“Não queremos mais viver assim”: falam os estudantes do ensino médio que bloqueiam escolas na periferia de Paris.

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Por Révolution Permanente — Esquerda Diário

Anasse Kazib, dirigente ferroviário e porta-voz da Révolution Permanente, esteve no bloqueio realizado por estudantes do ensino médio na periferia de Paris e conversou com eles e elas sobre suas demandas, sua luta e a repressão policial, neste vídeo para a Rede Internacional Esquerda Diário.

“Não queremos mais viver assim.” É o que dizem os estudantes de Saint-Denis que bloqueiam suas escolas, no contexto de um enorme movimento da juventude do ensino médio dos bairros populares da França. Eles denunciam salas de aula superlotadas, falta de recursos, jornadas intermináveis, desigualdade social e violência policial. Mas, por trás dessas reivindicações, surge algo mais profundo: a sensação de que a sociedade não os escuta e, ao mesmo tempo, a descoberta de que, juntos, podem fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Diante de suas reivindicações, a resposta do governo e das autoridades foi a repressão. Anasse Kazib, dirigente ferroviário e porta-voz do Révolution Permanente, esteve no bloqueio e conversou com os estudantes em uma transmissão ao vivo para o jornal Révolution Permanente, que integra a Rede Internacional La Izquierda Diario. Estas são as vozes deles. Neste diálogo com Anasse Kazib, eles expressam algo que talvez esteja apenas começando: o despertar de uma geração que se rebela contra o lugar que esta sociedade lhe reservou.

Como se supõe que devemos fazer nossa voz ser ouvida se não nos respeitam e não nos escutam nesta sociedade?

Essa pergunta vem de uma estudante do ensino médio da localidade de Saint-Denis, na região metropolitana de Paris. Ela permeia toda a reportagem feita por Anasse Kazib, em uma transmissão ao vivo do Révolution Permanente, com estudantes na porta do colégio Paul Éluard, onde estudam 2.000 jovens e trabalham cerca de 250 a 300 professores e funcionários da educação. A questão é profunda, pois desafia a sociedade a refletir sobre o lugar que a juventude ocupa em um cenário que parece não se importar muito nem com suas condições de estudo e de vida, nem com o seu futuro.

Os estudantes saíram a público para denunciar o estado deplorável de suas escolas: faltam professores e inspetores, não há enfermaria, as salas de aula estão superlotadas, com alunos praticamente amontoados, e as paredes apresentam infiltrações. “Não temos enfermeira, faz calor nos prédios novos, não há professores substitutos, não há equipe de inspetores, não há sala de descanso; temos jornadas das 8h às 18h, intervalos muito curtos, os professores têm apenas uma hora para almoçar e o diretor está se lixando para isso.” “Temos apenas uma hora para almoçar e moramos muito longe, esse é o ponto principal. É algo muito, muito grave.”

Tudo começou na segunda-feira, 21 de novembro, três semanas após o início do ano letivo, quando estudantes de um colégio em Créteil decidiram bloquear a escola para tornar visíveis as condições em que estudam e o estado de degradação decorrente da crise educacional. Imediatamente, uma onda de bloqueios se espalhou pelos colégios dos subúrbios e da periferia de Paris, chegando a envolver mais de 300 escolas no dia da greve dos servidores públicos e do setor estatal na França, em 29 de setembro. Eles denunciam, ainda, que os prédios são insalubres, apresentando problemas como a presença de amianto e ratos. É muito grande a revolta contra um governo que, em vez de fazer investimentos estruturais, constrói salas de aula pré-fabricadas onde não dá para estudar, pois o calor é insuportável no verão e, no inverno, o frio, e, para completar, há cortes frequentes de energia.

“Hoje viemos todos nos manifestar porque temos muitos problemas no Paul Éluard e queremos que sejam resolvidos”, diz um estudante. “Temos apenas uma hora para comer e moramos muito longe; é principalmente isso. É muito, muito grave”, denuncia um estudante, indignado. “Viemos nos manifestar; veio todo mundo.”

“Todos nós temos os mesmos direitos”

Os estudantes questionam as profundas desigualdades entre as instituições de ensino, bem como a discriminação e o racismo vivenciados pelos jovens dos subúrbios. Um estudante diz diante da câmera que é preciso “acrescentar que existem diferenças entre os colégios, por exemplo, os de Paris e os de Saint-Denis”. “Estamos no departamento 93, mas todos nós temos os mesmos direitos.” “Não há recursos e nos tratam como animais, como pessoas que não têm lugar, quando na verdade somos todos iguais; todos nós temos os mesmos direitos.”

