Depois de Lula e Bolsonaro
Por Vinícius Nunes — Carta Capital
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Após três eleições presidenciais orientadas em torno dos dois, o pleito de 2026 pode marcar o encerramento de um ciclo político iniciado há oito anos – e abrir uma disputa ainda sem sucessores definidos
Há uma ironia especial na eleição presidencial de 2026 . Em 2018, Lula (PT) precisou colocar Fernando Haddad (PT) em seu lugar porque estava preso, teve o habeas corpus negado pelo Supremo Tribunal Federal e, depois, foi impedido pelo Tribunal Superior Eleitoral de disputar a eleição. Haddad perdeu para Jair Bolsonaro (PL).
Em 2026, a história se repete de maneira invertida. Lula está na urna. Jair Bolsonaro, preso , não. Quem ocupa o lugar do antigo adversário é seu filho Flávio Bolsonaro (PL).
Em oito anos, a política brasileira passou da disputa entre os dois líderes para uma disputa em que um deles enfrenta o “poste” do outro.
O que está em jogo nesta eleição, portanto, pode ser o capítulo final do lulismo contra o bolsonarismo como os conhecemos. E, para entender a dimensão dessa mudança, é preciso voltar alguns anos.
A eleição de 2018 não aconteceu no vácuo. O País chegava a ela depois das manifestações de 2013, da crise econômica e política do governo Dilma Rousseff (PT), da eleição extremamente apertada de 2014, da contestação do resultado pelo PSDB de Aécio Neves , do golpe de 2016 e de um governo Michel Temer absolutamente impopular.
O antipetismo havia crescido enormemente. Ao mesmo tempo, a direita radical encontrou em Bolsonaro um candidato capaz de transformar insatisfação em identidade.
A prisão de Lula e sua retirada da eleição ajudaram a definir aquele resultado, mas não explicam sozinhas a ascensão de Bolsonaro. Havia uma mudança política em curso. A exclusão de Lula abriu espaço para que ela chegasse ao Planalto .
Jair Bolsonaro toma posse como presidente da República em 1º de janeiro de 2019. Foto: Evaristo Sá/AFP
O governo Bolsonaro, por sua vez, aprofundou a ruptura. A pandemia de Covid-19, que vitimou mais de 700 mil pessoas, expôs uma condução federal que se tornou um dos principais temas da eleição seguinte. Vieram ainda a ampliação do poder do Congresso, a presença inédita e infame de militares em postos estratégicos de um governo democrático e uma sequência de crises institucionais que colocou o Executivo em confronto frequente com outros Poderes.
Em 2022, finalmente, os dois protagonistas chegaram juntos à urna. Lula venceu por uma margem mínima , 50,9% a 49,1%, na eleição presidencial mais apertada desde a redemocratização. A vitória não encerrou o bolsonarismo. Pelo contrário, a tentativa de impedir a posse do presidente eleito culminou nos ataques de 8 de Janeiro de 2023 e em uma longa sequência de investigações e condenações.
A tentativa de ruptura tornou impossível tratar o bolsonarismo apenas como um movimento eleitoral. A questão passou a envolver também seus limites diante das instituições e sua capacidade de mobilizar uma base popular ampla e difusa.
A campanha deste ano já mostra um movimento diferente daquele de 2018 e 2022. O debate não é mais dominado apenas pela memória dos dois governos. Entraram no centro da disputa temas como o caso Banco Master, Daniel Vorcaro , o episódio relacionado ao filme Dark Horse , a jornada de trabalho 6×1, o fim das bets e a disputa política e religiosa em torno de Nossa Senhora Aparecida .
Há, ainda, um elemento geracional nessa história. Como observou a professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Maria Hermínia Tavares de Almeida, em artigo publicado pela Folha de S.Paulo , na quarta-feira 30, Lula, Geraldo Alckmin (PSB) e Ronaldo Caiado (PSD) são os últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-1988. A autora chamou a eleição de 2026 de “a última eleição da Nova República”.
