Dezenas de milhares de estudantes em greve contra Merz e o serviço militar obrigatório
Por Gabriela Muñoz — Esquerda Diário

45 mil jovens de 100 cidades participaram das greves estudantis na Alemanha. Um fenômeno da juventude que, em sua quarta manifestação, expressa seu descontentamento com o governo em crise de Merz e com o avanço da extrema direita da AfD (Alternativa para a Alemanha). Neste sábado, 26 de setembro, após uma convocação da Confederação Alemã de Sindicatos, 175.000 pessoas se mobilizaram — segundo os organizadores. Em um momento de cortes, protestos sociais e manifestações no setor automotivo, a juventude pode ser a faísca para radicalizar o movimento operário.
Pela quarta vez, dezenas de milhares de estudantes em toda a Alemanha impulsionam as Schulstreik — as greves escolares contra o serviço militar obrigatório. O movimento expressa o rompimento de uma parcela da juventude com a política do imperialismo alemão: se mobilizam contra o genocídio em Gaza e a guerra, o rearmamento, os cortes sociais, a guinada à direita e o governo de Friedrich Merz.
En Alemania miles de jóvenes salen a las calles contra el servicio militar obligatorio y el rearme. Las huelgas estudiantiles cuestionan la militarización y abren un debate sobre cómo unir la lucha de la juventud con la de los trabajadores para enfrentar a la ultraderecha. pic.twitter.com/JzBIU3o9WN
— Nicolas del Caño (@NicolasdelCano) September 28, 2026
As greves estudantis opõem-se ao recrutamento de jovens para o Exército alemão e denunciam o governo da coalizão “preta-vermelha”, liderada pelo chanceler Friedrich Merz (CDU, União Democrata-Cristã da Alemanha) e composto pela CDU/CSU (União Social-Cristã) e pelo SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha), com Lars Klingbeil (SPD) como vice-chanceler e ministro das Finanças. Nas ruas, os estudantes expressam sua rejeição com palavras de ordem, memes, vídeos e canções.
Crise histórica do governo Merz e o avanço da extrema direita
As greves estudantis surgem em um contexto de forte polarização política e desgaste do governo de Friedrich Merz. Em setembro, o partido de extrema direita AfD venceu as eleições na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental; neste último estado, a CDU (o partido de direita democrata-cristão do chanceler Merz) obteve apenas 4,9%, ficando fora do Parlamento regional pela primeira vez desde 1949. Em Berlim, o Die Linke (A Esquerda) foi a força mais votada, à frente da CDU e da AfD.
Nesse cenário de polarização política, enquanto a AfD consegue capitalizar eleitoralmente parte do descontentamento social, as greves estudantis constituem uma das expressões mais visíveis de uma polarização à esquerda. Suas reivindicações mostram que existe uma parcela da juventude que não aceita a guinada militarista e reacionária.
Os baixos números de recrutamento para o Exército alemão também devem ser analisados neste contexto. Diante das dificuldades do governo em atrair jovens suficientes para o Exército, estão sendo introduzidos exames médicos obrigatórios, um passo autoritário rumo à implementação efetiva do serviço militar obrigatório.
É por isso que as greves estudantis incomodam o governo. A mídia as rotula repetidamente como sendo de “extrema-esquerda”, enquanto diretores de escolas e a polícia exercem diversas formas de pressão e repressão. A mobilização desta sexta-feira em Berlim, por exemplo, contou com forte presença policial ao passar pela fábrica de armas da Rheinmetall; afinal, o conflito não se limita à questão formal do recrutamento. As greves estudantis questionam a militarização como um todo e associam o serviço militar ao rearmamento alemão e à política externa do governo.
No entanto, observou-se um número menor de participantes nesta quarta manifestação nacional em comparação com as greves estudantis anteriores. O desafio, portanto, não é apenas reunir estudantes já politizados e de orientação de esquerda, mas sim como organizar e mobilizar amplos setores da população.
A questão central é como transformar essa polarização, especialmente entre os setores que se voltam para a esquerda, em uma força social capaz de enfrentar tanto o governo quanto o avanço da AfD.
