Da Proconsult à cadeira vazia, a Globo pensa que ainda edita o país
Por Washington Araújo — Brasil 247
Durante quase uma década, entre o começo dos anos 2000 e aproximadamente 2012, mantive semanalmente uma coluna no Observatório da Imprensa. Era meu posto de observação sobre o jornalismo brasileiro, suas virtudes, vícios, arrogâncias e pecados cotidianos. Hoje tive uma recaída. Voltei à velha função para descobrir se, depois de tantos anos, ainda sei manejar esse bisturi sem perder a mão. Simto falta do olhar aguçado e da análise precisa do meu velho amigo Alberto Dines.
A Globo entrou na noite de 1º de outubro de 2026 preparada para realizar o último debate presidencial antes das urnas e terminou protagonizando ela própria a notícia. Duas decisões judiciais desmontaram aspectos importantes do cenário que havia preparado e recolocaram sobre a mesa uma pergunta que atravessa sua história: quem fiscaliza o enorme poder de quem seleciona, enquadra e distribui a realidade política para milhões de brasileiros?
Lula já comunicara que não participaria. Sua campanha avaliava que ele seria o único candidato dito de esquerda diante de quatro concorrentes situados à direita ou mais à direita, todos com tempo semelhante para confrontá-lo e transformar suas intervenções em sucessivas escadas contra o governo. Preferiu o podcast Flow.
Pode-se criticar a estratégia; comparecer ao debate nunca foi obrigação legal. assim como também ninguém tem obrigação de entrar em uma arapuca ou ser vítima de tocaia comunicacional. Certo?
A Globo preparara um púlpito com o nome do presidente e pretendia mantê-lo vazio diante das câmeras, permitindo ainda perguntas destinadas ao ausente. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu ambos. Entendeu que a cadeira vazia produziria punição visual contra quem exercera o direito de faltar e que perguntas sem possibilidade de resposta criariam desequilíbrio entre os participantes.
Quase simultaneamente, o ministro de cano do STF Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos, do Missão. Pela regra legal, sua presença não era obrigatória porque o partido não alcançava a representação parlamentar mínima. O ministro, porém, considerou outros critérios adotados pela própria emissora e invocou pluralismo e liberdade de expressão na disputa eleitoral.
Flávio Bolsonaro desistiu logo depois, e o debate morreu antes de começar.
Naquela mesma noite de ontem (01/10), Malu Gaspar afirmou na GloboNews que Flávio havia condicionado sua presença à ausência de Renan. É uma informação atribuída à jornalista, sem comprovação documental pública até agora. Ainda assim, tornou muito mais explícita a pergunta sobre como foram construídas aquelas regras e quem participou de sua arquitetura.
Essa sucessão teria peso menor se a Globo chegasse a 2026 sem passado. Só que não chega sem passado, aliás, chega com muito mais passado do que com futuro. Recordemos alguns vislumbres desse passado:
Em 1982 apareceu o caso Proconsult. A apuração da eleição para o governo do Rio tornou-se lenta, confusa e cercada de suspeitas. Leonel Brizola denunciou tentativa de fraude. A Globo sempre negou participação no esquema e jamais contratou a Proconsult; sua própria memória admite, porém, que atrelar a cobertura televisiva à apuração de O Globo foi um “erro estratégico”, inicialmente favorecendo a percepção de vantagem de Moreira Franco.
Dois anos depois vieram as Diretas Já. Roberto Marinho determinou inicialmente que grandes manifestações não recebessem cobertura nacional porque temia ampliar a “inquietação nacional”. Quando as multidões tornaram impossível fingir que aquilo era apenas um acontecimento regional, a televisão abriu espaço. Durante algum tempo, uma empresa privada — no caso, a Globo — havia se autopermitido decidir quanto de democracia o brasileiro poderia assistir.
Em 1989 surgiu a cicatriz que a emissora jamais conseguiu apagar. Na véspera do segundo turno entre Collor e Lula, o Jornal Nacional apresentou uma edição do debate acusada de concentrar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, além de conceder maior tempo ao primeiro. Anos depois, a própria Globo reconheceria o erro.
Quatro décadas separam aquela edição do debate de outra aula prática sobre enquadramento: o PowerPoint do Banco Master.
Quando explodiu o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, preso no curso das investigações, a GloboNews exibiu no Estúdio i um telão intitulado “Conexões de Daniel Vorcaro”. No centro, o banqueiro. Ao redor, entre outros nomes, Lula, Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gabriel Galípolo, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Ciro Nogueira, João Doria, Nikolas Ferreira, Guido Mantega e Antônio Rueda.
