Lula endurece discurso sobre segurança pública para atrair indecisos e desgastar Flávio Bolsonaro

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – Às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, a campanha do presidente Lula (PT) adotou um tom mais rígido e endureceu o discurso no combate à segurança pública. A guinada estratégica visa atrair eleitores indecisos e de centro, além de desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Planalto. O movimento responde ao cenário em que a violência desponta como a principal preocupação do eleitorado brasileiro, informa o jornal O Globo.

A nova postura se reflete diretamente em materiais promocionais e panfletos distribuídos pelo comitê petista, incluindo uma lista de 13 propostas por “mais firmeza contra o crime”. Entre as medidas defendidas está o enrijecimento de regras para a liberação de detentos acusados de crimes violentos após a audiência de custódia, o que marca um reposicionamento frente a pautas historicamente defendidas por setores da esquerda. As propostas também abrangem o aumento do uso de câmeras corporais em policiais, a ampliação do programa Celular Seguro e a construção de novas penitenciárias federais.

No plano audiovisual, as peças de campanha adotaram tom igualmente incisivo. Um dos vídeos veiculados exibe homens atrás das grades e lista “quatro inimigos” a serem combatidos de forma prioritária: “Os traficantes, os agressores de mulheres, os ladrões de celular e os magnatas do crime”. Paralelamente, inserções no horário eleitoral gratuito mostram uma mulher caminhando com o filho e se esquivando de projéteis, acompanhada da frase “a família Bolsonaro deixou o Brasil mais violento”, em crítica direta à flexibilização do acesso a armas promovida pelo governo anterior.

“Não podemos ter discurso leniente. Precisamos afastar do convívio social todos que agem com extrema violência. Mas não é o discurso raso de que bandido bom é bandido morto. O presidente sabe que o combate tem que ser firme, mas isso não vai ser feito com violência”, declarou o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, designado para atuar como porta-voz da campanha na área.

O endurecimento do discurso vinha sendo testado ao longo do ano, mas ganhou força com a intensificação dos ataques de Flávio Bolsonaro, que acusa Lula e o PT de frouxidão no combate ao crime. O cenário eleitoral aponta acirramento: dados recentes da Quaest mostram Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% de Flávio. Em simulação de segundo turno, ambos aparecem empatados com 42%.

A agenda de segurança é vista como um ponto vulnerável para a esquerda, historicamente cobrada por falta de propostas concretas para o setor. No próprio governo Lula 3, há cobranças internas pela ausência de marcas consolidadas na área. Para responder a essa demanda, o presidente reiterou a promessa de criar um ministério exclusivo para a Segurança Pública — compromisso assumido em 2022 que não chegou a sair do papel.

Na esfera legislativa e executiva, o Palácio do Planalto passou a priorizar a aprovação do projeto de lei antifacção e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, focando em sufocar financeiramente o crime organizado pelo “andar de cima” e no combate ao feminicídio.

Repercussão internacional e desgaste da oposição

O debate sobre a criminalidade também migrou para a política externa. Após o governo dos Estados Unidos classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, o governo brasileiro manifestou preocupação com eventuais intervenções externas no território nacional. Durante a abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Lula abordou o tema diretamente em seu discurso:

“Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência”, disse o presidente no fórum internacional.

Pesquisas qualitativas internas da campanha governista indicam que, embora o eleitorado demonstre simpatia pela retórica sobre segurança de Flávio Bolsonaro, duvida de sua capacidade de gestão para resolver a crise. Para explorar essa vulnerabilidade, o comitê de Lula veiculou material resgatando controvérsias do senador com grupos paramilitares, perguntando no vídeo: “Como alguém ligado a criminosos vai combater o crime?”.

As acusações remetem a 2003, quando Flávio, na condição de deputado estadual no Rio de Janeiro, homenageou o então policial militar Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado como liderança do grupo de extermínio “Escritório do Crime”. O candidato do PL sustenta que a homenagem ocorreu quando Nóbrega era um agente condecorado sem acusações formais. Além disso, a Polícia Federal investiga o repasse de emendas parlamentares de Flávio para uma organização não governamental suspeita de elo com os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados pelo homicídio da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. À época das denúncias, Flávio declarou que não cabe a um parlamentar auditar a execução de verbas destinadas a instituições.

Coordenador do programa de segurança de Lula no pleito de 2022 e ex-ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Benedito Mariano ressaltou que o enfrentamento às facções deve ser o pilar central de uma eventual nova gestão.

“O crime organizado é uma pauta fundamental para o governo, pois se espalhou em todos os estados. Isso já tem se materializado a partir da PEC da Segurança e do projeto antifacção”, afirmou Mariano.

Como medida complementar, o Ministério da Justiça finaliza a redação de um decreto para regulamentar um cadastro nacional unificado. A ferramenta reunirá informações sobre pessoas físicas e jurídicas associadas a milícias, grupos paramilitares e facções criminosas, com o objetivo de municiar os órgãos de inteligência no combate preventivo ao crime organizado.

Fonte: Brasil 247

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