EUA e agenda global exigirão reconstrução após era Trump, afirma Rubens Ricupero
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O cenário internacional atravessa um período adverso para a prática diplomática e a preservação do multilateralismo, impulsionado pelo avanço de conflitos mundiais e pela condução do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é do embaixador Rubens Ricupero, autor do livro “A Diplomacia na Construção do Brasil”. Segundo o diplomata, em entrevista ao Valor Econômico, apesar do momento marcado por incertezas globais, as principais pautas da agenda internacional voltarão a exigir uma coordenação entre os países que precisará ser reconstruída. Nesse contexto, o Brasil dispõe de credenciais para exercer papel de liderança, especialmente na pauta ambiental e climática.
Ao analisar a atuação americana para a América Latina, caracterizada como uma “Nova Doutrina Monroe” — em referência ao conceito do século XIX voltado ao controle do continente —, o embaixador ressalta o caráter ideológico imprimido pelo líder norte-americano. O cenário recente abrange episódios como o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, o apoio financeiro a Javier Milei na Argentina e a imposição de tarifas comerciais contra o Brasil.
“Tem muito a ver com a personalidade de Trump, particularmente no segundo mandato. Ele transforma a política externa em um conflito de ideologias. No ano passado, ao aplicar aquelas tarifas contra o Brasil, ele invocou a atuação do Supremo Tribunal Federal e acusou o governo brasileiro de perseguir [o ex-presidente Jair] Bolsonaro”, apontou Ricupero.
O diplomata pondera que, embora Trump tenha suavizado o discurso posteriormente, o Departamento de Estado norte-americano articula novas sanções dirigidas a integrantes do Judiciário brasileiro. Para o embaixador, contudo, esse tipo de ingerência produz efeitos opostos aos pretendidos. “Acho que qualquer medida mais ostensiva de influenciar nas eleições acabaria favorecendo [a reeleição do presidente] Lula”, declarou.
Sobre a conduta diplomática nacional, Ricupero considera positiva a postura adotada pelo governo Lula e pelo Ministério das Relações Exteriores perante as pressões de Washington. “Até agora, não só o Itamaraty, mas também Lula, têm tido um comportamento adequado. Lula é um líder mundial. É inegável, mesmo para quem não gosta dele. É o líder brasileiro mais reconhecido fora do Brasil”, afirmou o diplomata, frisando que a diplomacia brasileira mantém o foco na busca pelo entendimento entre os vizinhos regionais.
No entanto, o embaixador destaca que a articulação regional enfrenta obstáculos diante da guinada política no continente. “Atualmente, na América Latina, o Brasil encontra poucos países que têm uma orientação parecida com a nossa. É praticamente o único país de centro-esquerda, no contexto de uma deriva muito clara para a direita. Não há muito terreno favorável, na nossa própria região, para um ativismo diplomático maior”, avaliou. Ele recordou que a tentativa do presidente Lula de reativar a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) no início do mandato não obteve adesão, refletindo as divergências locais, ainda que o Brasil mantenha relações estáveis e sem conflitos abertos com os vizinhos.
Em relação à estabilidade econômica, Ricupero salientou que o país está menos vulnerável às barreiras impostas pelos EUA devido à forte demanda asiática e chinesa por produtos primários. “Considerando os grãos, a carne bovina, o comércio brasileiro está bem. Portanto, o Brasil, de certa forma, está pouco vulnerável, a não ser que haja uma deterioração da situação”, ponderou.
O embaixador relembrou a transformação histórica das trocas comerciais brasileiras, notando que, em 1912, no período do Barão do Rio Branco, os EUA absorviam 36% das exportações do país, mantendo o alinhamento prioritário da política externa até a década de 1960. Hoje, a China e o continente asiático representam cerca de 50% das vendas externas brasileiras, seguidos pela Europa (16%) e pelos EUA (cerca de 10%). A presença chinesa se destaca também nos investimentos produtivos diretos em setores como energia elétrica e petróleo.
Diante do cenário político norte-americano, o diplomata projeta uma alteração no equilíbrio de forças com as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, nas quais analistas preveem avanço da oposição democrata no Congresso. “Se os democratas saírem da eleição com uma posição muito mais forte, a situação de Trump vai ficar mais exposta. Os democratas já disseram várias vezes que depois das eleições vão abrir um novo processo de impeachment. Isso vai obrigar Trump a se manter na defensiva. Em 2027, ele vai ter que se voltar mais para as questões domésticas. Trump tem validade vencida. Tem data para desaparecer do panorama”, observou.
Ricupero adverte, no entanto, que o término do mandato de Trump não significa o retorno automático ao cenário geopolítico prévio. “Trump não é a causa de tudo isso, é um sintoma. E na opinião pública americana há uma tendência que não é majoritária, mas tem peso. Uns 30%, talvez, pensam como ele. Essa gente não vai desaparecer”, disse.
Ao comentar a postura de outros atores internacionais contra as taxas comerciais norte-americanas — como o Canadá, que busca estreitar laços com a União Europeia —, o embaixador classificou a estratégia canadense como arriscada, dada a alta integração econômica e das cadeias produtivas do país com o mercado vizinho norte-americano.
A degradação do ambiente multilateral e o aumento das tensões globais foram igualmente destacados pelo diplomata, que contabiliza entre 50 e 60 conflitos em andamento no mundo, incluindo a guerra na Ucrânia e a crise no Oriente Médio, aliadas à paralisação de órgãos multilaterais e ao enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) com o fim das negociações da Rodada Doha sem acordo.
Apesar desse quadro adverso, Ricupero manifesta confiança no papel que o Brasil pode desempenhar na reconstrução das bases diplomáticas mundiais, em especial na transição ecológica e na agenda do clima. “O clima é, de fato, o tema mais importante, porque, a meu ver, a área em que o Brasil tem mais espaço para atuar internacionalmente é a questão ambiental. Inclusive por razões objetivas. O Brasil, ao contrário da maioria dos países do mundo, tem uma equação energética limpa e renovável”, apontou, concluindo que, com o esgotamento do ciclo político atual nos EUA, “depois de Trump, vamos ter que fazer uma grande reconstrução”.
Fonte: Brasil 247