Entenda como projeto arquivado e postagens nas redes alimentaram desinformação religiosa
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Publicado em 29 de Setembro de 2026 às 14:55
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Conteúdo analisado: Post nas redes sociais que afirma que o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, vai tirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil, com base em um projeto de lei de 2007, que foi arquivado no ano seguinte. A GloboNews discutiu o assunto no programa “Em Pauta”.
Comprova Explica: Segundo apuração do Comprova, Flávio não fez tal afirmação nem indicou ter feito tal movimento. Além disso, diferentemente do que os posts afirmam, a iniciativa relacionada ao título de Nossa Senhora Aparecida, proposta por evangélicos, ocorreu em 2007, por meio de um projeto de lei do então deputado federal Professor Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso. O texto sugeria substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, mas a sugestão foi arquivada em 2008.
Diante da repercussão do assunto às vésperas da eleição — a hashtag #respeitemnossapadroeira ficou entre os assuntos mais comentados do X em 26 de setembro —, a seção Comprova Explica traz detalhes sobre o tema.
Durante um compromisso de campanha em São Paulo nesta segunda-feira (28), Flávio Bolsonaro agradeceu à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) por “confirmar” que a polêmica relacionada à Nossa Senhora Aparecida “é uma grande fake news”. Um dia antes, no domingo, o candidato afirmou que o PT “estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB”.
Os fatos mais recentes ilustram apenas uma parte da polêmica. A situação começou ainda no dia 24 de setembro, quando um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes no programa “Em Pauta”, da GloboNews, repercutiu nas redes sociais. Ela afirmou que havia um grupo de evangélicos se mobilizando após um projeto de lei que visaria rebaixar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Após a fala, diversos internautas comentaram o assunto, e o próprio Flávio Bolsonaro se pronunciou, afirmando que tal projeto não existia. Mais tarde, a GloboNews se retratou com um pedido de desculpas pela afirmação.A CNBB, contudo, não desmentiu a afirmação da jornalista.
A atribuição de uma ameaça de Flávio à Igreja Católica já vinha sendo alimentada há mais tempo. No dia 23 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro se pronunciou em um vídeo publicado nas redes sociais após sua ausência no debate promovido pela Band no dia 22, no qual disse: “Eu quero debater com quem não acredita em Deus. Porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala de Flávio gerou debates nas redes e chegou até o programa “Em Pauta” do dia 24 de setembro. Ela foi associada ao Projeto de Lei 2.623/2007, do então deputado federal Professor Victório Galli, que propunha substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que as plataformas online retirassem do ar as publicações que continuassem a associar Flávio ou sua família à retirada do título de Nossa Senhora Aparecida. No domingo (27), o ministro Flávio Dino derrubou a decisão de Mendonça.
No mesmo dia, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou uma nota de esclarecimento e afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”. Além disso, disse que “não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura”.
Para a pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, o que está acontecendo nas eleições de 2026 é inusitado, pois envolve Nossa Senhora Aparecida, símbolo máximo do catolicismo no Brasil.
“Essa discussão nas redes, dizendo que a afirmação de Flávio em relação a Jesus representa um projeto de destruição da força católica no país, é uma versão dessa disputa identificada na Câmara Federal transbordando para a campanha eleitoral”, destaca.
O título de Nossa Senhora Aparecida foi oficialmente reconhecido pela Igreja Católica em 1930, quando o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida como rainha e padroeira principal do Brasil. Além disso, a Lei Federal nº 6.802, de 30 de junho de 1980, instituiu o feriado nacional de 12 de outubro e reconheceu oficialmente Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país.
O Projeto de Lei 2.623/2007 é antigo, foi apresentado no dia 12 de dezembro de 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli, que buscava alterar a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que declara 12 de outubro como feriado nacional para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida. O texto da proposta do então deputado sugere substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” na data comemorativa em questão. No entanto, o projeto foi rejeitado de forma unânime pela Comissão de Educação e Cultura em agosto de 2008 e foi arquivado no mesmo ano.
O autor do projeto também é pastor da Assembleia de Deus. Exerceu mandatos como deputado federal pelo estado, tendo atuado como suplente entre 2007 e 2015 e como titular de 2015 a 2019, conforme reportagem do Estado de Minas. Em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro (PL), o que reforçou sua imagem como figura política alinhada ao ex-presidente.
Magali Cunha cita pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) que monitorou projetos de lei de parlamentares com identidade religiosa, de 2023 a 2025. O estudo identificou a institucionalização de calendários e a patrimonialização de símbolos religiosos como pontos de disputa entre católicos e evangélicos na Câmara dos Deputados.
A pesquisadora ressalta que é nítido, com base nos dados do ISER, um movimento mais intenso de evangélicos propondo formas de homenagem do Estado, tentando promover símbolos como a Bíblia, a música gospel e as “mulheres de oração assembleianas”. Segundo Magali, isso configura uma forma de tentar conquistar mais espaço na cena pública.
Outro post que viralizou neste fim de semana, publicado em 25 de setembro, afirma que evangélicos queimaram uma imagem da padroeira em Anápolis, em Goiás. No entanto, é mentira. O conteúdo, que alcançou 549 mil visualizações até a publicação deste texto, foi descontextualizado, como o Comprova verificou.
Na verdade, o vídeo mostra um incêndio ocorrido em julho, em Nerópolis. De acordo com investigação da Polícia Civil no caso, as velas acesas durante o pagamento de uma promessa de fiéis podem ter provocado o fogo; polícia descartou vandalismo e intolerância religiosa por parte de evangélicos. O caso foi registrado pelos veículos Diário de Goiás e G1.
Um vídeo de 2025 voltou a circular após a divulgação de conteúdos relacionados a evangélicos, que são apoiadores de Flávio Bolsonaro. O conteúdo foi publicado por uma página de notícias na plataforma X, com mais de 136 mil seguidores, e contava com mais de meio milhão de visualizações até o encerramento desta verificação.
O vídeo em questão mostra uma van apontada como pertencente a evangélicos que estariam distribuindo panfletos contra a padroeira no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida, em São Paulo. No entanto, o Comprova não encontrou qualquer evidência ou reportagem sobre o assunto, apenas publicações de páginas ou blogs católicos.
Fontes consultadas: O Comprova consultou o projeto de lei apresentado em 2007, sites de notícias e dados do Instituto de Estudos da Religião. Entrevistou a pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha.
Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: UOL e Aos Fatos checaram conteúdo semelhante. Na eleição de 2022, o Comprova verificou ser falso que Lula teria dito que fecharia igrejas caso fosse eleito.
Investigação e verificação
Investigado por: GZH e Programa de Residência do Projeto Comprova
Texto verificado por: A Gazeta, Correio Braziliense, Correio do Estado, Correio de Carajás e Programa de Residência do Projeto Comprova
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