América Latina: As veias reabertas ao algoritmo
Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental
Fernando Cerimedo, estrategista da extrema-direita, é o elo da nova economia de manipulação política, pilhagem e extração de dados. Liga os Bolsonaros, Milei, big techs e Doutrina Donroe. Ele é mais que um ator neste sistema: se investigado, pode expor suas fissuras
Por Jean Wyllys, no Other News, em Outras Palavras
Eduardo Galeano escreveu em 1971: “A divisão do trabalho entre as nações consiste em que umas se especializam em ganhar e outras em perder. Nossa parte do mundo, hoje conhecida como América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde aqueles tempos remotos em que os europeus do Renascimento se aventuraram para o outro lado do oceano e cravaram os dentes nas gargantas das civilizações indígenas”. Cinquenta e cinco anos depois, os saques do império assumiram formas menos tangíveis e ainda mais perigosas, porque a batalha econômica é travada pelo controle da mente – manipulação da realidade, deepfakes, condicionamento do comportamento de eleitores e consumidores e modelagem cognitiva – ou, em outras palavras, trata-se de informação: os dados da América Latina, sua atenção, seus pagamentos e sua infraestrutura digital. É aqui que os interesses das grandes empresas de tecnologia coincidem com a política externa de Donald Trump.
Em 18 de agosto de 2026, quando se preparava para embarcar em um voo com destino a Buenos Aires, Fernando Cerimedo foi detido no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), ação motivada por um um atentado contra a advogada e analista política boliviana Nadia Beller. Embora tenha recebido três tiros de homens que se faziam passar por entregadores, ela conseguiu sobreviver. Cerimedo nega qualquer envolvimento, mas os tribunais ordenaram sua prisão preventiva por 180 dias. Em 8 de setembro, ele foi transferido para La Paz e para Chonchocoro, a única prisão de segurança máxima da Bolívia, para ser interrogado no âmbito de uma investigação sobre um suposto enriquecimento ilícito.
O que me interessa aqui não é tanto a questão da culpa ou da inocência em uma investigação judicial em curso, mas analisar quem é esse homem, o que representa e o poder que exerce.
Cerimedo, consultor político e estrategista digital argentino, ganhou fama entre a direita e a extrema direita latino-americanas, colaborando com a organização de Bolsonaro, com o presidente argentino Javier Milei, como assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz e, segundo se diz, como “o homem do MAGA na América Latina”. Também é fundador do jornal digital La Derecha Diario, uma plataforma muito influente da extrema direita na Argentina e na América Latina em geral. E não é um mero porta-voz propagandístico. É especializado em campanhas de difamação, segmentação de públicos, o lado sombrio das redes sociais e, segundo ele próprio afirma, redes de trolls.
Em 4 de novembro de 2022, apenas alguns dias depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro para Lula, Cerimedo realizou uma transmissão ao vivo no La Derecha Diario na qual apresentou “Brasil foi roubado”, um “relatório” baseado em material elaborado anteriormente por assessores de Bolsonaro e oficiais do Exército, que afirmava falsamente demonstrar um comportamento estatisticamente anômalo em determinados modelos de urnas eletrônicas e, portanto, lançava suspeitas sobre os resultados eleitorais. Posteriormente, Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal no âmbito de suas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado de Bolsonaro e a disseminação de informações falsas sobre o sistema eleitoral, mas o Ministério Público se recusou a apresentar acusações contra ele.
Esse episódio é apenas a ponta do iceberg da estratégia internacional por parte da nova extrema direita na América Latina, que conta com seus próprios operadores, plataformas, influencers, discurso, trolls e modelos que circulam principalmente entre Argentina, Brasil, Bolívia e Chile. Neste mês, setembro de 2026, a Câmara dos Deputados do Chile aprovou a criação de uma comissão de investigação sobre as atividades de Cerimedo e as possíveis operações com bots e manipulação digital que afetam a política chilena.
Esse sistema de distorção da política pode ser resumido na produção de narrativas falsas ou enganosas, sua amplificação artificial e coordenada e sua transformação em realidade política. É o que denomino “falsolatria”, o culto em que a mentira não apenas é exaltada como conteúdo, mas se constitui como toda uma “economia da mentira”, na qual a falsidade é produzida, segmentada, amplificada e monetizada.
James Williams descreve muito bem esse sistema em Cliques contra a humanidade (Gatopardo Ensayo, 2021). Williams, um antigo estrategista do Google que posteriormente estudou a ética da tecnologia persuasiva na Universidade de Oxford, mostra como, na era da sobrecarga de informação, a atenção se tornou um recurso escasso, o que também representa um problema político devido à questão de quem consegue captá-la e controlá-la.
