Voto útil para o Senado ou voto tutelado?
Por Jacqueline Muniz — Brasil 247
É legítimo o posicionamento eleitoral dos amigos e amigas aqui. Porém, se no início é o verbo, há que cuidar da linguagem e da palavra. Há, subentendida, uma moralidade hegemônica naturalizada que faz uso de adjetivações sobre mulheres que não são explicativas, mas julgadoras da realidade, como se tem feito com as candidatas ao Senado Benedita da Silva (PT) e Mônica Benício (PSOL) em nome do tal voto útil. Gênero, raça e orientação sexual são quase sempre os lugares onde se escorrega na discriminação oculta, mesmo sendo uma pessoa progressista.
Manter estes marcadores silenciados ou colocá-los no final da fila, do tipo “ainda não é dessa vez”, revela como a espera é uma tecnologia da destituição velada de nossas identidades.
Por vezes, o machismo internalizado se apresenta como masculinismo na palavra que organiza a consciência e no que está subentendido ou pressuposto. Faz-se do pressuposto o lugar da verdade e da autoridade, justamente porque ele não precisa se explicar. Há que ter atenção a isso, pois é na linguagem que está a primeira dimensão de identificação e ruptura dos pré-conceitos.
O problema não é alguém decidir estrategicamente o seu voto; é transformar uma estratégia contingente em verdade objetiva sobre o que todos os demais deveriam fazer. É aí que o pressuposto se converte em tutela do eleitor.
Outra coisa a que prestar atenção é perguntar, logo de partida: voto útil para quê e para quem? É da natureza da utilidade envelhecer rápido: aquilo que parece útil antes do voto pode deixar de sê-lo tão logo o voto caia na urna. Pode ser mesmo inútil para as realidades concretas dos eleitores encantados com a utilidade propagandeada.
Quem sai ganhando com o voto útil, além do candidato beneficiário e de uma racionalidade conservadora que mobiliza o pânico moral ao mesmo tempo que se apresenta como alerta contra ele? Não é o eleitor, logo descartado, já que sua utilidade termina na eleição. A lógica do voto útil não quer o eleitor engajado na política, quer o seu voto.
Essa lógica traz consigo a construção de uma ameaça e, por sua vez, a produção de um pânico moral, de modo a produzir o resultado que se deseja. Isto é parte da engrenagem da profecia que se autocumpre. Desidratamos nosso candidato ou nossa candidata fazendo voto útil por conta da pesquisa eleitoral, e a sondagem reforça o efeito da propaganda do voto útil, desencarnado e, por sua vez, descompromissado com a nossa visão de mundo.
Das regras eleitorais não se extrai voto útil. Esta é uma leitura enviesada da própria matemática eleitoral, feita de predições sobre escolhas individuais como se todos usassem a mesma conta no voto.
O voto útil não compromete o seu beneficiário a fazer coalizões que incluam nossas pautas, a fazer valer alianças e, menos ainda, a incorporá-las a uma agenda de governo. O beneficiário segue com o nosso voto transformado em capital político para sustentar o projeto político que o inventou.
A própria expressão voto útil traz consigo uma racionalidade de ambição superior e preditiva, uma ilusão de factualidade. Para essa ilusão de factualidade é preciso impor ao mundo um indivíduo genérico universal com a mesma suposta maneira de pensar: um sujeito sem cor, sem gênero, sem orientação sexual, sem classe, sem inscrição religiosa, sem origem social.
Um eleitor universal que pensa com os mesmos critérios dos profetas do voto, que anunciam o futuro eleitoral e, a partir dele, pretendem dizer no presente qual voto é útil e qual não é. É nessa passagem da predição à prescrição que se instala a tutela. Um pastiche estatístico inexistente. Mas esse pastiche ganha vida pelo aparelhamento do medo legítimo. É a mesma engrenagem que tem atrás de si uma máquina eleitoral, vinda do executivo e da igreja, por trás de Pedro Paulo e Crivella.
Cabe alertar que pensamento comum não é o pensamento único, por natureza autoritário, que se quer impor pelo cimento dos afetos, como o medo.
O medo aparelhado do voto útil é uma das modalidades dos discursos do terror. Diante desse medo agravado publicitariamente, espera-se que cada um abra mão de suas contas e predileções em favor de outra contabilidade, a de um projeto de poder expresso em propagandas intimidatórias. Isto é parte do uso religioso da profetização dos resultados: traz-se para o presente aquilo que se espera no futuro.
O fundamento disso é a ameaça, ferramenta antiga para forçar um coletivo artificial pelo somatório de indivíduos despojados de seus marcadores sociais. Isso também é bem grave e se expressa de forma deliberada na segurança pública.
Ao final, o que se revela é um pensamento de estrutura religiosa travestido de análise crítica: a tática mística do menos pior, do suposto menor risco ou a fábula utilitária de não perder o voto. Sua razão de ser é impor tutela ao eleitor(a) por aqueles que se acreditam mais “conscientes” e iluminados. Tutela é o nome jurídico chique para pastoreio de gado.
Há aí a tentativa de sedução pelo pragmatismo, como se este fosse mais realista do que as diversas realidades de escolha eleitoral. Há aí, também, uma pretensão de superioridade moral e intelectual.
Este tipo de racionalidade tem sido perigosa, como se viu com Romário, que é senador e em quem se votou com a mesma lógica do voto útil. E também como se viu no medo do Ramagem na eleição de Eduardo Paes para prefeito. Gente, é muita assombração política a tumultuar o nosso voto.
Já que se faz uso implícito do pensamento religioso, então que chamem por Nossa Senhora Aparecida nas redes sociais! Uma mulher negra, padroeira do Brasil, cuja simbologia abriu uma clareira de oportunidade eleitoral. A minha oportunidade é votar em Benedita e Mônica para o Senado. Esta é a minha chance histórica inadiável.
Fonte: Brasil 247