O tempo da política
Por Priscilla Brito — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
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Uma das coisas interessantes de ter feito uma graduação em Ciência Política foi a possibilidade de ler textos e mais textos que questionam ou indagam os significados da política no nosso cotidiano. Embora isso não me dê nenhuma autoridade, já que ela é uma palavra gasta e mal lavada, de absoluto domínio público, algumas questões seguem comigo em tudo o que eu faço.
Lembro do impacto de ter lido, por exemplo, estudos de antropologia política que observaram que o “tempo da política”, a “época da política” ou simplesmente a “política” correspondia, para as pessoas observadas, ao período eleitoral. É fácil observar que, anos depois, isso continua fazendo sentido, embora com novos arranjos.
O tempo da política é um tempo próprio e que não necessariamente coincide com o calendário oficial. Também não envolve apenas candidatos, mas toda a população, que tem seu cotidiano profundamente alterado pela propaganda eleitoral, com suas bandeiras, seu barulho, pela repercussão dos debates e, pensando hoje, por uma infinidade de posts nas redes sociais. Nesse período de conflito autorizado, de formação de facções políticas, é possível ver uma série de rituais e interdições próprios (como eu amo a antropologia), como os momentos em que a disputa praticamente se materializa em um carro de som ou em um palanque.
Durante esse período, as pessoas continuam trabalhando, cuidando da família e indo à igreja. Mas passam, também, a falar na linguagem da política — umas mais do que outras, dependendo do espaço, obrigando todo mundo a se adaptar para evitar ou responder a conflitos.
Outro dia a minha professora de pilates contou que foi substituir outra professora e, sem saber se a contagem de exercícios era 12 ou 15, sugeriu que os alunos contassem 13. Climão, só depois ela se deu conta da associação direta que a turma fez com o PT de Lula. Ontem, andando numa feirinha, vendedor de mate disse que o preço da garrafa subiu de 12 para 13. “É bom adaptar o preço ao momento”, ele sorriu.
Embora a política esteja entranhada no meu cotidiano, que nem gordura no bife, não dá para dizer que o tempo da política não seja um acontecimento absolutamente extraordinário na minha vida. Mesmo quando não estou enfiada numa campanha, esse momento altera o funcionamento do meu cérebro ‒ não sei se todo mundo aqui sabe, mas eleger mulheres negras feministas comprometidas com as questões das trabalhadoras segue sendo um dos meus principais objetivos na vida.
Às vezes eu queria simplesmente não me importar, sabe? Pegar um santinho na rua no dia da votação e definir ali meus candidatos. Pensar que não importa, um voto só, que diferença faz? Ignorar os comentários de que tanto faz, são todos iguais. Não ler, não ouvir, não tratar do assunto.
Nesses estudos da antropologia política, os pesquisadores também observam, sem a pretensão de tentar “responder”, a ambiguidade e/ou a contradição do comportamento que cercam a decisão do voto. Como um eleitor brada aos quatro ventos que é preciso acabar com a corrupção, mas faz questão de votar e defender seu candidato, cujo patrimônio cresceu 2.000% ao longo de sua trajetória política. Um dos maiores cases de sucesso de investimento vistos no país.
Mas é importante ressaltar: isso não é ignorância, é parte do jeito como o nosso sistema político funciona hoje.
A política é, na maior parte das vezes, algo externo a nós, distante mesmo, pelo menos da forma como se apresenta. Dá trabalho se manter informado, é difícil para caramba entender os detalhes dos casos e lidar com a frustração de que não há muito o que ser feito. Ou ainda, que os projetos que visam transformar as coisas estão fadados à derrota, parcial ou total. Fora do período eleitoral, a política parece mesmo algo que só interessa “aos políticos”. É uma consequência direta de uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, onde a política envolve a participação de muitos (em épocas de eleição), mas a responsabilidade e o poder continuam nas mãos de poucos.
Eu acredito que, quem sabe um dia, a gente consiga mudar as coisas, e seja mais fácil para todo mundo entender o processo que vai da eleição ao que chega à vida das pessoas: o que um governo faz pelas creches, pelos hospitais, pela limpeza e organização das cidades, o que defendem, o que criticam, como atuam.
Quem são os políticos e como muitas vezes eles tratam o dinheiro das pessoas como se fosse dinheiro próprio, para financiar filme, comprar mansões, resolver o caixa das suas empresas. Nutro essa esperança com afinco, acreditando que há saída para o buraco de negacionismo e ignorância em que nos enfiamos. Neste domingo, vote pela democracia, pelos direitos, pelas políticas sociais, pela esperança de um futuro mais igual, não só para a presidência, mas para governo, Câmara, Senado, assembleias.
*Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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Fonte: Brasil de Fato