A desinformação é mais do que um problema epistemológico ou democrático, uma vez que faz parte integrante de uma economia da atenção altamente concentrada, na qual captar e comercializar a atenção de bilhões de pessoas constitui hoje uma enorme fonte de acumulação privada, como demonstra a empresa de big tech Meta (diretor-executivo, Mark Zuckerberg). Em 2025, as receitas da Meta chegaram a 200,970 bilhões de dólares, com um lucro líquido de 60,460 bilhões de dólares. Nada menos que 196,180 bilhões de dólares, ou seja, 97,6% de suas receitas, provinham da publicidade.
As falsidades não precisam ser monetizadas diretamente. São economicamente úteis para uma plataforma se o conteúdo falso, a indignação, o conflito e a polarização captam e conseguem maiores níveis de atenção, já que o tempo de permanência e a interação alimentam então a economia publicitária. Isso não significa que as plataformas produzam e coordenem todas as mentiras, mas, sim, que seu modelo econômico se beneficia de propagá-las para captar a atenção por meio de redes massivas.
Trata-se, além disso, de uma economia extremamente concentrada. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento estima que a participação combinada nas vendas do setor correspondente às cinco maiores multinacionais digitais aumentou de 21% em 2017 para 48% em 2025. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade de 2026 calcula que os 10% mais ricos recebem 53% da renda mundial e possuem 75% da riqueza, enquanto os 50% mais pobres recebem 8% da renda e possuem apenas 2% da riqueza. Os dados, as infraestruturas, a propriedade intelectual, o capital e o poder de mercado estão cada vez mais concentrados nas mãos dos mesmos, e poucos, atores, o que significa que eles também acumulam o poder de administrar os fluxos de informação.
Este é o contexto em que deve ser analisada a política externa e comercial de Trump em relação à América Latina, uma vez que ela vai muito além da ideologia e da diplomacia. Em seu empenho para assumir o controle do valor da economia digital — seus dados, pagamentos, publicidade, inteligência artificial, infraestruturas e mercados —, também busca manipular enormes populações por meio de um “menticídio” generalizado, um negócio extremamente lucrativo.
O Pix, sistema brasileiro de pagamentos eletrônicos instantâneos criado e administrado pelo Banco Central do Brasil, é um bom exemplo disso. Em 2026, após uma investigação comercial do governo Trump, decidiu-se que as políticas brasileiras relativas aos serviços de pagamento eletrônico, entre elas o Pix, constituíam possíveis barreiras ao comércio norte-americano e à competitividade de suas empresas. O debate não dizia respeito especificamente ao Pix, mas revelou uma lógica mais ampla: Washington queria garantir que a participação de mercado das empresas norte-americanas não fosse prejudicada por nenhuma infraestrutura digital nacional.
A América Latina é, ao mesmo tempo, um mercado consumidor, uma fonte de dados, uma zona de expansão para a infraestrutura digital e um campo de batalha geopolítico na rivalidade dos EUA com a China, uma vez que esses dois países dominam a criação e a captura de valor na economia digital, em um âmbito no qual a posição da América Latina é extremamente vulnerável.
Galeano escreveu sobre o saqueio de ouro, prata, petróleo, ferro, cobre, carne, frutas e café. Agora é preciso acrescentar dados, atenção, pagamentos e informação. As veias continuam abertas. Mas os fluxos mudaram e agora se dirigem às mentes.
Talvez um dos aspectos mais inquietantes de nossa época seja que a mesma infraestrutura privada que se apoderou e concentrou um poder econômico tão enorme também se apoderou e concentrou o poder de regular a circulação da informação. É a informação deles que está sendo difundida, e isso faz pensar quando (há apenas dez anos) um estudo de 2016 da Universidade de Bond revelava que cerca de 21% dos diretores executivos de empresas apresentam traços psicopáticos clinicamente significativos, o que coincide com a prevalência da psicopatia observada na população carcerária. O poder econômico, o poder tecnológico e o poder da informação se fundem em um círculo cada vez mais reduzido, “as personificações das categorias econômicas, os portadores de determinadas relações e interesses de classe”, como disse Marx em O capital, volume I. E mais de 50% dos bilionários do Vale do Silício, esses portadores dos novos interesses de classe, contam com um “seguro contra o apocalipse”, o que demonstra que estão conscientes de quão letais são seus interesses. Cerimedo não é mais que um ator desse sistema e isso, por si só, já é bastante ruim. Mas o problema que ele ajudou a trazer à luz vai muito além de sua pessoa.
*Jornalista, professor, escritor e ex-político brasileiro .
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Fonte: Combate Racismo Ambiental