A imagem fazia aquilo que imagens fazem muito melhor que textos: estabelecia associação antes que o telespectador tivesse tempo de perguntar qual era a natureza de cada ligação. Relações institucionais, encontros, contratos, investigações e simples contatos apareciam graficamente nivelados por setas semelhantes. O presidente da República entrava visualmente numa teia cuja legenda não distinguia adequadamente investigados, interlocutores e personagens periféricos.
Foi uma barrigada monumental.
A própria GloboNews reconheceu depois que o quadro estava errado e incompleto, misturava relações de naturezas diferentes, não esclarecia seus critérios e ainda deixava de fora personagens já mencionados publicamente nas investigações. Andréia Sadi leu a retratação no ar. Nos bastidores, instalou-se uma crise com ameaça de demissões entre profissionais envolvidos na produção do material.
Não foi um tropeço qualquer. Era exatamente o tipo de erro que os próprios Princípios Editoriais do Grupo Globo afirmam querer impedir. O documento estabelece a isenção como objetivo formal e declara expressamente que o grupo deve ser independente e apartidário.
A questão fica menos verossímil quando se compara esse compromisso escrito com episódios concretos de sua cobertura política.
A Globo faz excelentes novelas. Construiu alguns dos melhores produtos de dramaturgia da televisão brasileira e produziu bons programas humorísticos que pertencem à nossa memória cultural. Seu jornalismo político, contudo, deixa muito a desejar.
Quanto mais a emissora repete que pratica jornalismo isento e apartidário, mais deveria preocupar-se em não oferecer ao país, quase diariamente, situações que permitem ao telespectador enxergar justamente o contrário.
A GloboNews tornou essa contradição ainda mais visível porque transformou comentaristas em personagens centrais de sua programação. Opinião é legítima; disfarçá-la de diagnóstico inevitável é outra coisa.
A meu ver, Malu Gaspar, Joel Pinheiro e Merval Pereira torcem o nariz com frequência diante de pautas progressistas. Seus comentários deixam transparecer desafetos ideológicos, preferências e graus bastante diferentes de tolerância conforme o personagem sob análise. Quando chegam à encruzilhada política, podem examinar as placas, discutir o trânsito e descrever a paisagem; ao final, quase sempre dobram à direita.
Não lhes atribuo carteirinha partidária. Seria simplório. O viés jornalístico raramente precisa de ficha de filiação. Manifesta-se na escolha do assunto, no adjetivo concedido a um personagem e negado a outro, na insistência de determinada pergunta, na suspeita transformada em manchete e na velocidade com que uma hipótese ganha aparência de conclusão.
Por isso também seria injusto colocar toda a GloboNews no mesmo PowerPoint.
Octávio Guedes, na minha leitura, consegue ser contundente sem mutilar o fato para acomodá-lo ao comentário. Natuza Nery preserva com maior rigor as fronteiras entre informação, bastidor e opinião. Flávia Oliveira leva ao estúdio uma compreensão social e econômica do Brasil que frequentemente escapa à Brasília confinada nos palácios.
Essa diferença importa. Crítica da mídia perde autoridade quando troca análise por ressentimento. E o que não falta as organizações Globo é ressentimento.
De Proconsult às Diretas, do debate Collor-Lula ao PowerPoint do Master e à cadeira vazia de 2026, o problema da Globo permanece menos numa suposta conspiração permanente que na dificuldade histórica de reconhecer a dimensão do poder que possui.
Quem dispõe do enquadramento quase sempre demora a perceber que enquadrar também é escolher.
A televisão perdeu o monopólio. Redes sociais fragmentaram audiências, podcasts criaram novos palcos e candidatos aprenderam a chegar a milhões de pessoas sem pedir autorização ao Jornal Nacional.
A Globo, entretanto, conserva capacidade enorme de determinar quais fatos ganham peso, quais personagens recebem lupa e quais histórias atravessam rapidamente a tela.
Imprensa livre nunca significou imprensa livre de crítica. O jornalismo existe para vigiar o poder, mas perde parte de sua autoridade quando esquece de incluir seu próprio poder nessa vigilância.
Depois de quase dez anos escrevendo semanalmente sobre a imprensa, deixei esse ofício de lado. A Globo me fez voltar a ele nesta semana.
Ainda não sei se perdi a mão.
Se perdi, ao menos não perdi a memória.
Fonte: Brasil 247