Edinho Silva vê nova tentativa de interferência dos EUA nas eleições com fechamento de embaixadas
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou nesta sexta-feira (2) que suspeitas de interferência estrangeira nas eleições brasileiras precisam ser investigadas e que o partido pretende cobrar providências das autoridades caso sejam encontrados indícios de atuação direta de outros países no processo eleitoral. As declarações foram dadas em entrevista a jornalistas em São Paulo.
Edinho também criticou a decisão dos Estados Unidos de suspender, nesta sexta, os atendimentos presenciais em sua embaixada e em consulados no Brasil. A representação americana alegou razões de segurança, sem detalhar publicamente o motivo da medida.
“Isso é inédito”, afirmou Edinho. Na avaliação do dirigente petista, a decisão estaria relacionada à disputa política no Brasil. “Não tem o menor sentido, é uma das formas que o [Donald] Trump tem pra fazer disputa da opinião pública brasileira, infelizmente é isso”, declarou.
Durante a entrevista, Edinho chegou a ser interrompido por uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que buscava informações sobre a situação das representações diplomáticas americanas no país.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, que acompanhava a entrevista, confirmou o telefonema.
“O presidente Lula ligou para o Edinho para saber sobre a embaixada americana que fechou, mas se ele passar no meio da rua e vir uma placa de cabeça pra baixo, ele liga pro Edinho pra reclamar também. É o dia inteiro falando com ele”, disse Valadares.
Apesar da referência ao “fechamento”, os Estados Unidos anunciaram a suspensão dos atendimentos presenciais nesta sexta-feira em sua embaixada e consulados, e não o encerramento das representações diplomáticas. A Austrália adotou medida semelhante.
PT cobra apuração sobre interferência estrangeira
Edinho afirmou que o PT já apresentou denúncias relacionadas a suspeitas de interferência internacional no processo eleitoral brasileiro. Segundo ele, caberá às instituições determinar a gravidade de eventuais ações.
“Se ficar caracterizado que houve interferência na disputa eleitoral brasileira, a legislação brasileira é clara. Ela pune”, declarou.
O presidente do PT não detalhou quais medidas jurídicas poderiam ser adotadas pelo partido, mas disse que Polícia Federal e Ministério Público deverão avaliar os fatos.
“A gravidade quem vai dizer é a Polícia Federal, é o Ministério Público. Se é uma interferência gravíssima, isso vai ser remetido a organismos internacionais. O que não dá é para ficar passivo.”
As declarações ocorrem em um momento de atenção às manifestações do governo americano sobre o processo eleitoral brasileiro. Nesta sexta-feira, Trump afirmou acompanhar “de perto” as eleições no Brasil e classificou o pleito como “muito importante”, sem declarar apoio formal a um candidato.
Edinho também fez duras críticas ao presidente americano, a quem chamou de “maior líder fascista do século 21”, e acusou Trump de interferir em processos eleitorais na Europa e na América Latina.
“Não estamos disputando contra Flávio”
Ao analisar a campanha presidencial, Edinho afirmou que a disputa eleitoral ultrapassa o confronto entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para ele, existe um sentimento antissistema disseminado em diferentes países e que influencia o comportamento do eleitorado brasileiro.
“Não estamos disputando contra Flávio [Bolsonaro], estamos disputando contra o sentimento de mudança”, disse.
Na sequência, acrescentou: “Flávio catalisa esse sentimento”.
O dirigente petista relacionou esse ambiente político à elevada polarização e defendeu mudanças institucionais tanto no sistema político quanto no Judiciário.
“O sistema político brasileiro apodreceu”, afirmou.
Debate cancelado e críticas ao TSE
Edinho também comentou a controvérsia envolvendo o debate presidencial que seria realizado pela TV Globo nesta quinta-feira (1º). A transmissão acabou cancelada depois que Flávio Bolsonaro desistiu de participar e atribuiu sua decisão a uma suposta interferência do Judiciário.
O presidente do PT defendeu a decisão da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que impediu a emissora de utilizar um púlpito vazio para representar a ausência de Lula.
Ao mesmo tempo, Edinho disse que a campanha petista estava insatisfeita com a ministra por ela não ter analisado, antes do encerramento do horário eleitoral, um pedido de direito de resposta apresentado pela candidatura.
“Ontem, nossa irritação com ela era imensa e ela nos impediu de restabelecer a verdade”, afirmou.
Segundo Edinho, a ação contra o uso do púlpito vazio era necessária para evitar que a ausência do presidente fosse explorada durante a transmissão.
“Se a campanha não entrasse com ação impedindo isso, seria um escárnio com a gente. O debate não seria para confrontar ideias, seria para gerar desgaste com a candidatura”, declarou.
Ele também afirmou que Lula nunca havia se comprometido a participar de debates no primeiro turno.
“Lula nunca disse que iria a debates no 1º turno, não sei qual a surpresa.”
Campanha prepara estratégia para eventual segundo turno
Edinho afirmou ainda que Lula deverá participar de debates caso a eleição presidencial avance para o segundo turno. Segundo ele, a estratégia da campanha para a etapa seguinte seria discutida em uma reunião nesta sexta-feira, em São Paulo.
O presidente do PT disse que o partido já dispõe de estruturas eleitorais em todos os estados, mas reconheceu que uma eventual nova fase da campanha exigirá ampliação das alianças políticas.
“É evidente que precisamos ampliar ainda mais, claro que teremos de incorporar propostas de aliados”, afirmou.
O primeiro turno das eleições está marcado para domingo, 4 de outubro. Para vencer nesta etapa, um candidato à Presidência precisa alcançar mais da metade dos votos válidos. Caso isso não aconteça, os dois mais votados disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Fonte: Brasil 247