GAFFFF 2026: Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda, aponta limites da agricultura baseada apenas em exportação e commodities

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Por Leonardo Sobreira — Brasil 247

247 – A ex-presidente da Irlanda Mary Robinson afirmou nesta quinta-feira (1º) que políticas agrícolas baseadas principalmente na exportação podem criar vulnerabilidades para a segurança alimentar. Falando a jornalistas, a keynote speaker no Global Agribusiness Forum (GAFFFF), em São Paulo (SP), ela defendeu um equilíbrio maior entre produção local de alimentos, comércio internacional e valorização econômica da natureza viva.

Robinson, que também foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e atua em iniciativas globais ligadas à igualdade de gênero e ao papel das mulheres na agricultura, afirmou que a experiência da Irlanda mostra os riscos de priorizar excessivamente cadeias exportadoras. Segundo ela, o país importa cerca de 83% dos alimentos que consome enquanto exporta aproximadamente 90% da carne bovina e dos laticínios produzidos.

“É importante reconhecermos que a segurança alimentar deve incluir um verdadeiro equilíbrio de alimentos produzidos localmente. E isso nós não temos na Irlanda. Nós importamos cerca de 83% do que consumimos. E então temos nossa maravilhosa carne bovina e laticínios, e exportamos 90% disso. Portanto, duas longas cadeias de suprimentos que envolvem muitos combustíveis fósseis, viajando pelo mundo, e que também são menos seguras por causa do Estreito de Ormuz, bloqueando fertilizantes em diferentes partes do mundo, e depois temos os choques climáticos. Há algumas pessoas realmente excelentes trabalhando com horticultura, hortas comunitárias, agroecologia, muitas organizações muito boas, mas elas são uma minoria. E o Projeto Dandelion está tentando lançar uma luz sobre elas para mostrar que, na verdade, precisamos mais disso. Precisamos desse equilíbrio”.

A ex-presidente afirmou que a produção voltada ao comércio internacional tem importância, mas alertou que ela não pode concentrar as políticas agrícolas. Para Robinson, o problema está quando um único modelo passa a ser tratado como a principal referência de sucesso.

“Reconheço que existem divisões muito sérias e difíceis, incluindo o fato de que o multilateralismo se tornou fraturado e há muita tensão e muita competitividade. E não estamos em um mundo que esteja focando o suficiente no bem-estar das pessoas. Seria bom ter um sistema econômico em todo o mundo que fosse, de fato, muito focado no bem-estar das pessoas. Acabo de chegar de um país maravilhoso chamado Butão, onde eles têm um índice de felicidade. E eles estão tentando, como um país pequeno que nunca foi conquistado, fazer as coisas do seu próprio jeito. Mas o mundo não é assim, como sabemos. E acredito que precisamos encorajar, na agricultura em particular, esse equilíbrio. É muito bom ter carne e laticínios e poder exportá-los. Não há nada de errado com isso. O problema é quando isso se torna o foco excessivo da política agrícola, e apenas isso é visto como uma história de sucesso. E então negligenciamos outras áreas e acabamos importando, que é a história irlandesa. Mas não é diferente de outros países”.

Segurança alimentar europeia em risco

Mary Robinson afirmou que países mais ricos muitas vezes têm uma falsa sensação de segurança alimentar porque conseguem comprar produtos no mercado internacional, mas destacou que a alta dos preços pode expor fragilidades.

“Muitos países têm uma falsa segurança porque são mais ricos e podem comprar. Mas nossos preços dos alimentos sobem. Não é uma situação realmente boa. Portanto, espero que o mundo entenda a importância vital da comida. A importância vital da comida como cultura, a comida em si mesma, e a comida como parte das crises do clima e da natureza. Se ao menos pudéssemos pensar em nós mesmos como parte da natureza viva… Nós mesmos somos parte da natureza viva. Essa é uma sabedoria que aprendi com os povos indígenas, incluindo alguns povos indígenas brasileiros muito valorosos. Se pudéssemos valorizar mais a natureza viva… Por exemplo, uma floresta, a Amazônia, não é valorizada o suficiente como a Amazônia. Ela é valorizada pela extração de madeira, e então isso se soma ao PIB do Brasil. Mas, se ela estiver viva, ela promove a biodiversidade. Ela faz todas as coisas boas, como medicamentos, e promove condições de vida para as pessoas que vivem nela. Vocês conhecem a Amazônia muito melhor do que eu. Mas o ponto que estou defendendo é: por que não valorizamos mais a natureza viva como parte de nossa abordagem em relação aos alimentos e à agricultura?”.

