Paes tenta levar força da capital ao estado, e Ruas reage com voto bolsonarista
Por Maria Eduarda Portela — JOTA
A eleição para o governo do Rio de Janeiro opõe duas forças construídas em bases diferentes. De um lado, Eduardo Paes (PSD) tenta transformar a popularidade acumulada em quatro mandatos na Prefeitura do Rio em força estadual. Do outro, Douglas Ruas (PL) busca reagrupar o bolsonarismo sem a ampla aliança partidária e a máquina estadual que ajudaram Cláudio Castro (PL) a vencer em primeiro turno em 2022.
Paes lidera as pesquisas desde o início do ano, mas Ruas reduziu a distância na reta final. No Datafolha divulgado em 28 de setembro, o candidato do PSD tem 43% das intenções de voto, contra 30% do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Anthony Garotinho (Republicanos), cuja candidatura foi indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) e está sob recurso, aparece com 8%.
O avanço de Ruas ocorre enquanto o PL tenta preservar uma força política construída ao longo de décadas pela família Bolsonaro no estado. A tarefa, porém, ocorre em condições diferentes das de 2022. Naquele ano, Castro foi reeleito ainda no primeiro turno com apoio de uma ampla aliança de centro-direita. Agora, o partido chega com uma composição menor e sem o ex-governador na disputa política.
PL busca reagrupar o bolsonarismo
O Rio de Janeiro é uma das bases históricas da família Bolsonaro. Foi no estado que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) iniciou sua trajetória eleitoral, como vereador da capital, antes de cumprir sete mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados.
Essa força ajudou a consolidar o Rio como um dos principais redutos eleitorais do bolsonarismo. Bolsonaro venceu no estado tanto em 2018, contra Fernando Haddad (PT), quanto em 2022, contra o presidente Lula (PT).
Em 2026, porém, o desafio do PL é transformar essa base eleitoral em uma candidatura competitiva ao governo sem repetir a estrutura partidária que sustentou Cláudio Castro quatro anos antes.
O partido trabalhava inicialmente com a candidatura do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), apoiado por Castro. A estratégia foi revista depois que Bacellar foi preso, em dezembro de 2025, sob suspeita de vazar informações sigilosas para integrantes do Comando Vermelho (CV).
Em março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a cassação de Bacellar, Castro e do ex-vice-governador Thiago Pampolha (União) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Em julho, o PL oficializou Douglas Ruas como candidato ao governo. Deputado estadual e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), Ruas assumiu também a presidência da Alerj.
A composição sofreu outro revés com a desistência de Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo, de concorrer ao Senado e a saída do União Brasil da chapa. Ruas então formou uma chapa puro-sangue, com Fernanda Louback (PL) como vice e Carlos Portinho (PL) e Carlos Jordy (PL) candidatos ao Senado.
Na reta final, Ruas ampliou sua presença entre os eleitores identificados com o bolsonarismo. No Datafolha de 28 de setembro, 55% desse segmento declaravam voto no candidato do PL, ante 20% em Paes.
Outro ativo do partido é sua força municipal. Em 2024, o PL elegeu 22 dos 92 prefeitos do estado. Entre eles está Capitão Nelson, pai de Ruas, reeleito em primeiro turno em São Gonçalo com 84% dos votos.
Capitão Nelson tem participado ativamente das agendas do filho, inclusive ao lado do presidente estadual do PL, o deputado federal Altineu Côrtes. São Gonçalo possui 653 mil eleitores aptos a votar em 2026, o equivalente a 5,08% do eleitorado fluminense.
Para Raul Paiva, pesquisador do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ruas tenta transformar a força partidária e o eleitorado bolsonarista em uma candidatura própria, mas conta com uma aliança menor que a de Castro em 2022.
“A coligação que resultou na eleição do Cláudio Castro, em 2022, dominou as prefeituras também. Essa coligação ficou em aberto, os partidos nacionais deixaram em aberto os apoios. Então, uma coisa que também enfraquece o repasse que teria não só do Flávio, mas da coligação do Cláudio Castro para o Douglas Ruas”, afirma Paiva.
Paes tenta levar força da capital para o estado
Eduardo Paes, por sua vez, tenta transformar em ativo estadual a força construída na Prefeitura do Rio. Antes de deixar o cargo para disputar o governo, estava em seu quarto mandato e passou a apresentar como vitrines da gestão projetos de mobilidade, como o BRT, e ações de revitalização urbana.
O Rio de Janeiro tem 12,8 milhões de eleitores aptos a votar em 2026, o terceiro maior colégio eleitoral do país. A capital concentra 38,5% desse eleitorado, mas Paes precisa avançar para além de sua principal base política. O último prefeito da capital eleito governador do estado foi Marcello Alencar, em 1994.
