Se não saiu na Globo, aconteceu
Por Gustavo Tapioca — Brasil 247
“Se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu.”
A frase é atribuída a Antônio Carlos Magalhães, que conhecia como poucos o poder político da Rede Globo. A máxima de ACM atravessou décadas porque resumia uma época.
O Jornal Nacional não apenas noticiava acontecimentos. Selecionava, hierarquizava e enquadrava diariamente as notícias que chegavam a dezenas de milhões de brasileiros. Para grande parte do país, ajudava a determinar quais e como os acontecimentos mereciam existir.
Leonel Brizola, adversário histórico da Globo, também ficou associado a outra frase:
“Se a Globo for a favor, sou contra. Se for contra, sou a favor.”
ACM e Brizola estavam em campos políticos diferentes. Mas as duas frases diziam, por caminhos opostos, essencialmente a mesma coisa:
a Globo tinha poder.
Poder para transformar notícia em acontecimento nacional. Para ampliar ou reduzir personagens. Para definir a agenda do dia seguinte. Poder suficiente para que aliados quisessem estar ao seu lado e adversários precisassem enfrentá-la.
Na noite de 1º de outubro, esse poder encontrou um limite que talvez nenhum dos dois imaginasse.
Uma eleição sem a Globo
Faltavam três dias para o primeiro turno.
A Globo havia reservado seu horário nobre para o último debate presidencial. Pela tradição construída durante décadas, seria um dos grandes acontecimentos da reta final da campanha.
Não foi.
Lula decidiu não comparecer e concedeu entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, desistiu horas antes.
Decisões judiciais de última hora alteraram as condições previstas para o encontro. O TSE proibiu a Globo de manter um púlpito vazio identificado com o nome de Lula e de dirigir perguntas ao candidato ausente. Outra decisão assegurou a participação de Renan Santos, candidato que faz acusações contundentes a Flávio Bolsonaro.
A Globo alegou “insegurança jurídica” e cancelou o debate.
Entrou a novela.
Leonardo Attuch escreveu no Brasil 247 que naquela noite “o império midiático da Globo desmoronou”.
Pode ser uma interpretação forte.
Mas o símbolo também é forte.
A Globo continua sendo uma das empresas de comunicação mais poderosas do Brasil. O Jornal Nacional continua influente. Milhões de brasileiros continuam diante de suas telas.
O que entrou em questão foi outra coisa:
o poder de a Globo determinar onde a política brasileira precisa acontecer.
Lula não trocou o debate pelo silêncio.
Trocou uma tela por outra.
1,6 milhão fora da Globo
Enquanto a Globo exibia novela no horário reservado ao debate, Lula falava no Flow para mais de 1,5 milhão de pessoas simultaneamente no YouTube.
Às 21h39, o contador da plataforma mostrava 1.582.594 espectadores.
Às 22h49, quase duas horas depois do início da entrevista, havia ainda mais: 1.608.627.
Não foi apenas um pico passageiro.
Mais de 1,6 milhão de pessoas continuavam acompanhando um candidato à Presidência por outra tela enquanto o tradicional debate da maior emissora do país havia desaparecido da programação.
Os números do YouTube e os pontos de audiência da televisão não podem ser comparados diretamente. São universos e metodologias diferentes.
Nem é preciso compará-los.
O fato politicamente relevante é outro: um candidato à Presidência conseguiu falar simultaneamente a mais de 1,6 milhão de pessoas sem precisar entrar no estúdio da Globo.
A campanha continuou.
A eleição continuou.
O debate da Globo nem começou. Foi cancelado.
Brizola contra a Globo
A história desse confronto vem de longe.
Em 1982, Leonel Brizola disputava o governo do Rio de Janeiro quando explodiu o caso Proconsult.
A empresa contratada para participar da totalização dos votos tornou-se centro de uma enorme controvérsia sobre a apuração. Brizola denunciou uma tentativa de lhe retirar a vitória.
O episódio permanece historicamente disputado. A Globo rejeita qualquer participação em fraude e cita auditorias e investigações que não comprovaram intencionalidade nos erros. Outras reconstruções históricas sustentam que a apuração paralela e a denúncia pública impediram uma fraude contra Brizola.
Não é necessário resolver aqui uma controvérsia de 44 anos.
Importa que Proconsult se tornou um marco da guerra de Brizola contra a Globo.
Brizola venceu aquela eleição.
A guerra continuou.
1989: Lula, Collor e o Jornal Nacional
Sete anos depois, aconteceu um episódio que a própria Globo hoje inclui em sua seção de “Erros”.
Na primeira eleição presidencial direta depois de 29 anos, Lula enfrentou Fernando Collor no segundo turno.
Depois do último debate, o Jornal Nacional exibiu uma edição que provocou uma das maiores controvérsias da história da televisão brasileira.
A Globo foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula e de conceder ao primeiro cerca de um minuto e meio a mais.
O PT recorreu ao TSE. Artistas da própria Globo protestaram diante da emissora.
Fonte: Brasil 247