Estudo identifica 16 proteínas alteradas na menopausa e ligadas ao envelhecimento cerebral
Por Mylenna Scheidegger — Jornal Opção

A menopausa pode deixar no sangue sinais que ajudam a explicar o que acontece com o cérebro durante o envelhecimento. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Nature Medicine, que identificou 16 proteínas alteradas durante a transição para a menopausa. Parte delas está relacionada à inflamação, ao funcionamento das células nervosas, ao metabolismo e a mecanismos associados à doença de Alzheimer.
Os pesquisadores acompanharam mulheres entre 43 e 58 anos em diferentes fases da menopausa e analisaram as proteínas presentes no sangue. O grupo foi dividido entre participantes na pré-menopausa, na perimenopausa e na pós-menopausa. A primeira análise reuniu 80 mulheres. Entre elas, 30 ainda não haviam entrado na menopausa, 26 estavam na perimenopausa e 24 já estavam na pós-menopausa. Os resultados mostraram diferenças importantes no conjunto de proteínas conforme a mulher avançava nessa transição.
Mais do que a idade em si, as alterações encontradas pareciam acompanhar as mudanças hormonais características desse período. O chamado “escore proteômico da menopausa”, criado pelos pesquisadores a partir das 16 proteínas, aumentava progressivamente da pré-menopausa para a perimenopausa e, depois, para a pós-menopausa.
O que muda no organismo
Entre as proteínas identificadas estão moléculas ligadas à resposta inflamatória, à comunicação entre os neurônios e ao metabolismo. Também apareceram BACE1 e p-tau231, proteínas relacionadas à biologia da doença de Alzheimer. Isso não significa que uma mulher na menopausa esteja desenvolvendo Alzheimer. A presença dessas proteínas no sangue não funciona, segundo o estudo, como um diagnóstico ou uma previsão individual da doença.
O que os pesquisadores encontraram foi uma associação. Mulheres com níveis mais altos da assinatura proteica relacionada à menopausa apresentaram, em grupos de acompanhamento de longo prazo, resultados menos favoráveis em medidas de cognição e maior risco de demência por Alzheimer.
A diferença é importante porque o trabalho não prova que a menopausa seja a causa do Alzheimer. Os próprios autores apontam que ainda são necessários estudos que acompanhem as mesmas mulheres durante a transição hormonal para entender melhor como essas mudanças acontecem e quais delas podem ter algum papel no envelhecimento cerebral.
Hormônios aparecem no centro da mudança
A equipe também analisou os níveis de estradiol, progesterona e hormônio folículo-estimulante (FSH), que sofrem alterações durante a menopausa. O escore proteômico apresentou relação principalmente com o FSH. Já o estradiol apareceu inversamente associado ao conjunto de alterações. Quando os três hormônios foram analisados em conjunto, o FSH foi o único que manteve uma associação significativa com o escore criado pelos pesquisadores.
A descoberta ajuda a reforçar a ideia de que a menopausa não representa apenas o fim da menstruação. A queda dos hormônios ovarianos e as mudanças no FSH acontecem em um período em que diferentes sistemas do organismo também passam por alterações.
No estudo, os pesquisadores encontraram sinais relacionados ao envelhecimento de vários órgãos. Em uma análise com mais de 2,3 mil mulheres com idades semelhantes, aquelas que já estavam na pós-menopausa apresentaram diferenças em medidas moleculares de envelhecimento de 11 dos 13 órgãos avaliados. O cérebro estava entre os sistemas que apresentaram associação com a menopausa.
Sintomas também apareceram nas análises
Os pesquisadores observaram ainda uma relação entre alguns sintomas comuns da menopausa e determinadas proteínas. Ondas de calor, por exemplo, foram associadas a níveis mais altos de proteínas relacionadas à inflamação. Problemas de sono apareceram relacionados a alterações em BACE1 e IGF1R, enquanto um número maior de sintomas da menopausa também esteve associado a mudanças em proteínas ligadas à inflamação e à biologia do Alzheimer.
Um dos marcadores que chamou atenção foi o CCL2, uma proteína envolvida em processos inflamatórios. Ela apareceu relacionada aos sintomas vasomotores, como as ondas de calor, tanto em mulheres na meia-idade quanto em participantes mais velhas.
Esse resultado não significa que ter ondas de calor leve ao Alzheimer. A associação observada pelos pesquisadores indica que determinados sintomas podem acompanhar alterações biológicas que também aparecem em processos ligados ao envelhecimento.
O que aconteceu anos depois
Para verificar se a assinatura identificada na menopausa tinha alguma relação com a saúde cognitiva mais tarde, os pesquisadores recorreram a quatro grupos independentes de mulheres mais velhas.
Ao todo, foram analisadas 11.925 participantes, com idade média entre 60,7 e 72,1 anos, dependendo do grupo. Em dois estudos com acompanhamento ao longo do tempo, mulheres que apresentavam uma assinatura proteômica mais elevada tiveram uma piora mais acentuada em medidas cognitivas.
Em outro grupo, formado por 93 mulheres, uma pontuação maior esteve associada a um desempenho cognitivo global mais baixo.
A análise mais extensa foi feita com dados do UK Biobank, que reuniu 11.059 mulheres. Durante um acompanhamento médio de 15,7 anos, foram registrados 219 casos de demência por Alzheimer. Nesse grupo, níveis mais altos da assinatura proteômica da menopausa estiveram associados a um risco 15% maior de desenvolver Alzheimer.
A associação, porém, não apareceu da mesma forma para todos os tipos de demência. Os pesquisadores não encontraram relação estatisticamente significativa entre o escore e demências frontotemporais, vasculares ou o conjunto de todos os tipos de demência analisados.
Pesquisa ainda não permite prever quem terá Alzheimer
Apesar dos resultados, há limitações importantes. A principal análise da menopausa envolveu apenas 80 mulheres, e os pesquisadores reconhecem que essa amostra é pequena. Além disso, essa etapa foi feita com dados de um único momento, sem acompanhar cada participante ao longo de toda a transição hormonal.
Outro ponto é que as proteínas medidas no sangue podem ter origem em diferentes tecidos. Portanto, a presença delas não significa necessariamente que estejam sendo produzidas pelo cérebro ou que estejam causando alterações cerebrais.
Por isso, os autores defendem novos estudos que acompanhem mulheres desde a fase anterior à menopausa, passando pela transição hormonal e chegando aos anos seguintes. A intenção é observar, ao longo do tempo, como hormônios, proteínas, sintomas, cérebro e desempenho cognitivo se relacionam.
O estudo abre uma possibilidade de investigação justamente nesse período da vida. Em vez de olhar para a menopausa apenas como uma mudança reprodutiva, os pesquisadores apontam que ela pode ser também uma fase importante para entender processos relacionados ao envelhecimento do cérebro e à saúde cognitiva nas décadas seguintes.
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Fonte: Jornal Opção