Polarização à esquerda e o peso do Die Linke entre a juventude
A situação do Die Linke é um elemento central desta discussão. O partido obteve resultados eleitorais importantes, especialmente entre a juventude. Em Berlim, onde o voto é permitido a partir dos 16 anos, o Die Linke conquistou 43% dos votos entre os menores de 25 anos.
Esse resultado demonstra a existência de uma base social significativa que busca uma alternativa de esquerda. No entanto, há uma contradição entre essa base social e a orientação que a direção do Die Linke pode adotar; em Berlim, o partido busca formar um governo em coalizão com a social-democracia (SPD) e o Partido Verde (governo “vermelho-vermelho-verde”).
Nesse sentido, nossos companheiros e companheiras da juventude “Armas de la Crítica”, agrupação de juventude da Organização Internacionalista Revolucionária (RIO), integrante da Corrente internacional Revolução Permanente e da rede de jornais Esquerda Diário na Alemanha, apontam que a participação em um governo “vermelho-vermelho-verde” levantaria uma questão concreta: como um governo que administra cortes, militarização ou políticas de segurança, poderia, ao mesmo tempo, manter uma relação coerente com movimentos como as greves estudantis (Schulstreik) e com a solidariedade à Palestina?
Além disso, eles denunciam que a burguesia, seus jornais e os partidos tradicionais estão promovendo uma campanha de difamação contra os setores de esquerda do Die Linke e da Solid (juventude do Die Linke) que se recusam a integrar um governo “vermelho-vermelho-verde”, utilizando acusações de antissemitismo e de vínculos com criminosos. Trata-se de uma forte criminalização — semelhante àquela dirigida aos setores de esquerda das greves estudantis —, que a imprensa tradicional rotula como “extremismo de esquerda”.
O problema político é que essa pressão pode favorecer uma lógica de confiança nas instituições. O simples ato de votar no Die Linke pode parecer, para alguns setores, uma atividade política suficiente, enquanto a direção do partido avança em direção à possibilidade de participar de governos que gerem o capitalismo imperialista alemão. A resposta ao avanço da AfD não pode consistir em a esquerda administrar as mesmas políticas a partir dos governos regionais ou municipais. A discussão deve ser sobre como construir uma força social independente, com um programa da classe trabalhadora e da juventude capaz de enfrentá-la.
Por isso, a juventude da agrupação “Armas de la Crítica” aponta a necessidade de abrir um debate dentro e em torno do Die Linke sobre o significado do crescimento eleitoral do partido e qual perspectiva política ele deve adotar. Eles ressaltam que essa contradição pode se tornar um ponto de conflito interno no Die Linke e que, diante da campanha de difamação, é preciso defender o direito de se organizar e debater politicamente, mas também discutir qual orientação o partido deve adotar em relação ao governo, ao rearmamento e às lutas sociais.
Assim, em seu jornal Klassegegenklasse.org, eles afirmam: “Colocamos a necessidade de assembleias de filiados e simpatizantes do Die Linke e do Solid para defender os setores que sofrem com a campanha de difamação e, ao mesmo tempo, discutir uma perspectiva que não fique subordinada à participação no governo. A experiência das greves estudantis (Schulstreik) mostra que existe uma base social disposta a se mobilizar contra o governo, o rearmamento e a AfD. Essa força não deveria ficar restrita a uma expressão eleitoral”.
Greves escolares em um momento de cortes sociais e protestos em setores da indústria automotiva
A luta das greves escolares não está dissociada da situação da classe trabalhadora. A Alemanha atravessa uma fase marcada por cortes sociais, ataques às condições de vida e a transformação de setores da indústria em função do rearmamento. A indústria automotiva é um dos principais palcos de conflito. Na segunda-feira, dia 21 de setembro, 175 mil trabalhadores e trabalhadoras do setor automotivo saíram às ruas para protestar contra a eliminação de postos de trabalho. No sábado, dia 26 de setembro, foram realizadas manifestações e concentrações em várias cidades como parte da “jornada nacional de ação pelo Estado de bem-estar social e pela democracia”. Os eventos foram organizados pela Confederação Alemã de Sindicatos (DGB). Em 15 cidades importantes, entre elas Hannover e Bremen, as pessoas foram às ruas sob o lema “Conquistado com esforço! Seu trabalho. Sua saúde. Sua aposentadoria”. A DGB informou uma participação total de aproximadamente 175.000 pessoas.