A ex-presidente também afirmou que países europeus começaram a perceber os riscos relacionados à dependência externa para garantir alimentos. Segundo ela, nações escandinavas passaram a criar estoques reguladores diante da possibilidade de impactos climáticos sobre a produção mundial.

“Os países europeus estão percebendo agora sua insegurança alimentar e os países escandinavos, como a Suécia e a Noruega, por exemplo, estão criando estoques reguladores agora porque sabem que o El Niño pode realmente aumentar os preços dos alimentos. Nunca tivemos a experiência de um super El Niño como este. Portanto, será uma jornada difícil para todas as partes do mundo. O Brasil é particularmente vulnerável a choques climáticos. Eu tinha um mandato antes do Acordo de Paris como Representante Especial do Secretário-Geral, e, então, na metade de 2016, fui abordada e me perguntaram se eu assumiria outro mandato da ONU para o El Niño e o clima. Porque em 2016 houve um El Niño severo e foi o ano mais quente. Agora, como em 2023 ou 2024, todos eles são mais quentes. Nosso mundo está mais quente, e nós temos agora um super El Niño. Estou observando os gráficos, é horrível quando você vê o quão alto as setas estão subindo. Realmente me preocupo com a forma como isso afetará a segurança alimentar e causará fome durante o inverno. E serão os mais pobres, os menos responsáveis e os mais vulneráveis que sofrerão mais. E esse é o mundo em que estamos. Precisamos mudar e, como disse, acredito que seria uma mudança maravilhosa se pudéssemos valorizar a natureza viva, se pudéssemos colocar um valor econômico na natureza viva. Isso mudaria tanta coisa”.

A natureza viva como novo ativo econômico

A defesa de Robinson é que a natureza seja considerada parte central das decisões econômicas e agrícolas, com reconhecimento do valor dos ecossistemas preservados. Para ela, a agricultura precisa incorporar essa perspectiva em vez de tratar os recursos naturais apenas como fonte de exploração.

“Uma de nossas guardiãs dos limites planetários, Sylvia Earle, que é cerca de 10 anos mais velha que eu, ela valoriza os oceanos de uma forma que todos nós deveríamos. Ela fala sobre a pesca predatória que está ocorrendo, e agora sobre o desejo de minerar o fundo do oceano. Temos a tendência de explorar a Terra em vez de agir como um suporte para ela”.

Robinson também destacou que a tecnologia e a participação dos jovens serão elementos importantes para construir novas soluções.

“A tecnologia e a capacidade dos jovens de enxergarem as possibilidades são realmente importantes.”

Relações comerciais precisam considerar equilíbrio entre regiões

Ao comentar a relação entre mercados agrícolas, Robinson afirmou que diferentes regiões precisam fortalecer suas próprias capacidades e ampliar a cooperação regional. Ela citou o Mercosul e a União Europeia como exemplos de estruturas regionais, embora tenha afirmado que existem desafios nesses modelos.

“Na Irlanda estamos muito preocupados com o excesso de carne bovina do Brasil entrando na Irlanda. Essas são questões competitivas que, pessoalmente, não apoio muito no sentido de que tenho uma abordagem diferente, mas sou uma ex-presidente, então tenho que ter cuidado para não ser muito política. O que considero importante é que diferentes regiões do mundo se entendam melhor. E que, de fato, dentro das regiões, elas se tornem mais fortes. O Mercosul fortaleceu um pouco esta região. Seria bom ter mais disso. Da mesma forma, a União Europeia é um desenvolvimento importante na Europa. Está cometendo alguns erros, na minha avaliação, mas isso é outra história. O ponto é: eu quero que a África se torne muito mais forte por razões africanas. As riquezas que a África tem, a cobertura florestal e sua juventude. A África está se movendo nessa direção, e a Europa está tentando entender, mas a relação é muitas vezes paternalista, não é o que deveria ser”.

Biocombustíveis e transição energética fazem parte das soluções

A ex-presidente da Irlanda afirmou que a transição para longe dos combustíveis fósseis exige diferentes alternativas, e destacou o uso de biocombustíveis em iniciativas lideradas por mulheres em comunidades locais.

“Acredito que a crise é tão real que precisamos de todas as soluções que nos tirem dos combustíveis fósseis. Todas as soluções. E precisamos descobrir qual será o equilíbrio dentro delas. Então, sim, os biocombustíveis definitivamente. Fiquei muito impressionada, tanto na África quanto na Índia, com a forma como as mulheres estão usando os biocombustíveis de forma tão eficaz em nível local. Devemos usar qualquer uma das maneiras de abandonar os combustíveis fósseis que possam nos ajudar a parar de nos prejudicar”.

Fonte: Brasil 247

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