”, diz Tokarski. “Temos essa polarização cada vez mais intensa do voto que acaba se refletindo nessa eleição dura ali entre os dois, e ninguém consegue furar essa bolha.”

Líderes nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro também lideram gastos de campanha. Até 30 de setembro, a campanha do petista já havia gastado 64 milhões de reais. A de Flávio, 58,5 milhões de reais. Seus partidos também são os maiores recipientes do fundo de financiamento de campanhas de 2026. O PL de Flávio recebeu 881 milhões de reais. O PT, 615 milhões.

São valores que empalidecem os gastos e recursos da maior parte dos candidatos da “terceira via”. Zema gastou 4,3 milhões de reais até o momento e seu, partido, o Novo, que tem apenas cinco representantes no Congresso, recebeu 37 milhões de reais do fundo. Renan Santos, por sua vez, gastou 1,2 milhão de reais e sua legenda, Missão, fundada em 2023 e que só conta com um deputado, recebeu 3,3 milhões de reais em financiamento. Cury, do Avante, declarou até agora gastos de apenas 527 mil reais e seu partido, que tem seis membros no Congresso, recebeu 72 milhões de reais.

No entanto, nem todas as candidaturas “alternativas” estão limitadas a máquinas tão diminutas em relação a Lula e Flávio. A exceção é o PSD de Caiado, que conta com a quarta maior bancada individual na Câmara dos Deputados e a segunda no Senado. O partido recebeu 420 milhões de reais do fundo de campanha para 2026. Caiado, por sua vez, gastou até o momento 24,5 milhões. Ainda assim, ele apareceu com apenas 3% das intenções de voto no último Datafolha, atrás de Cury e empatado com Renan Santos, que declararam gastos menores.

Para o professor Prando, estrutura e dinheiro até fazem diferença, mas outros fatores acabam sendo mais decisivos.

“O piso eleitoral do Lula e do Flávio e o peso da rejeição deles são muito altos. Uma política eleitoral assentada em forte rejeição significa que alguém escolhe um candidato como Flávio não pelas qualidades ou projeto, mas por ódio ou medo. E com Lula há o medo do retorno da família Bolsonaro ao poder. Nesse cenário polarizado, isso é um elemento fundamental. Se tivermos segundo turno, a decisão vai ser apertadíssima, com uma diferença mínima.”

Nas últimas oito eleições presidenciais desde 1994, quando os pleitos passaram a ser dominados por duas candidaturas principais antagônicas – que já apareciam no topo das pesquisas muito antes do início da campanha –, nomes que se apresentaram como alternativas ou “terceira via” acumularam fracassos e chances perdidas.

Por mais de três décadas, os pleitos seriam dominados por dois ciclos de disputas, primeiro entre o PT e o PSDB de 1994 a 2014 e depois pelo PT e o bolsonarismo de 2018 até o presente.

Ocorreram apenas dois soluços nessa polarização no período: 2002 e 2014. Na primeira eleição do milênio, Anthony Garotinho (então no PSB) foi o terceiro colocado que mais se aproximou do segundo turno, ao acumular 17,9% dos votos, contra 23,2% do segundo colocado, José Serra (PSDB). Se somados os votos de Garotinho com os 12% do quarto colocado, Ciro Gomes (então no PPS), os candidatos não tucanos e petistas conseguiram quase 30% dos votos. Foi a eleição pós-1994 que mais se aproximou de romper a polarização.

Já a eleição de 2014 marca o pleito no qual um “terceirável” obteve a melhor votação individual em termos percentuais desde 1994. À época, Marina Silva (então no PSB), chegou a aparecer em pesquisas à frente de Aécio Neves (PSDB) e até mesmo empatada com a então presidente Dilma Rousseff (PT).

No entanto, Marina viu suas intenções de voto erodirem nos dias anteriores ao 1° turno, terminando com 21,32% dos votos, 12 pontos atrás do segundo colocado, Aécio Neves.

Há ainda algumas eleições que embora tenham repetido novos fracassos para a “terceira via” pelo menos tiveram candidatos que conseguiram romper a marca de dois dígitos na votação. Em 1998, Ciro Gomes (PPS) obteve 11%. Em 2010, Marina Silva (então no PV) obteve 19,33%. Ciro, então no PDT e novamente candidato, conseguiu 12,47% em 2018.

Mas desde 2022 – a segunda eleição dominada pelo lulismo e bolsonarismo – o espaço de uma “terceira via” vem encolhendo ainda mais. No pleito de 2022, que ainda teve o fator de contar com duas pessoas que haviam ocupado o Planalto, os nove candidatos que não eram Lula ou Jair Bolsonaro somaram apenas 8,3% dos votos no primeiro turno. Nome com maior destaque nesse grupo, Simone Tebet (MDB), conseguiu apenas 4,16% – pior resultado de um terceiro colocado desde 1994.


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Fonte: Carta Capital

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