Mídia internacional destaca temor de interferência de Trump na eleição brasileira
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – A possibilidade de ações dos Estados Unidos capazes de influenciar a eleição presidencial brasileira entrou no centro da cobertura de alguns dos principais veículos da imprensa internacional na reta final da campanha. Reportagens e textos de opinião publicados no exterior abordam medidas preventivas adotadas pelo Brasil, a relação do presidente dos EUA, Donald Trump, com aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e preocupações relacionadas à segurança do processo eleitoral.
Segundo O Globo, The New York Times, The Guardian, Le Monde e Reuters apresentam enfoques distintos e, em alguns casos, textos opinativos, mas convergem ao tratar a influência de Washington e a política externa estadunidense como elementos relevantes para o cenário brasileiro.
NYT aborda medidas preventivas do Brasil
O The New York Times descreveu a eleição brasileira como um teste importante tanto para a direita latino-americana quanto para a influência política de Trump na região. O jornal observou que candidatos de direita alinhados a Washington venceram sete disputas recentes na América Latina, duas delas após manifestações explícitas de apoio do presidente dos Estados Unidos.
Trump não declarou apoio formal a nenhum candidato na eleição brasileira, mas, segundo a interpretação apresentada pelo NYT, teria favorecido Flávio Bolsonaro de maneira “mais sutil”.
O jornal estadunidense também relata que autoridades brasileiras adotaram iniciativas preventivas diante da possibilidade de interferência estrangeira. Entre elas estariam o acompanhamento de atividades de lobby estrangeiro e de campanhas de desinformação, ações para enfrentar alegações falsas de fraude eleitoral e contatos com outros governos.
Outro ponto de atenção, segundo a publicação, seria a possibilidade de medidas adicionais do governo americano contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de campanhas digitais originadas no exterior.
O NYT recorda ainda que Lula fez declarações públicas contra ingerências estrangeiras, inclusive em discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas. Na interpretação do jornal, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia ampliar a convergência entre Brasília e Washington em áreas como segurança pública, combate ao crime organizado e minerais críticos.
A publicação também levanta a hipótese de uma contestação do resultado eleitoral em caso de derrota de Flávio Bolsonaro. Segundo o relato do jornal, aliados do candidato esperariam apoio de Trump caso fossem apresentadas acusações de fraude.
Guardian discute efeitos internacionais da eleição
No Reino Unido, o The Guardian publicou um editorial sobre as consequências políticas da disputa brasileira.
O periódico descreve Flávio Bolsonaro como uma versão “menos grosseira e temperamental” de Jair Bolsonaro, mas “não menos extremista”.
O texto também afirma que parte do eleitorado estaria escolhendo seu candidato mais pela rejeição ao adversário do que por identificação política. Ao abordar Lula, o jornal menciona os programas sociais associados aos governos petistas e aponta economia e violência entre os temas relevantes para o julgamento dos eleitores.
O Guardian também cita o caso Banco Master e menciona o pedido de quase US$ 27 milhões feito por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, além de mensagens envolvendo o ex-banqueiro e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na agenda econômica atribuída a Flávio Bolsonaro, o jornal britânico menciona propostas de privatizações e redução de gastos e impostos. Também destaca a intenção do candidato de nomear ministros conservadores para o STF.
Embora o senador tenha afirmado que respeitará o resultado eleitoral, o Guardian recupera o histórico de questionamentos feitos por integrantes da família Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas.
Política externa e meio ambiente
O impacto de uma eventual mudança de governo brasileiro sobre as relações internacionais ocupa espaço relevante no editorial britânico.
Segundo o Guardian, uma vitória de Flávio Bolsonaro seria recebida positivamente pelo governo Trump e pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, no contexto de uma política de maior atuação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
O jornal pondera, entretanto, que as pressões exercidas por Washington sobre o Brasil também poderiam gerar um efeito político contrário ao pretendido ao permitir que Lula enfatizasse a defesa da soberania brasileira diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
A questão ambiental também aparece na análise. O Guardian compara os indicadores de desmatamento registrados durante o governo Jair Bolsonaro com a redução observada após o retorno de Lula à Presidência e argumenta que alterações na política brasileira para a Amazônia teriam repercussões internacionais.
Manifesto publicado pelo Le Monde critica pressão dos EUA
Na França, o Le Monde publicou um texto assinado por mais de 30 personalidades que manifesta preocupação com a atuação do governo Trump em relação ao Brasil.
Entre os signatários citados estão Chico Buarque, o ex-jogador Raí e os economistas Thomas Piketty, Joseph Stiglitz e Philippe Aghion.
Os autores mencionam medidas tomadas pelo governo americano contra o Brasil e acusam Flávio Bolsonaro de ser “cúmplice” da influência dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral. A afirmação é dos signatários do texto divulgado pelo jornal francês.
Segundo o manifesto, a eleição determinará “se a maior democracia da América Latina continuará a ser uma democracia”.
O texto relaciona a pressão de Washington às tarifas e às restrições aplicadas contra autoridades brasileiras, além de abordar os contatos entre Flávio Bolsonaro e integrantes do governo Trump. Os autores também interpretam a candidatura do senador como uma continuidade do projeto político de Jair Bolsonaro.
Reuters relata reunião da Abin com europeus
A Reuters, por sua vez, informou que autoridades europeias foram apresentadas a avaliações brasileiras sobre possíveis interferências externas na eleição.
De acordo com a agência, representantes da França e da Alemanha estiveram em Brasília em setembro e receberam da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informações relacionadas a supostas ações dos Estados Unidos e da Rússia.
Segundo relato obtido pela Reuters, as atividades atribuídas aos estadunidenses incluiriam desde ações classificadas como “lawfare” até formas mais explícitas de interferência. O material divulgado não apresentou detalhes sobre a suposta atuação russa.
A agência também registrou que Lula afirmou ter advertido Trump contra qualquer tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro.
A visita dos representantes europeus ocorreu em meio à atenção de governos do continente ao apoio de Trump a políticos estrangeiros identificados com o movimento MAGA, sigla de “Make America Great Again” (“Tornar a América Grande Novamente”).
Outro elemento destacado pela Reuters é a segurança digital. Segundo a agência, os ataques cibernéticos registrados no Brasil quase dobraram na comparação com 2025. Também teria ocorrido aumento de invasões e tentativas de phishing direcionadas à Presidência da República.
Fonte: Brasil 247