O longo agora
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Em Conjuntura e História, José Luís Fiori passeia da queda do Muro de Berlim à agressividade imperial de Trump
Em Conjuntura e História, José Luís Fiori revela ao leitor uma espécie de making off da elaboração das análises de longo curso, realizadas a partir do registro a quente de fatos ancorados em profundas raízes históricas. O autor selecionou 97 artigos escritos entre 1990 e 2025, o tempo compreendido entre a queda do Muro de Berlim e o ataque estadunidense-israelense ao Irã, para evidenciar a construção das vigas mestras da disputa pelo poder global. Em outras palavras, entre o fim da geopolítica bipolar organizada no segundo pós-Guerra e a retomada da agressividade imperial do trumpismo, a partir da afirmação de oponentes globais de envergadura, constituídos no eixo Pequim-Moscou.
Os textos são reproduzidos tal como publicados a cada tempo. Isso nos permite ver como Fiori escapa da tentadora armadilha usualmente colocada diante do historiador, a de examinar fatos do presente imediato descolados de contextos extensos. Nada pode ser definitivo em um sistema global em permanente expansão, como é próprio dos ciclos econômicos capitalistas.
Apesar de publicados em jornais, revistas e sites noticiosos de maneira às vezes esparsa, a seleção evidencia conexões com encadeamentos políticos e sociais anteriores para sedimentar capítulos com surpreendente unidade analítica sobre o reposicionamento de forças na cena global. Ou seja, é na tensão entre o factual e o processual que Fiori navega, oferecendo um volume que evita a terminologia acadêmica e se coloca como um vasto manancial de ideias em linguagem acessível a um público não especializado.
Conjuntura e História. José Luís Fiori. Editora Vozes (456 págs., 130 reais)
Na organização da obra, esse professor emérito de Economia Política Internacional da UFRJ agrupa os artigos em oito seções temáticas: “O sistema mundial”, “O Brasil e o sistema mundial”, “O império americano”, “O declínio da União Europeia”, “A ressurreição russa”, “A ascensão da Ásia”, “O Oriente Médio e a África” e “América Latina”. Sem embaralhar assuntos complexos, Fiori surpreende ao escapar de um cartesianismo fácil e evidencia escolhas político-metodológicas numa interpretação de base teórica eclética, como revelado no posfácio, uma entrevista concedida a Gilberto Bercovici e Luiz Felipe Osório para a revista Margem Esquerda (Boitempo). Sua bibliografia envolve desde os clássicos da visão dialética da História e da Filosofia, como Hegel, Marx e Engels, passando por Hamilston, List, Montaigne e Hume, até chegar aos grandes pensadores do século XX para cá, a exemplo de Hobson, Hilferding, Keynes, Kalecki, Braudel, Polanyi, Arrighi, Wallerstein, Prebish e Furtado, entre muitos outros.
Embora o livro trate de ampla gama de temas das relações internacionais – que Fiori corretamente classifica como interestatais – há uma linha coerente a unificar as análises. Essa diretriz é enunciada em artigo de julho de 2000, ao tratar das ilusões suscitadas pelo advento das reformas neoliberais entre os anos 1970/80: “A construção daquele mercado financeiro mundial (…) foi obra do poder e de decisões políticas, e teve consequências que vão muito além da própria economia. (…) Se a globalização dos mercados financeiros foi facilitada pelas novas tecnologias, sua verdadeira direção e significado foram dados pelas opções estratégicas e econômicas de algumas poucas potências mundiais”. Claro, com Washington no comando.
O raciocínio é completado um ano depois, logo após os ataques de 11 de setembro, ao se voltar para a disputa planetária: “O espaço deste novo tipo de império americano não é contínuo nem homogêneo. Seu poder se sustenta no controle de estruturas transnacionais, militares, financeiras, produtivas e ideológicas de alcance global, mas não suprime os Estados nacionais, nem a hierarquia do sistema interestatal”. Ao olhar para a viagem de Barack Obama ao Brasil, em 2011, ocasião em que o mandatário aproveitou para ordenar o início do bombardeio aéreo à Líbia, Fiori comenta: “A retórica simpática e amena do presidente americano serviu para demonstrar como funciona, na prática, o ‘tratamento entre iguais’ (entre países), quando um deles é um Império”.
O autor distancia-se da teoria da estabilidade hegemônica, formulação liberal-conservadora de Charles Kindleberger, mencionada brevemente no livro, que advoga a necessidade da existência de uma grande potência como polo organizador do sistema. Para ele, o império é uma contingência a ser enfrentada para a constituição de um multilateralismo aberto, que permita aos países exercerem o mais plenamente possível seus direitos de soberania.
Um livro dessa importância mereceria melhor edição de texto. É quase inevitável que um analista do emaranhado de tensões e disputas entre Estados repita trechos de artigos anteriores ao longo de sua produção intelectual, quando há temas correlatos. Mas tais superposições mostram falta de cuidado quando organizadas em uma coletânea. Seria importante eliminar tais redundâncias em futuras edições. •
*Professor de Relações Internacionais da UFABC.
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O longo agora’
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Fonte: Carta Capital