Isso mostra que existem setores sociais que poderiam convergir com as greves estudantis. A questão é como estabelecer esse vínculo.
As Schulstreiks demonstraram formas de organização que podem ser importantes para o movimento operário: a greve, a auto-organização nas instituições de ensino e o confronto com as autoridades quando estas tentam limitar a mobilização.
Em Berlim, temos o exemplo significativo do Instituto Kant. Lá, existe um comitê pela greve estudantil que permite organizar a mobilização diretamente a partir da escola. Isso é fundamental, pois há uma necessidade urgente de dar maior visibilidade às greves estudantis e de dialogar com estudantes que ainda não integram o núcleo ativista. Estes também precisam enfrentar a questão: como a juventude pode se conectar com os trabalhadores e trabalhadoras que lutam contra demissões e cortes? A tarefa consiste em organizar assembleias, formar e fortalecer comitês pela greve estudantil em novas instituições de ensino e conectar as reivindicações dos estudantes às lutas dos trabalhadores e trabalhadoras.
Nesse sentido, a classe trabalhadora tem aliados potenciais na juventude mobilizada, mas precisa superar os limites impostos pelas direções sindicais quando estas subordinam as reivindicações operárias à economia de guerra — isto é, à conversão de fábricas para a produção de armamentos como uma suposta solução para a perda de postos de trabalho. As greves estudantis questionam justamente essa lógica; o que falta, então, é vincular a discussão sobre o emprego ao que se produz, para que fim e sob qual controle.
Por isso, a questão da burocracia sindical é fundamental. A classe trabalhadora precisa discutir como enfrentar as políticas das direções sindicais que subordinam as reivindicações dos trabalhadores às necessidades do imperialismo alemão. É essencial, portanto, travar uma luta para unir o combate ao rearmamento e ao serviço militar obrigatório à luta contra cortes, demissões, racismo e precarização.
O exemplo da Itália, no ano passado, demonstrou como uma aliança entre juventude e trabalhadores pode se transformar em uma força social quando uma greve geral se articulou com a Global Sumud Flotilha e a liberdade de Gaza. Isso contrasta com a convocação para os protestos sociais — realizados separadamente e um dia após as greves estudantis —, organizados pela DGB (Confederação Alemã de Sindicatos) e seus sindicatos filiados, com o apoio de organizações sociais.
Por isso, é fundamental discutir um programa independente da classe trabalhadora e da juventude que permita unir essas lutas. Entre as reivindicações propostas pelo grupo “Armas de la crítica” e pelo Klasse gegen Klasse estão:
Não ao serviço militar obrigatório e ao rearmamento: nem uma só pessoa, nenhum centavo, nem pesquisa para o Exército alemão!
Contra o racismo e a xenofobia: acabar com os controles de fronteira ilegais. Direito de residência e direito ao voto para todos.
Redução da jornada de trabalho com salário integral. Aposentadoria aos 60 anos para todas as pessoas que vivem aqui.
Expropriação das grandes empresas imobiliárias sem indenização.
Impedir a destruição de postos de trabalho; não à economia de guerra! Se os empresários quiserem fechar fábricas ou convertê-las para a produção de armamentos, devem ser expropriados sob controle dos trabalhadores e trabalhadoras.
Um seguro de saúde para todos. Financiamento integral da saúde e da educação.
Contra a reforma dos serviços de inteligência. Abolir o Departamento Federal para a Proteção da Constituição.
Por fim, a perspectiva internacional surge como uma das possibilidades para superar também os limites atuais das mobilizações. Nesta quarta jornada, participaram representantes da Dinamarca, da Áustria e da Itália. Na França, a agrupação de juventude Le Poing Levé, também parte da nossa Corrente internacional Revolução Permanente, expressou sua solidariedade. Também foram enviadas mensagens ao mundo hispanofalante.
Para o dia 20 de novembro, está prevista uma greve estudantil internacional. Essa data pode ser uma oportunidade para ampliar as greves estudantis para além das fronteiras alemãs. O rearmamento, a guerra, o genocídio em Gaza, os ataques sociais e o avanço da direita são problemas internacionais. Por isso, nossa resposta também deve ser profundamente internacionalista.
Fonte: Esquerda Diário