Por que deu certo? Lula, o Flow e a Globo no vácuo

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Por Fernando Horta — Brasil 247

Meu pai dizia que as pessoas sempre sabiam “como as coisas DEVERIAM ter sido feitas”. Na hora de fazer, contudo, todo mundo tem dúvida. Na academia aprendemos que só se pode julgar as decisões dos atores (se acertadas ou não) a partir do conjunto de informações disponíveis na época da decisão. Um observador do futuro sempre acerta. É incorreto e injusto que, agora que a Globo caiu no buraco que ela criou, os fanfarrões se arroguem o mérito de que “sempre souberam” que a alternativa de não ir ao debate era a certa.

Não sabiam. E deveriam ter mais humildade nisso. Ninguém sabia.

E é importante dizer que houve um alinhamento de três acontecimentos – cada um com uma grande dose de possibilidade de não ter acontecido – que permitiram o indiscutível sucesso da empreitada Lula-Flow deixando a Globo “no vácuo”.

Mas afinal, por que deu certo?

Foram três eventos encadeados. Sobre nenhum deles Lula ou a campanha tinham qualquer controle.

  1. O efeito Aranha: Estela Aranha, secretária de Direitos Digitais de Flávio Dino no Ministério da Justiça, foi alçada à condição de ministra do TSE em 2025 num dos saltos mais silenciosos da história deste país. A ministra tinha 1/7 de chance de ser sorteada para o pedido da própria campanha de Lula que buscava proibir a Globo de fazer, de novo, a política da “Cadeira Vazia”. Ela foi a sorteada. Aranha também – até agora – tinha dado votos lamentáveis em consonância com o bolsonarismo que reina na corte e nada assegurava que o “entendimento” dela mudaria. Mudou. Tivesse o sorteio caído em outro ministro, a chance de proibir a Globo de mostrar a cadeira vazia diminuiria muito. A chance seria nula caso tivesse sido sorteado Nunes Marques ou Mendonça. Guarde as chances: uma em sete.
  2. A covardia bolsonarista: a família Bolsonaro vive se escondendo de debates reais. Viveu sempre protegida por golpes, patranhas e estratégias de intimidação ou de proteção (quase miliciana). De facada a caganeira em debates, as estratégias são muitas. Flávio é o mentecapto mais próximo do limite intelectual mínimo, mas talvez o mais covarde de todos eles. Flávio teve a chance de enfrentar um debate de muito baixo nível. Zema, Renan Santos e Caiado têm juntos a capacidade argumentativa de um papagaio da vovó. E olha que eu apostaria na vitória do papagaio se a vovó fosse politizada. Mesmo Augusto Cury é de duvidosa capacidade, e se Flávio tivesse dois pingos de coragem teria enfrentado o debate, e isso certamente contaria eleitoralmente. Não foi. Covardia intelectual e política. E ainda usou a decisão de Aranha como desculpa, alegando “censura imposta pelo TSE”. Teve a chance de falar sozinho, como único candidato com possibilidade de ir ao segundo turno. As chances desta decisão, confesso, são maiores que as da anterior. Eu diria que quem apostasse pela covardia bolsonarista tinha 60% de chance de se dar bem. Exigir de uma família de fujões fibra para ir a um debate não é lá algo fácil e isso deveria servir também para os indecisos. Quem não teve coragem de enfrentar Zema, Renan, Caiado e Cury não terá capacidade para enfrentar Trump, Xi Jinping, Narendra Modi ou Friedrich Merz. Que fique registrado.
  3. A capitulação da Rede Globo: é verdade que a Globo ficou confinada na possibilidade de um debate explosivo entre Flávio Bolsonaro e os nanicos ou um debate só entre os nanicos. E, em cima da hora, ainda veio a liminar de Gilmar Mendes obrigando a inclusão de Renan Santos. E que os debates presidenciais sempre foram o palco das maiores barbaridades da Globo. De manipulação ao convite para o louco do Padre Kelmon, a verdade é que a Globo já aprontou de tudo. Até mesmo não fazer debate quando isso interessava a Fernando Henrique Cardoso. Ocorre que a Globo tem muitos bons profissionais que poderiam ter saído com alguma solução rápida para manter a atração. Certo que a covardia de Flávio Bolsonaro tolheu o saco de maldades que ela estava preparando, mas também a possibilidade de Lula e Bolsonaro não irem era amplamente divulgada há, pelo menos, uma semana. Dava tempo para terem preparado alguma maldade providencial. Não prepararam. Capitularam, e se alguém ainda tinha dúvida da importância do ecossistema de comunicação digital no Brasil é melhor repensar. Aqui a probabilidade da capitulação da Globo por incompetência é, no meu entendimento, a menor de todas. Eu daria uns 20% no máximo.