Anasse aponta que “são jovens de 15, 16, 17, 18 anos matriculados nesta escola que denunciam as condições de estudo e a falta de futuro”. Ele destaca a dimensão política que o movimento assume: “O medo deles é este: que os jovens de todos os outros colégios da França digam: ‘E se nós também começássemos a fazer bloqueios?’” Enquanto ele fala, chegam as forças de choque: “É preciso saber que acabaram de passar cerca de quinze caminhões da CRS [força policial francesa, N.d.T.]. Imaginem o nível de violência que estão preparando para impedir o bloqueio da Paul Éluard” – a escola de onde estão transmitindo.

“Vamos ficar, vamos lutar”

Quando os estudantes saíram para protestar, depararam-se com a polícia: “Os policiais chegaram e vimos um aluno ser brutalmente agredido; não é nada bonito de se ver.” “Ele sofreu uma fratura no crânio. Já é a segunda vez, em duas manifestações, que alunos sofrem fraturas.” Anasse Kazib aponta a dimensão da repressão: “Há uma repressão brutal desde esta manhã. A delegacia de Saint-Denis está cheia de jovens das escolas Suger e Paul Éluard.” E explica a importância de estar ali: “Queremos dar visibilidade à indignação da juventude dos bairros populares, dos estudantes do ensino médio que estão se mobilizando. Estamos aqui para ouvir e dar voz a esses jovens.” Apesar da repressão, eles continuam com os bloqueios. Um estudante explica: “Hoje estou aqui para dizer que só queremos fazer um bloqueio para reivindicar nossos direitos”.

Nesse momento de “dar voz” aos jovens, um rapaz diz: “Eles nos dão medo. Mas nós não temos medo”. Essa frase surge em meio aos depoimentos e carrega uma força enorme. Porque não significa que não sintam medo; na verdade, sabem perfeitamente o que pode acontecer. Viram colegas sendo agredidos, detidos e atingidos por gás. Uma estudante relata, inclusive, que a polícia agrediu um colega, resultando em fratura no crânio. Outro esclarece que já houve dois estudantes com lesões graves nas manifestações. Mas eles descobrem algo: quando estão juntos, a força surge e algo começa a se transformar, isso fica evidente e é transmitido nas transmissões ao vivo, nos aplausos, nas ovações e nos abraços. Eles inspiram união, algo que um de seus professores destaca: “Vamos ficar, vamos lutar e vamos exigir que todos os direitos sejam iguais aos das outras escolas”.

“Os professores nos apoiam”

Uma das cenas mais impactantes é ver a corrente humana formada pelos professores e a solidariedade dos trabalhadores e trabalhadoras da educação. “Os professores disseram: são a favor do bloqueio. Disseram-nos isso explicitamente.” “Disseram-nos que acreditavam nisso, que defendiam a mesma causa que nós.” “Diziam que lutamos por causas justas. E têm razão.” O estudante explica: “Eles trabalham nas mesmas condições em que nós estudamos e, no dia a dia, veem que as coisas não vão bem.” Do outro lado do portão, os docentes formam uma corrente humana para proteger os estudantes. Yannick, um professor, explica: “Quando a juventude dos bairros expressa sua indignação, a única resposta que as autoridades dão, seja institucional, da prefeitura, etc., é a repressão.” E acrescenta: “Lançaram gás contra eles, bateram neles. Jogaram granadas.” Por isso afirma: “estamos todos em greve.” “Convoco todos a se mobilizarem por condições dignas, tanto de trabalho quanto de ensino para nossos alunos. Convoco à mobilização.” Esta escola tem cerca de 2.000 estudantes e entre 250 e 300 trabalhadores. Há prédios deteriorados, instalações pré-fabricadas, problemas de segurança, falta de pessoal e escassez de recursos.

“Não queremos mais viver assim”

Por trás do conflito sobre as condições de estudo, surge uma preocupação ainda mais importante: a preocupação com o futuro que os aguarda. Quando Anasse pergunta como eles veem o que está por vir, um dos jovens responde: “Vamos continuar até que nos ouçam e haja mudanças”. “Mudanças grandes!” Um dos estudantes fala de seus irmãos e da violência policial que atinge os jovens dos bairros: “Penso em todos os meus irmãos que a polícia espanca por nada, que levam pancadas e ficam detidos, que não recebem comida, que são agredidos sob custódia. Eu penso neles”. Outro acrescenta: “Conheço alguém que foi preso, espancado na cela, e acho isso inadmissível”. E então retorna a reivindicação que permeia toda a jornada: “E nós queremos mudanças, queremos mudanças, não queremos mais viver assim”. A revolta transparece ao relatarem questões do cotidiano marcado por muita violência, famílias com problemas de documentação e pelo simples fato de terem “uma hora e meia para chegar à escola” e “apenas uma hora para comer”. “Como fazemos?”

