O “doisladismo” hipócrita da mídia já feriu a democracia, agora pode matá-la
Por Paulo Henrique Arantes — Brasil 247
Não surpreende que os donos da mídia mainstream torçam para que Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial. O baronato da imprensa brasileira constitui bastião de um conservadorismo personificado, ainda que distorcido, no candidato de extrema-direita. Uma crítica bem-educada aqui, uma notícia negativa cheia de dedos ali contrapõem-se à escandalização de qualquer ato falho do opositor de esquerda, o presidente Lula. Exerce-se uma imparcialidade burra e falsa — nada a ver com o equilíbrio que o jornalismo exige.
O que se presencia nesta reta final eleitoral são repórteres e colunistas (ou “opinionistas”, que ridículo!) buscando mostrar a fórceps que Lula é “tão ruim quanto Flávio”. Ao defenderem com unhas e dentes os mantras neoliberais de “o mercado”, na prática pedem voto em Flávio. Ainda assim, autoclassificam-se “imparciais”.
Ocorre que jornalismo não é imparcialidade — é verdade. Basta esticar uma régua democrática e posicionar ao largo os dois candidatos. Flávio escapa à régua — é isso que precisa ser dito aos brasileiros sem meias palavras. Seu envolvimento com Daniel Vorcaro, o inimigo público número 1 do momento, resta provado. Sua índole, tal qual a do pai, é preconceituosa. Sua noção de pátria é a de um vira-lata entreguista. Sua relação com a milícia carioca é notória. Seu projeto de governo, declaradamente, resume-se a tirar o pai da prisão. Além de essencialmente fascista, Flávio Bolsonaro é emocionalmente frágil, mente sem pudor, desmente-se no dia seguinte, cala-se em autoincriminação.
Quem não agrada à mídia mainstream, contudo, é Lula. Gosto é gosto, mas o presidente, um democrata respeitado no mundo civilizado inteiro, não pode ser colocado no mesmo balaio que um moleque desprovido de espinha dorsal.
Esse “doisladismo” da mídia, além de irritante, compromete a democracia e a vida em sociedade, a exemplo do que causou quando o mesmo espaço era concedido, na pandemia, a cientistas e negacionistas. O “equilíbrio” dessa imprensa irresponsável mandava ouvir e dar espaço a gente que questionava a eficácia de vacinas, consagrando uma simetria deletéria da razão.
Ninguém aborda com tanta espirituosidade o “doisladismo” da mídia quanto Lenio Streck. O jurista honrou este jornalista-autor ao prefaciar o livro “O que a Vida quer é Memória”, lançado recentemente. Eis um trecho do que escreveu: “Com efeito, uma das doenças mais persistentes da inteligência brasileira continua sendo a dificuldade de distinguir descrição de capitulação. Em nome de uma suposta moderação, normaliza-se o absurdo. Em nome de uma cautela metodológica mal compreendida, equiparam-se o agressor e o agredido, o fato e a fraude, a crítica e o delírio, a democracia e aqueles que a querem destruir. Como se a virtude intelectual residisse sempre em ficar no meio. Não, não reside. Às vezes, ficar no meio é apenas não ter coragem de dizer onde está o problema. E o problema, neste tempo histórico, está longe de ser invisível”.
O “doisladismo” hipócrita da mídia elegeu Jair Bolsonaro em 2018. Pode eleger Flávio agora. O fenômeno não nasceu aqui, registre-se. O termo é uma tradução ou adaptação direta do conceito em inglês bothsidesism — ou false balance (falso equilíbrio) —, recorrente em análises que apontam o erro de veículos de imprensa ao tentarem aplicar uma neutralidade artificial, equiparando fatos científicos comprovados a teses negacionistas, ou defensores da democracia a agentes antidemocráticos.
Fonte: Brasil 247