Governo quer adiar negociação com clubes após ameaça de paralisação do Brasileirão
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A ameaça de clubes de futebol de paralisar o Campeonato Brasileiro em reação à proibição das bets levou integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a defenderem o adiamento das negociações com o setor para depois do primeiro turno das eleições, marcado para domingo (4).
Segundo a coluna de Milena Teixeira, do Metrópoles, auxiliares envolvidos nas conversas avaliam que uma eventual interrupção do Brasileirão poderia ampliar a repercussão política da medida às vésperas da votação. A orientação, por isso, é evitar neste momento uma escalada pública do embate e retomar as tratativas depois das eleições.
A crise foi desencadeada após Lula assinar, na sexta-feira (25), uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas on-line no país. A norma já está em vigor e determina a retirada dos sites e aplicativos de apostas do ar a partir de 6 de outubro. Para permanecer válida de forma definitiva, a MP ainda precisará ser aprovada pelo Congresso Nacional.
A decisão provocou forte reação de dirigentes de clubes, que dependem de contratos de patrocínio com empresas do setor. Antes mesmo da publicação da MP, equipes das principais divisões já haviam se mobilizado contra o endurecimento das regras. Apenas os clubes da Série A recebem mais de R$ 1 bilhão em patrocínios de empresas de apostas legalizadas, segundo informações publicadas pelo Metrópoles.
Reunião com clubes foi cancelada
O governo havia articulado uma reunião com dirigentes de clubes e representantes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para discutir os efeitos da medida sobre o esporte. O encontro previsto para terça-feira (29), porém, acabou não ocorrendo em meio à resistência das equipes.
Os principais clubes de Rio de Janeiro e São Paulo, além do Cruzeiro, já haviam indicado que não pretendiam participar da reunião. O encontro teria representantes dos ministérios da Fazenda, do Esporte, do Planejamento e da Casa Civil.
De acordo com a coluna de Milena Teixeira, o esvaziamento não surpreendeu auxiliares do governo. Antes do encontro, integrantes do Planalto já trabalhavam com a possibilidade de baixa adesão dos clubes.
No governo, segundo a publicação, há ainda a avaliação de que empresas de apostas exerceram pressão para que dirigentes não participassem das conversas. Trata-se de uma avaliação atribuída a integrantes do Executivo pela coluna, sem comprovação independente apresentada na reportagem.
A possibilidade de os clubes levarem a reação além das negociações e promoverem uma paralisação do Campeonato Brasileiro aumentou a preocupação política no Planalto. A avaliação de aliados é que uma disputa aberta com o futebol nos últimos dias da campanha poderia deslocar a atenção para a controvérsia em torno da MP.
Lula mantém defesa da proibição
Apesar da tentativa de reduzir a temperatura das negociações neste momento, Lula não pretende recuar publicamente da defesa da medida.
O presidente tem argumentado que o futebol brasileiro viveu seus períodos de maior sucesso antes da expansão das casas de apostas. Em manifestação anterior sobre a pressão dos clubes, Lula afirmou que equipes como São Paulo, Santos, Grêmio, Flamengo e Corinthians conquistaram títulos importantes quando não existiam contratos com bets.
Na apresentação da MP, o presidente também justificou a iniciativa pelos efeitos sociais e financeiros associados aos jogos on-line. “A sociedade ficou absolutamente desprotegida. Esse país trouxe o cassino para dentro de casa. O cassino está na cozinha, está na sala, está com o idoso, está com a criança. É preciso ter um controle”, declarou Lula.
Além da proibição das plataformas, o governo iniciou uma ofensiva para restringir o acesso aos sites. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou ter solicitado o bloqueio de 5,2 mil endereços ligados a apostas, além da remoção de centenas de páginas e perfis em redes sociais. Até terça-feira (29), a Anatel havia determinado a derrubada de 2.387 domínios.
Levantamento do PT indica apoio à medida
Outro fator citado por aliados de Lula para evitar uma negociação imediata com os clubes é a leitura de que a proibição encontra respaldo nas redes sociais.
Um levantamento produzido pelo PT e obtido pela coluna de Milena Teixeira analisou 112 mil ocorrências em plataformas digitais. Segundo a classificação feita pelo partido, 76% das manifestações foram consideradas positivas para o governo, 21% negativas e 3% neutras ou ambivalentes. Os dados refletem a metodologia do levantamento partidário e não equivalem a uma pesquisa de opinião representativa da população brasileira.
Entre as manifestações analisadas, 18% relacionavam as apostas a problemas como vício, endividamento e conflitos familiares. Já entre as críticas, apareceram questionamentos sobre uma possível motivação eleitoral para a decisão e sobre a capacidade da proibição de impedir que apostadores recorram a plataformas estrangeiras ou clandestinas.
Fonte: Brasil 247