O problema é maior que a aposta
Por Vivian Graminho — JOTA
Quando uma orquestra desafina, culpar um único instrumento pode ser tentador, mas raramente explica o problema. Com o endividamento das famílias brasileiras ocorre algo semelhante. As apostas de quota fixa passaram a ocupar posição central nesse debate. De fato, é legítimo investigar seus impactos, sobretudo sobre consumidores considerados vulneráveis. No entanto, o problema começa quando uma relação possível é apresentada como explicação suficiente para um fenômeno mais antigo e complexo.
O que chama a atenção e motivou a elaboração deste artigo é a simplificação que os diversos atores políticos, econômicos, midiáticos e sociais estão aplicando ao endividamento brasileiro e à economia nacional. O Brasil já enfrentou cenários econômicos mais adversos, com taxa de desemprego e da inflação mais elevadas, dívida externa nas alturas e demais fenômenos econômicos com piores desempenhos.
Contudo, o endividamento continua alto e não para de crescer. Este problema é ocasionado por diversos fenômenos e pretender atribuí-lo a um único fator não é apenas cruel e distante da realidade, mas perigoso, porque retira uma análise multissetorial necessária e ofusca causas estruturais que devem ser analisadas e transformadas.
O Brasil, na verdade, já convivia com elevado endividamento familiar muito antes de as operadoras legalizadas iniciarem suas operações, em janeiro de 2025. Os dados são claros: em novembro de 2022, 78,9% das famílias estavam endividadas, sendo que as dívidas de cartão de crédito correspondiam a 86,4% dessas dívidas. Em junho de 2024, o índice permanecia estável, em 78,8%, com o cartão de crédito mantendo a mesma participação.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em entrevista concedida no dia 24 de agosto, disse que o Banco Central está preocupado com o crescimento recente das dívidas no país, e que tal fenômeno tem sido puxado principalmente por linhas de crédito usadas para consumo e despesas recorrentes. Em sua fala, ele ainda alertou que o endividamento segue avançando mesmo com melhora do emprego e da renda, destacando que os juros do cartão de crédito continuam como principal razão do endividamento das famílias brasileiras.
O boletim da Comsefaz corrobora a fala do presidente do BC, na medida em que aponta que a combinação de dívidas acumuladas de anos anteriores, juros persistentemente elevados e uso contínuo de modalidades de crédito de custo mais alto, como o cartão de crédito rotativo, ajuda a explicar a alta da inadimplência no início de 2026. Os dados do Banco Central reforçam esse diagnóstico: em maio de 2026, a inadimplência no crédito livre para as famílias alcançou 7,6%, enquanto a taxa média de juros nessa modalidade disparou para 62,8% ao ano. Ainda, o cartão de crédito rotativo mantém participação de 84,7% no endividamento das famílias.
Os dados econômicos e a alta contribuição do uso de crédito com suas consequentes taxas de juros não eliminam a necessidade de analisar o mercado de apostas. Inegavelmente, há apostadores que ultrapassam os limites do jogo responsável e acabam se endividando, especialmente aqueles que jogam e apostam no mercado clandestino. Porém, os números não condizem com a alegação amplamente divulgada na mídia de que os gastos com as apostas são a razão do endividamento familiar.
De acordo com um estudo da Paag, que reuniu dados de 26 operadoras autorizadas (cerca de 30% do mercado regulado), 74% das transações no segundo trimestre de 2026, foram de até R$50 e responderam por 23% do valor movimentado. No outro extremo, apostas acima de R$1.000 representaram menos de 1% das transações, mas concentraram 20% do valor. Vale destacar que, durante a Copa do Mundo de 2026, 6% dos brasileiros adultos apostaram em partidas do torneio, entre eles, 37% relataram saldo positivo, 15% disseram não ter ganhado nem perdido, e 48% afirmaram ter perdido dinheiro.
Dados trazidos em recente estudo publicado pela LCA revelam a ausência de relação direta entre legalização das apostas no Brasil e o endividamento dos brasileiros. Segundo a análise técnica apresentada no documento, o gasto líquido com apostas representa 0,46% do consumo das famílias no PIB brasileiro. As referências do estudo permitem a conclusão: o jogo não pode ser responsável por uma crise nacional de endividamento e inadimplência. Há contribuição do setor com gastos realizados, mas a sua participação está longe de ser o fator determinante.
Falta ainda um instrumento nessa orquestra: o mercado ilegal. Estimativas indicam que uma parcela relevante das apostas no Brasil ocorre fora do ambiente autorizado (38% a 44%), inclusive, muitos consumidores reconhecem que sequer conseguem distinguir uma plataforma regulada de uma ilegal. Essa informação importa quando se discute vulnerabilidade financeira, tendo em vista que plataformas clandestinas, por definição, não se submetem às obrigações de fiscalização e de proteção ao apostador previstas na regulamentação.
Jogos e apostas não podem ser considerados elementos neutros nesse cenário. Para alguns consumidores, perdas recorrentes e jogo problemático podem agravar vulnerabilidades financeiras. Justamente por isso, a resposta pública deve ser dirigida aos riscos concretos: identificar comportamentos problemáticos, fiscalizar a vedação ao uso de crédito, aperfeiçoar limites de gasto e perda, fortalecer mecanismos de autoexclusão e ampliar a prevenção e o encaminhamento para tratamento específico.
A busca da estabilidade econômica, melhora nos índices relacionados à saúde e à educação, assim como a concretização de políticas públicas de inclusão é um dever do Estado e direito da população. A análise de fatos e circunstâncias que impedem ou retardam a sua concretização é necessária, mas deve ser feita de forma séria, imparcial e multissetorial. Atribuir a uma atividade a causa de todos os males não é justo nem razoável, na medida em que não confere com os dados analisados.
Como na orquestra, corrigir a desafinação exige ouvir o conjunto. Enfrentar o endividamento familiar pressupõe distinguir correlação de causalidade e atuar sobre juros, custo do crédito, renda, inadimplência e comportamentos de aposta de risco, sem ignorar nenhum deles e sem transformar apenas um em culpado. O Brasil precisa de políticas públicas concretas, economia estável, mercado de trabalho ativo, serviços públicos funcionando e iniciativa privada sustentável. É esse conjunto de fatores que permitirá que os brasileiros se estabilizem economicamente e que a vida se torne mais digna, como determina o princípio constitucional.
Fonte: JOTA