Quando um estudante diz “não queremos viver assim”, não é preciso acrescentar muito, pois por trás dessa frase está tudo: o cansaço, a revolta, a desigualdade, a violência policial. Estão a falta de recursos e o futuro incerto. Está a sensação de que a sociedade e os governantes tomam decisões, mas não os ouvem. E, quando um estudante diz “não é normal”, ouve-se uma geração que não aceita que tudo isso seja normal. Ao questionarem por que se gastam 300 mil euros em câmeras para vigiá-los, em vez de investir em infraestrutura e recursos para a educação, a crítica vai além: por que vivemos em uma sociedade que tem dinheiro para controlar os jovens, mas não para garantir-lhes condições dignas? Por que, quando reivindicam algo, a polícia aparece? Por que, quando bloqueiam uma escola para serem ouvidos, são tratados como um “problema”?

“Me bateram por nada”

Surge a preocupação com as novas leis repressivas. “A lei de ‘licença para matar’. Nós não a queremos.” “Se já batem no meu amigo e mandam ele não dizer nada, se essa lei for aprovada, significa que poderiam nos matar, que poderiam matar quem quisessem e nada aconteceria com eles.” “Isso não é normal.” Outro estudante diz: “Para mim, é algo grave, porque com a nova lei vão atirar na gente em qualquer situação.” E outro fala sobre seu irmão: “Tenho medo pelo meu irmão, porque ele trabalha e, não vamos mentir, tem a pele escura.” “Isso quer dizer que vão atirar nele sem que ele tenha feito nada. E o mesmo vale para mim e para os meus amigos.” Os jovens não falam de estatísticas nem de problemas objetivos. Falam de seus amigos. De seus irmãos. Estão preocupados com o rumo que esta sociedade está tomando. “A violência contra os jovens não é normal. Sobretudo por parte da polícia.” A denúncia é direta: “Eles vêm, cometem abusos, batem em alguém às escondidas e depois levam a pessoa para a delegacia.”

“Queremos mudanças. Mudanças grandes!”: Uma geração que começa a descobrir sua própria força

“Queremos mudanças. Mudanças grandes!” Com essa palavra de ordem, os estudantes secundaristas de Saint-Denis continuam se organizando, apesar da repressão, das detenções e das condições em que estudam. Não pedem apenas o conserto de uma janela ou a contratação de uma enfermeira ou de um professor substituto: começam a discutir o que acontece com a sociedade e que futuro desejam. Um deles leva uma hora e meia para chegar à escola, outro fala sobre seus irmãos agredidos e detidos, um terceiro admite que o futuro lhe dá medo. São uma geração que ainda busca as palavras para expressar o que sente, e é por isso que o diálogo com Anasse se torna tão significativo: ele não fala com eles como se fossem espectadores da política; ele lhes estende o microfone e permite que contem suas histórias. Os protestos de secundaristas não são novidade, aponta ele, mas, sempre que os jovens das periferias saem para reivindicar, a resposta é a mesma: “quem eles enviam? A polícia.” Enquanto, atrás dele, acumulam-se os veículos de choque, os jovens agradecem aos colegas, aos inspetores e a todos que os apoiam, repetindo: “Vamos ficar. Vamos lutar.” Não sabemos como os acontecimentos se desenrolarão, mas, entre a greve massiva de 29/09 e essas vozes, algo começa a se mover a partir da base. É a voz de uma geração que vê um futuro incerto, que sente que a sociedade não a escuta e que se pergunta por que deveria aceitar como inevitável a vida que lhe oferecem. Uma geração que diz: “Temos os mesmos direitos.” “A violência contra os jovens não é normal.” “Não temos medo.” Ainda não sabemos que forma isso tomará, mas, quando uma juventude começa a perder o medo e a reconhecer-se como força coletiva, não há volta. A reportagem de Anasse mostra algo que apenas começa a emergir: o despertar de uma juventude que começa a reconhecer-se como uma força coletiva. Ainda não sabemos que forma isso tomará. Mas, quando uma geração começa a perder o medo e a se perguntar por que tem de viver como vive, algo começa a se mover.

Versão em espanhol publicada em La Izquierda Diario, tradução para o português por Abayomi Abebe.

Fonte: Esquerda Diário

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