A observação ajuda a colocar a disputa atual em perspectiva. Lula não é apenas o candidato que tenta mais um mandato. Ele é também o último grande representante eleitoral de uma geração que atravessou a ditadura, a volta da Democracia, a Constituinte, os governos do PSDB, os primeiros governos petistas, o golpe contra Dilma, a ascensão de Bolsonaro e o retorno do próprio Lula ao poder .
Se vencer de novo, o petista poderá se tornar o presidente mais longevo da história republicana brasileira em tempo de exercício do cargo. Se perder, encerrará uma carreira eleitoral que atravessou praticamente toda a história da democracia brasileira desde a redemocratização.
Em qualquer dos casos, uma questão já está colocada: quem vem depois?
O primeiro ato de campanha do presidente Lula (PT), no estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP). Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Do outro lado, Bolsonaro também representa uma geração que está chegando ao limite de sua capacidade de organizar diretamente uma eleição presidencial. Condenado, preso e inelegível, Jair não poderá simplesmente reaparecer na próxima eleição presidencial. Flávio tenta agora demonstrar que o sobrenome é suficiente para manter o campo unido. Eduardo , se voltar ao Brasil um dia, corre o risco de ser preso por condenações pelo STF . Outros nomes da família continuam existindo – Michelle , Carlos , Jair Renan –, mas apenas cenários surrealistas podem colocar algum deles na disputa presidencial.
O lulismo e o bolsonarismo nasceram em tempos e circunstâncias muito diferentes, mas passaram em determinado momento a funcionar como polos de uma mesma engrenagem eleitoral. Um alimentou o outro. O antipetismo ajudou a construir o espaço de Bolsonaro; Bolsonaro, por sua vez, tornou Lula indispensável ao campo democrático que se opunha a ele. Em 2022, os dois chegaram às urnas como os únicos candidatos capazes de mobilizar dezenas de milhões de brasileiros em torno de uma identidade. E em 2026, a disputa ainda é orientada em torno de ambos.
O problema não será apenas encontrar um candidato para o PT em 2030. É encontrar alguém capaz de receber uma parcela do capital político que Lula acumulou durante décadas.
Esse é um desafio particularmente difícil porque o lulismo não é apenas uma corrente partidária. É uma combinação de liderança pessoal, identificação popular, memória afetiva dos governos petistas e capacidade de reunir setores diferentes da esquerda e do centro em torno de uma candidatura .
A sucessão, portanto, não será simplesmente a escolha de um novo nome. Será a tentativa de descobrir se é possível transferir o fenômeno político de Lula para alguém que não seja Lula.
Há muitas apostas e torcidas para o posto de representante da esquerda em 2030. Sobrenomes não faltam: “Santanas” por aí, “Campos” de outros lados, “Haddads” com os olhos no retrovisor e “Boulos” esperançosos e otimistas. Mas nenhum é Lula.
O candidato ao governo de Pernambuco pelo PSB, João Campos, e o presidente Lula (PT), em ato de campanha no Recife. Foto: Ricardo Stuckert/Campanha
O bolsonarismo enfrenta uma questão parecida. Flávio Bolsonaro chega a 2026 carregando o sobrenome que organizou a direita brasileira durante os últimos oito anos. Há, nisso, uma evidente força eleitoral. Mas há também uma pergunta inevitável: quanto do bolsonarismo pertence à família Bolsonaro e quanto pertence à direita?
Favorito à reeleição em São Paulo , Tarcísio de Freitas (Republicanos) já aparece como um dos principais nomes desse campo para o próximo ciclo presidencial. Uma candidatura sua em 2030 representaria uma virada de chave na direita, já que seria uma força nacionalmente competitiva sem Bolsonaro e sem a necessidade de reproduzir integralmente suas posições.
Isso não significa que Tarcísio necessariamente substituirá Bolsonaro. Significa apenas que o espaço político aberto pela direita em 2018 já não pertencerá exclusivamente ao clã familiar.
Depois de 2026, o Brasil terá que pensar seriamente em sua política, sem poder contar com a presença simultânea de Lula e Bolsonaro para organizar o futuro. É possível que a próxima disputa presidencial seja menos uma continuação de 2018, 2022 e 2026 do que o primeiro capítulo de uma nova história.
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
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Fonte: Carta Capital