Prova Endurance da Stock Car transforma velocidade em estratégia em Brasília
Por Maria Luiza Figueredo — Brasil 247
Por Maria Luiza Figueredo e Michelle Machado – Por duas horas, acelerar foi apenas uma parte do trabalho. A primeira prova de Endurance da história da Stock Car em Brasília reuniu, em setembro de 2026, 60 pilotos divididos em 30 duplas no Autódromo Internacional Nelson Piquet. Em uma corrida em que combustível, pneus, freios e motor precisaram ser administrados ao mesmo tempo, as equipes também tiveram de decidir quando preservar e quando voltar a atacar.
A Team RC, formada por Lucas Di Grassi e Sérgio Sette Câmara, terminou na primeira colocação após 52 voltas, em 2h03min25s835, ganhando a prova com apenas 1s574 de diferença dos segundos colocados, Guilherme Salas e Arthur Gama . Para os dois pilotos, a vitória passou menos por manter o carro no limite durante toda a prova e mais por entender quando era possível exigir do equipamento sem comprometer a chegada até a bandeirada .
“Essa corrida de duas horas é uma corrida um pouco diferente das outras porque você precisa, a primeira coisa, acertar a estratégia, e o carro precisa terminar a corrida”, explicou Di Grassi .
Segundo o piloto, os carros são feitos para provas mais curtas, o que transforma a duração da Endurance em um desafio adicional para o equipamento . A lógica, porém, não é simplesmente diminuir o ritmo . É saber quando preservar e quando acelerar .
“Você precisa poupar o freio, você precisa poupar o motor, só que atacar na hora certa”, afirmou .
Um dos recursos disponíveis para a dupla era o push, utilizado para aumentar o desempenho do carro em determinados momentos . Di Grassi contou que os 15 pushes disponíveis não foram usados indiscriminadamente . A opção foi preservá-los e acioná-los quando realmente poderiam fazer diferença, principalmente nas ultrapassagens .
“A gente só usou no momento certo, só usou para fazer as ultrapassagens, e foi isso que deu a vitória”.
A estratégia também exigiu sintonia entre os pilotos . Sette Câmara resumiu o desafio a partir da própria experiência na pista: fazer o carro chegar ao fim sem permitir que a cautela comprometesse o ritmo .
“O maior desafio foi conseguir fazer o carro chegar até o final. Esses carros não são feitos para provas de duas horas”, afirmou. “A gente poupou muito o carro, mas não pode fazer isso de uma forma que você perca ritmo”.
A experiência de dividir o carro com Di Grassi também entrou na construção da prova . Depois de uma quebra em Curvelo, onde esperava terminar entre as primeiras colocações, a vitória em Brasília teve um significado particular para Sette Câmara .
“A gente chegou aqui em Brasília nesta corrida especial. Eu saí daqui com a vitória, estou muito feliz”.
Uma corrida que muda o trabalho das equipes
Enquanto os pilotos administravam o ritmo na pista, a Endurance também alterava a rotina de quem trabalha nos boxes . Para Ricardo Fávaro, chefe de equipe da M-Force na Stock Light e na Turismo Nacional, uma prova desse formato exige uma estrutura maior e mais coordenada do que as corridas convencionais .
“Você tem que ter pit stop, troca de piloto, abastecimento, troca de pneu . Então, você precisa reestruturar a equipe, reforçar a equipe para conseguir fazer isso com precisão”, explicou .
Segundo Fávaro, cerca de 12 profissionais participaram da operação dos dois carros da equipe, entre engenheiros, chefe de mecânicos, mecânicos e equipe de apoio . Antes mesmo de os carros chegarem a Brasília, o trabalho começava na oficina, com revisão, substituição de peças e ajustes para suportar o período mais longo em funcionamento .
Entre as adaptações feitas nos carros, Fávaro citou a instalação de um radiador de óleo do diferencial e a mudança de posição da bomba da direção hidráulica para reduzir o aquecimento durante a operação prolongada .
A equipe chegou a Brasília na terça-feira, quatro dias antes da prova . A semana foi ocupada pela montagem da estrutura dos boxes, ajustes nos carros, preparação do acerto e treinamento .
