Nossa Senhora, a urna e a eleição
Por Marco Túlio da Silva — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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Por Marco Túlio da Silva
Nossa Senhora Aparecida tem uma característica extraordinária. Ela consegue ser santa, padroeira, símbolo nacional, objeto de devoção de milhões de brasileiros e, aparentemente, também personagem de uma eleição presidencial.
A eleição brasileira chegou a um ponto curioso. Já não basta disputar o voto. É preciso disputar a santa.
A história começou com uma notícia que talvez nem seja notícia. Uma informação que circulou como fato, mas que já chegou aos tribunais para saber se há fato para sustentá-la. A mensagem dizia que Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Fato ou fake? Em eleição, a narrativa impera.
Flávio Bolsonaro negou que pretendesse retirar o título e afirmou que se tratava de uma informação falsa. Em meio ao debate, em agosto de 2026, ele afirmou que, se for eleito, um de seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. As eleições foram para as alturas. E misturar política com religiosidade é complexo.
A partir daí, aconteceu aquilo que o Brasil moderno sabe fazer com eficiência quase industrial. A narrativa virou assunto. O assunto virou disputa. A disputa virou guerra religiosa. A guerra religiosa virou processo judicial. E o processo judicial virou discussão sobre liberdade de expressão.
Tudo isso por causa de uma santa. Ou, melhor, por causa de uma eleição.
Nossa Senhora Aparecida, coitada, entrou na campanha sem pedir voto e virou personagem da eleição. Mas há uma diferença entre a santa participar da história e a história colocar a santa no palanque. Aí começa o problema.
Porque uma coisa é religião. Outra coisa é política. E outra, bem complexa e complicada, é transformar a religião em instrumento de disputa política.
A campanha percebeu rapidamente que a imagem de Nossa Senhora Aparecida não precisava dizer nada. Bastava uma fotografia, um vídeo, uma polêmica. E pronto. A santa já estava no debate eleitoral.
A história fica ainda mais interessante porque existiu, de fato, um projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli que propunha retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. O projeto foi arquivado em 2008.
O episódio também colocou a Justiça Eleitoral no centro da discussão. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a retirada de publicações que tratavam como verdadeira a informação sobre a suposta intenção de Flávio Bolsonaro de retirar o título de Padroeira do Brasil. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, derrubou a decisão e determinou o restabelecimento das publicações retiradas com base no mesmo fundamento.
E então apareceu a liberdade de expressão. Ela também entrou na campanha. De um lado, a preocupação com a desinformação. Do outro, a preocupação com a censura. No meio, as redes sociais. E, em algum lugar, provavelmente, Nossa Senhora tentando entender por que seu nome virou precedente jurídico.
Fato ou fake, Nossa Senhora Aparecida virou personagem de uma disputa presidencial. E a pergunta que deveria ficar não é se a santa pertence a um candidato ou a outro. Ela não pertence nem à esquerda, nem à direita. Não pertence a partido. Não pertence à campanha. Não pertence ao algoritmo. Não pertence à urna. A devoção é uma coisa. A apropriação política da devoção é outra.
E talvez seja justamente essa distinção que esteja desaparecendo. O político olha para a imagem da santa e enxerga o eleitor. O marqueteiro olha e enxerga engajamento. O influenciador olha e enxerga conteúdo. O adversário olha e enxerga oportunidade. A rede social olha e enxerga o alcance. O fiel olha e enxerga Nossa Senhora.
Talvez seja essa a diferença fundamental. Cada um vê com sua lente, afinal a observação é seletiva. E a mesma imagem passa a ter vários significados.
Nossa Senhora Aparecida já foi mobilizada politicamente em diferentes momentos da história brasileira. Nada disso começou agora. O que mudou foi a velocidade. Antigamente, alguém precisava subir num palanque. Agora, basta abrir o celular. Talvez por isso a santa tenha chegado à eleição. Não porque queira participar dela. Mas porque alguém achou conveniente ela participar.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Nossa Senhora não pediu voto, não publicou vídeo, não fez promessa, não acionou o TSE, não recorreu ao STF, não publicou nota. Nós fizemos tudo isso em nome dela.
É uma responsabilidade curiosa. Atribuir à santa uma disputa que pertence a nós.
A eleição termina. O resultado aparece. Os candidatos comemoram ou reclamam. Os partidos fazem contas. Os marqueteiros desaparecem. Os vídeos perdem alcance. O algoritmo encontra outro assunto. E Nossa Senhora continua lá, no altar e na fé. Talvez seja esse o maior ensinamento involuntário do episódio. As eleições passam. A religião permanece.
Por isso, talvez devêssemos ter mais cuidado antes de colocar qualquer santo dentro de uma eleição. Porque, quando é preciso usar a fé para convencer alguém, alguma coisa já se perdeu. Talvez a própria fé na política.
Quando o eleitor olha para a santa e pergunta em quem deve votar, a política parece estar mesmo precisando de ajuda divina.
Marco Túlio da Silva é auditor fiscal, vice-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (AFFEMG) e ex-presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em direito tributário, especialista em inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.
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Fonte: Brasil de Fato