Paes montou uma chapa com Jane Reis (MDB) como candidata a vice e os deputados federais Pedro Paulo (PSD) e Benedita da Silva (PT), ex-governadora do Rio, como candidatos ao Senado.
Esta é a terceira tentativa de Paes de chegar ao Palácio Guanabara. Em 2006, ficou em quinto lugar. Em 2018, chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Wilson Witzel (PSC).
Raul Paiva avalia que Paes conseguiu reconstruir sua imagem política nos últimos anos, em parte pelo contraste com a gestão de Marcelo Crivella (Republicanos), seu antecessor na prefeitura.
“Conseguiu agremiar toda essa população, a parte que se lembrava dele, tinha alguma memória boa, a parte que não queria nenhum bolsonarista e a parte que, em última instância, acabou criando uma memória boa do Paes a partir da experiência negativa do Crivella”, afirma.
Na campanha ao governo, Paes busca reunir o eleitorado contrário ao bolsonarismo e explorar as ações realizadas à frente da prefeitura, sem concentrar a disputa no cenário nacional, apesar do apoio do presidente Lula.
O principal desafio é ampliar sua presença fora da capital. O ex-prefeito de Nova Iguaçu e ex-vice na chapa de Ruas, Rogério Lisboa (PP), anunciou apoio a Paes. “Essa decisão não passa por questionamentos sobre a correção ou a vontade de fazer do outro candidato da disputa, o candidato Douglas Ruas. Ela foi tomada com base na urgência que o nosso estado tem em resolver seus graves problemas”, afirmou.
O prefeito de Nova Iguaçu, Dudu Reina (PP), também aderiu à candidatura e passou a participar das agendas de Paes.
Na reta final, o candidato do PSD concentra esforços na Região Metropolitana e na Baixada Fluminense. Entre os municípios estratégicos está Duque de Caxias, berço eleitoral de Jane Reis e atualmente comandado por Netinho Reis (MDB), sobrinho da candidata a vice.
Garotinho disputa sob incerteza jurídica
Anthony Garotinho tenta voltar ao governo que comandou entre 1999 e 2002, mas disputa a eleição sob incerteza jurídica. O TRE-RJ indeferiu, por unanimidade, seu registro de candidatura.
Garotinho está com os direitos políticos suspensos por oito anos após condenação por improbidade administrativa em processo que apurou desvio de verbas da Saúde na gestão de Rosinha Garotinho. O ex-governador argumenta que a contagem da condenação começou em 2018, quando foi proferida a decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ).
A campanha informou que recorrerá da decisão e, enquanto aguarda o desfecho, Garotinho mantém as atividades eleitorais. A estratégia passa principalmente pela Baixada e pelo Norte Fluminense, onde conserva bases políticas históricas.
O ex-governador também tenta apresentar aos eleitores mais jovens programas associados à sua passagem pelo governo, como o Cheque Cidadão e o Restaurante Popular.
Segundo a campanha, sua base eleitoral se concentra em municípios como Campos dos Goytacazes, Itaperuna e São Fidélis, enquanto encontra maior dificuldade na capital, especialmente na Zona Sul.
Alberto Rollo, advogado especialista em direito eleitoral, explica que o artigo 16-A da Lei das Eleições permite que um candidato sub judice mantenha a campanha enquanto não houver decisão definitiva sobre o registro. Caso a candidatura seja negada definitivamente antes da votação, os votos atribuídos a Garotinho serão considerados nulos.
PL também perdeu a máquina estadual
A disputa ocorre sem que o grupo eleito em 2022 esteja no comando do Palácio Guanabara. Cláudio Castro deixou o governo em março para concorrer ao Senado, e seu vice, Thiago Pampolha, já havia saído para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).
Com a presidência da Alerj vaga desde a prisão de Rodrigo Bacellar e diante dos impedimentos na linha sucessória, o governo passou ao presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), Ricardo Couto.
Senado tem disputa pulverizada
A corrida pelas duas vagas do Rio no Senado reúne candidatos de diferentes campos políticos próximos nas pesquisas.
No Datafolha divulgado em 11 de setembro, Benedita da Silva aparecia com 18%, seguida por Carlos Jordy e Carlos Portinho, ambos com 10%. Marcelo Crivella (Republicanos) e Pedro Paulo tinham 7% cada, Mônica Benício (PSOL), 6%, e Waguinho (Republicanos), 3%. A margem de erro é de três pontos percentuais.
No levantamento da Real Time Big Data divulgado em 14 de setembro, Benedita e Jordy tinham 15%. Crivella aparecia com 13%, Pedro Paulo com 12%, Portinho com 10%, Mônica Benício com 9% e Waguinho com 5%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Fonte: JOTA