É uma rotina que passa longe da imagem de glamour associada ao automobilismo . Fávaro conta que, em um fim de semana de competição, a equipe pode começar o dia por volta das 5h e permanecer no autódromo até 21h ou 22h, dependendo do trabalho necessário para preparar o carro para o dia seguinte . O calor adiciona mais uma camada de desgaste a uma rotina já intensa .
Ainda assim, os resultados ajudaram a compensar o cansaço . Além da participação na Endurance, a M-Force disputou provas da Turismo Nacional e da Stock Light . Na Turismo Nacional, conquistou três pódios e perdeu um quarto resultado positivo no último giro, depois de um pneu furar no carro 23 .
“Apesar do cansaço, a gente está bem satisfeito com tudo o que a gente fez aqui”, disse Fávaro .
Por que Brasília para uma prova de resistência?
A escolha do Autódromo Internacional Nelson Piquet para receber a primeira Endurance da Stock Car na cidade também diz respeito às características do circuito e à própria posição de Brasília no automobilismo brasileiro .
Com cerca de 5,3 quilômetros, o autódromo reúne trechos de alta velocidade e diferentes tipos de curvas . Para Di Grassi, é um circuito técnico e veloz, com um traçado que favorece a disputa, embora ainda existam pontos de infraestrutura a desenvolver .
“A pista em si está muito boa, é uma pista que tem um traçado muito legal, mas falta ainda infraestrutura”, afirmou .
Para Fávaro, a variedade do circuito é justamente parte do desafio . O chefe de equipe destacou a extensão, os diferentes tipos de curva e a exigência de encontrar um acerto que funcione ao longo de toda a pista .
A escolha de Brasília para uma prova de duas horas, porém, não foi aleatória . Segundo Lincoln Oliveira, CEO da Vicar, a extensão do circuito, a segurança, a localização central do Distrito Federal e a rede hoteleira foram alguns dos fatores considerados para levar o formato à cidade .
“É um autódromo que tem uma pista mais longa, acho que são 5.300 metros, seguro e um espaço muito bacana, e uma rede hoteleira fantástica”, afirmou .
Para o dirigente, as características do local também ajudaram a despertar o interesse dos próprios pilotos . “É uma pista que todos os pilotos já conheciam e passaram a dizer o seguinte: ‘eu quero correr lá’.”
A relação de Brasília com o automobilismo também aparece na trajetória de quem trabalha no circuito . Para Fávaro, a cidade é “um dos celeiros do automobilismo no Brasil”, marcada pela formação de pilotos e pela presença histórica da modalidade .
Depois de acompanhar a reabertura do autódromo no ano passado, ele voltou a Brasília para a nova etapa e destacou a estrutura da cidade e o traçado do circuito como elementos que gostaria de ver presentes no calendário por muitos anos .
O que a primeira Endurance deixa para Brasília
A estreia do formato reuniu diferentes categorias, equipes, pilotos e uma estrutura de evento que, segundo Lincoln, também contou com a participação de parceiros locais e instituições . Para o CEO da Vicar, o fim de semana mostrou a capacidade das equipes de trabalhar em uma corrida diferente, em que resistência e estratégia passam a ter peso ainda maior .
“Foi uma corrida de duas horas em que as equipes puderam testar a resistência do carro, também fizeram um trabalho técnico e estratégia para ganhar a corrida”, afirmou .
A realização da prova também deixou evidentes pontos que ainda podem ser desenvolvidos no autódromo . Lincoln citou a necessidade de ampliar a infraestrutura de hospitalidade, como camarotes, como uma forma de reduzir os custos de eventos desse porte e abrir espaço para novas possibilidades .
A avaliação, segundo ele, passa por um processo de “melhoria contínua” .
“A gente aprende tudo aquilo que deu certo e replica, e tudo aquilo que deu errado a gente melhora para não errar e criar coisas novas”.
O último fim de semana colocou Brasília mais uma vez nos holofotes do automobilismo brasileiro, com um circuito desafiador e muitos aprendizados para pilotos e equipes . Com melhorias na infraestrutura, a capital pode abrir cada vez mais espaço para eventos de grande porte no centro do Brasil .
Fonte: Brasil 247