A psicodelia que o Brasil devorou: antropofagia contra os tanques

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Por Leonardo Miazzo — Carta Capital

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Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

Muito além dos Mutantes, a contracultura nacional usou o experimentalismo para implodir o conservadorismo e digerir o rock imperialista em plena ditadura

Quando se discute psicodelia, a historiografia anglocêntrica costuma encerrar o debate no eixo Londres-Nova York. No Brasil, o consenso preguiçoso geralmente resume tudo aos Mutantes. Ambas são injustiças históricas.

Enquanto o hemisfério norte desfrutava da opulência técnica e da liberdade civil para parir Pink Floyd e Jimi Hendrix, o Brasil inventava uma psicodelia própria, movida a gambiarras eletrônicas, em meio a uma ditadura sanguinária, uma indústria fonográfica rudimentar e uma censura que parecia ter medo até de uma guitarra desafinada.

Os Mutantes foram o epicentro comercial dessa explosão, mas nunca estiveram sós. De norte a sul, uma constelação de mentes marginais implodia as fronteiras da MPB. Grupos como Som Imaginário, Módulo 1000, O Terço e A Bolha forneciam o peso sonoro no Sudeste. Enquanto isso, no Nordeste, o movimento udigrudi de Ave Sangria, Lula Côrtes, Flaviola e um jovem Zé Ramalho operava um caldeirão estético ainda mais radical. Boa parte dessa discografia passou décadas soterrada pelo apagamento histórico e pelo purismo cultural.

Havia uma diferença de DNA. A psicodelia britânica e norte-americana pretendia expandir as margens do rock. A brasileira queria desmontar a própria ideia de música popular. Nas mãos do maestro Rogério Duprat, a erudição virava deboche pop; nas guitarras de Sérgio Dias, o ruído artesanal desafiava a métrica. Não era emulação da matriz estrangeira. Era devoração pura.

O conceito, claro, é a antropofagia de Oswald de Andrade. A Tropicália compreendeu que, para o Brasil deixar de ser colônia cultural, era preciso engolir os Beatles, o blues e as guitarras distorcidas, misturá-los ao baião, ao samba de roda e à poesia concreta, e cuspir algo absolutamente inédito. O resultado era uma alquimia esteticamente violenta, incapaz de ser digerida pelos mercados tradicionais.

A história, contudo, é mestre em ironias. Tratados pela crítica nacional da época como meros colonizados que usavam “a guitarra do imperialismo”, os Mutantes viram o jogo virar décadas depois. Foram os ícones do hemisfério norte que passaram a correr atrás da colônia: Kurt Cobain tornou-se um admirador da banda nos anos 1990, Beck gravou sua ode à “Tropicália” e David Byrne resgatou e divulgou o catálogo do trio para o mundo. A influência fez o caminho inverso.

Essa heresia estética atingiu o ápice com os Secos & Molhados. Em pleno governo Médici, o período mais violento do regime militar, Ney Matogrosso subiu aos palcos maquiado, andrógino, seminu e rebolando. Se David Bowie e o glam rock ocidental desafiavam as fronteiras de gênero em democracias liberais, Ney operava essa subversão sob a mira de fuzis e o olhar atento da censura moralista da caserna.

Após o AI-5, em 1968, a arte brasileira tornou-se uma trincheira sob vigilância permanente. Caetano e Gil foram exilados. Rita Lee foi presa grávida em 1976. Letras eram estraçalhadas pelos censores e shows eram interrompidos pelo DOPS. A burocracia militar não precisava decodificar as metáforas daquelas canções; bastava-lhes o faro autocrático para perceber que ali havia um transbordamento intolerável de liberdade.

Nesse cenário de opressão física, a expansão mental tornou-se uma tática de fuga e resistência. O LSD, que migrou dos laboratórios médicos para as rodas contraculturais na virada da década de 1960, não era encarado como mera diversão recreativa, mas como ferramenta de ruptura existencial. Obviamente, o Estado respondeu com o Código Penal. Em 1970, São Paulo sediou um dos primeiros grandes processos por tráfico de ácido do País, uma ofensiva jurídica que coincidia cirurgicamente com o endurecimento da repressão política.

Nos Mutantes, a experiência ácida cobrou seu pedágio mais devastador. O mergulho de Arnaldo Baptista no experimentalismo químico moldou a obra-prima conceitual O A e o Z , gravada em 1973. Assustada com o hermetismo psicodélico e a total falta de concessão comercial do álbum, a gravadora engavetou o disco por quase duas décadas. A abertura das portas da percepção cobrava um preço psíquico e institucional caríssimo.

Hoje, esse espírito de insurgência não morreu, ele se pulverizou na produção independente nacional. Da crueza urbana e marginal de bandas de rua à cena psicodélica contemporânea de Goiânia e do Nordeste, a premissa continua idêntica: a música não deve respeito a fronteiras geográficas ou de mercado que nunca fizeram sentido.

A psicodelia brasileira nunca se resumiu ao escapismo químico. Ela foi um projeto de engenharia reversa da realidade. Diante de um país cinza, fardado e calado pelo terror de Estado, aquela geração provou que o mundo podia ser desmontado. E que, com uma guitarra distorcida, um pouco de audácia e a urgência de questionar o status quo, sempre é possível projetar um novo amanhã.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Fonte: Carta Capital

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