Sem falsa modéstia, fui o primeiro a pedir que o presidente – em caso de não ir ao primeiro debate – ocupasse o mesmo tempo e o mesmo espaço para uma entrevista e até para reagir ao debate, caso acontecesse. Fiz isso ao vivo, nas minhas intervenções aqui nas terças-feiras no 247. No entanto, é preciso também dizer sobre isso três coisas:

  1. O Igor, do Flow, não esteve à altura da importância da entrevista. Deslocado do seu espaço (a entrevista foi no Palácio do Planalto), levou pelo menos até a metade do programa para conseguir ser um entrevistador ruim. Perdeu-se nos assuntos, abusou de palavras de espera tentando retomar o pensamento, usou um código de comunicação ofensivo, tentou ser “advogado do diabo” sem sequer ter sido antes um bom perguntador. E falo isso do lugar de alguém que é ruim de entrevista. Entrevistar não é fácil, exige preparação, exige saber conduzir, exige firmeza… e entrevistar o maior político da América Latina certamente não é tarefa para qualquer um. No fim, Lula tomou as rédeas da entrevista e levou-a para onde queria. Tivesse Igor sido um pouco mais humilde e se cercado de um ou dois jornalistas com boa capacidade de entrevista, e todos nós teríamos ganho mais. Material Lula tinha e tem para falar sobre futuro, planos e tudo mais. Faltou ali o “enganche”.
  2. Eu teria feito não com o Flow, mas com a CazéTV. Se o objetivo era provocar a Vênus platinada, a CazéTV era o ponto. Hoje a CazéTV tem mais audiência que o Flow e o próprio Cazé é muito mais capaz em termos jornalísticos do que o Igor. Não sei se o convite foi feito, mas fica a dica para o segundo turno. CazéTV e Felipe Neto. Com isso se fala para – certamente – 2/3 do país numa noite. Acerta-se a possibilidade de os conteúdos serem utilizados por todos no ecossistema (o que acho que não foi feito com o Flow) e você ganha a narrativa por pelo menos uma semana com o material da entrevista se derramando pelos canais menores, gerando interação, visibilidade e democratizando o que o capitalismo dos algoritmos tenta reter. Aliás, essa é uma discussão para legislação das redes num eventual quarto mandato. Me cobrem falar disso.
  3. Até a metade da entrevista o presidente tinha falado mais de Flávio Bolsonaro do que de qualquer outra coisa. O mesmo erro, aliás, que gerou Sérgio Moro. Só num Brasil doente de fascismo que figuras como Sérgio Moro ou Flávio Bolsonaro entram na mesma frase que Luiz Inácio Lula da Silva. A democracia exige, eu sei. Mas façamos somente o mínimo para contentar a democracia. Lula discute com Trump, bate de frente com Netanyahu, disputa o sentido de justiça em discurso na França, na frente de Macron, e faz discurso no Japão metendo o dedo na moleira nuclear dos EUA. Esse é o nível que precisa ser mantido. Quem tem que ficar falando mal do Bolsonaro é o Fernando Horta, lembrando das rachadinhas, gastando tempo para falar de Queiroz ou da “conja” do Sérgio Moro. Sim, aqui é a quarta divisão da política, esse trabalho sujo é para nós. Lula nunca deveria ter aceitado ser “antagonista” de Moro. O ex-juiz de piso deveria ter sido tratado desta forma, como um peão liliputiano dos interesses das elites. Flávio Bolsonaro é ainda pior. Tratemos deles sempre de revesgueio: “o meu adversário”, “o senhor que pleiteia a presidência”, “o rapaz que concorre contra o Brasil”, e eu poderia dar mais 20 ou 30 formas de se referir a Flávio Bolsonaro sem nomeá-lo. Pode parecer pouco, mas não é. Na lógica dos algoritmos e dos cortes feitos por IA, não mencionar nomes é reduzir o alcance das respostas e das fake news. E na lógica dos “frames” e das segmentações discursivas, a campanha seria muito mais fácil para o presidente Lula se ele nunca mais falasse a palavra “Bolsonaro”. O Brasil também agradeceria.

Noite de vitória para o presidente. Mas não caiam no papo das gargantas que arrotam “eu sabia”. Pelas minhas contas, tomadas só as probabilidades de os três eventos acontecerem, temos 3/175. Ou seja, algo como 1,7% de chance de acontecer o acontecido. Numa conta de padeiro.

Só Nossa Senhora Aparecida explica, de fato, esse milagre.

Fonte: Brasil 247

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