Dólar a R$ 4,80? As pistas que as últimas eleições na América Latina dão para o desempenho do real
Por Monique Lima — Seu Dinheiro

Quanto o real pode se valorizar em relação ao dólar caso as eleições presidenciais resultem em uma alternância de poder?
Para responder a essa pergunta, a analista de renda fixa da Empiricus, Lais Costa, analisou as três eleições presidenciais mais recentes da América Latina que resultaram em alternância de governos. Casos de Chile, Colômbia e Peru.
- José Antonio Kast venceu o segundo turno chileno em dezembro de 2025,
- Abelardo de la Espriella venceu a disputa colombiana em junho de 2026, e
- Keiko Fujimori conquistou a Presidência do Peru em julho deste ano.
Em todos esses casos, nos dois meses posteriores ao pleito eleitoral, a moeda local desses países apreciou consistentemente.
Mas o movimento não se concretizou em um único dia — foi um processo contínuo, pregão após pregão, conforme mais informações sobre o novo governo chegavam.
“Depois da eleição, desaparece parte da incerteza binária, mas começa outra etapa de formação de preços: composição do governo, relação com o Legislativo, credibilidade das primeiras sinalizações econômicas e probabilidade de implementação das políticas anunciadas”, diz o relatório.
Ganhar é apenas o primeiro passo. O cenário anterior e posterior é o que importa.
Partindo de um câmbio de R$ 5,15 por dólar, os cálculos da Empiricus apontam que a moeda norte-americana pode chegar ao nível de R$ 4,80.
Reação do dólar começa no primeiro turno
Quando investidores passam a acreditar que uma eleição pode resultar em mudanças na condução da economia, os preços dos ativos tendem a começar a se ajustar antes mesmo da votação.
Foi o que ocorreu nos países analisados.
Na Colômbia, por exemplo, a moeda local já tinha se valorizado cerca de 7% nos 30 dias anteriores ao segundo turno presidencial.
No Chile, o mercado também começou a incorporar a expectativa de mudança ainda durante o processo eleitoral. A valorização do peso chileno foi de 2,10% um mês antes do resultado.
O mercado sempre busca antecipar eventos futuros e, quando identifica uma probabilidade crescente de alternância de poder, reage antes de a urna confirmar o resultado.
Mas essa é apenas uma parte da história.
O que acontece depois…
A última milha que realmente define a valorização das moedas locais frente ao dólar em casos de alternância de poder acontece depois da definição do presidente eleito.
Mas não um dia depois — pelo menos um mês depois, segundo o estudo da Empiricus.
No Chile, a moeda local acumulava valorização de 3,16% após o primeiro mês da eleição. Ao final de dois meses, esse ganho chegou a 5,27%.
Na Colômbia, o movimento avançou de 6,67% para 11,78% na mesma comparação.
O período após o resultado do pleito acompanha uma série de definições que valem mais aos participantes do mercado do que o nome do presidente.
“A maior parte da informação sobre quem venceria já estava disponível antes do segundo turno”, diz Costa, no relatório.
“O estudo captura, portanto, uma combinação de última milha eleitoral e reprecificação posterior do regime econômico — governo, governabilidade, política fiscal e capacidade de execução.”
Em outras palavras: uma coisa é o mercado apostar em quem vai vencer. Outra é avaliar como esse governo irá governar.
Depois da eleição, as atenções se concentram na formação da equipe econômica, na relação com o Congresso, no comprometimento com o ajuste fiscal e na capacidade de colocar as promessas em prática.
É nesse momento que ocorre uma segunda rodada de precificação dos ativos.
O possível reflexo no real
A leitura da Empiricus é que uma eventual alternância de poder no Brasil não necessariamente teria todo o seu efeito refletido nos preços imediatamente — exatamente como aconteceu nos outros países.
Caso o mercado associe a mudança de governo a uma melhora do quadro fiscal e das perspectivas econômicas, o real poderia continuar se fortalecendo mesmo após o resultado oficial das urnas.
Os números observados nos países vizinhos reforçam essa hipótese.
Nos 42 pregões posteriores às eleições analisadas, o peso chileno avançou 6,5% ante o dólar, o peso colombiano ganhou 9% e o sol peruano se valorizou 0,6%.
Quando os analistas transportam esses movimentos para o Brasil, as estimativas apontam para uma valorização relevante da moeda brasileira, especialmente nos cenários mais conservadores, que indicam apreciação entre 5,2% e 5,4%.
Isso colocaria o dólar perto da faixa de R$ 4,81 a R$ 4,87.
Costa faz questão de destacar que o estudo não deve ser encarado como uma projeção para o câmbio brasileiro.
Cada país possui uma situação fiscal diferente, instituições distintas, composições políticas próprias e desafios específicos.
Além disso, fatores globais, como juros nos Estados Unidos e comportamento do dólar no exterior também influenciam a cotação do real.
Ainda assim, a analista acredita que a experiência recente dos vizinhos latino-americanos deixa uma mensagem clara.
Quando o mercado passa a enxergar uma mudança relevante no rumo econômico de um país, o impacto sobre o câmbio pode ser significativo. E, mais importante, esse movimento dificilmente termina na noite da eleição.
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Fonte: Seu Dinheiro