Debate na Globo é arapuca para a produção de mentiras e cortes
Por Moisés Mendes — Brasil 247
O que chamam de corte, e vale hoje para qualquer coisa no TikTok ou no jornalismo profissional, é o que já foi chamado de edição de conteúdo. O corte não é uma invenção da internet ou da extrema direita lacradora. É mais antigo do que os chinelos de dedo.
O estagiário do Brasil 247 sabe que o corte é a escolha de uma imagem, uma fala, um texto, alguma coisa que expresse síntese. Os versículos da Bíblia são cortes. Este, por exemplo, é o versículo 44 do capítulo 8 do Evangelho de João, quando Jesus informa aos fariseus que sabe muito bem do plano para matá-lo:
“Vocês têm por pai o diabo e querem satisfazer os desejos do pai de vocês. Ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentiras, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”.
Jesus disse muito mais, num dos momentos mais tensos antes de ser assassinado, mas esse é o corte que está no Evangelho de João sobre o pai da mentira. O que Flávio Bolsonaro quer, no debate de quinta-feira na Globo, é lacrar e produzir mentiras. Ele é o filho ungido do pai da mentira no Brasil.
Flávio quer cortes para a propaganda de TV e rádio e para as redes sociais. É como funciona quase tudo hoje. O que a TV começou e a internet radicalizou foi o vício em cortes, muitas vezes fora de contexto, para favorecer alguém na sua pregação política.
O bolsonarismo é especialista em cortes e sabe fazer edições muito melhor do que as esquerdas. Por isso, o debate na Globo, que divide quem defende e quem é contra a presença de Lula, seria um momento para a produção de falas recortadas.
Ninguém mais vê um debate político do início ao fim. Poucos querem saber do encadeamento de argumentos, coerência e consistência. Querem cortes. Flávio não iria ao debate para enfrentar Lula com algum fundamento.
Levaria perguntas e frases prontas para editá-las em 10 ou 20 segundos. Dezenas de cortes descontextualizados. É previsível que seria assim. Sem condições de sustentar uma conversa sobre programas sociais, educação, saúde e economia, tentaria produzir intervenções lacradoras. É só isso. Lula só deveria ir se tivesse a certeza de que poderia vencer o duelo de cortes.
É arriscado, é quase impossível, sabendo-se que o caso de Nossa Senhora Aparecida e a proibição das bets não tiveram maior impacto nas pesquisas. O que poderá impactar tão perto da eleição, num debate com três figuras da direita?
Não ir pode significar a chance de Flávio levar frases bem escolhidas para cortes sobre a ausência de Lula. Mas também o extremista terá de calibrar o tom da afronta, para não saturar a audiência com excesso de escracho. E ficará falando sozinho, sem poder encarar Lula.
Parece ter prevalecido o alerta sintetizado por Leonardo Attuch, aqui no 247: que Lula não vá e que Flávio e os outros candidatos da direita se devorem no estúdio, porque não há outra estratégia para Ronaldo Caiado e Augusto Cury que não seja a de bater em Flávio.
Alguém imagina que eles possam ficar durante três horas batendo em Lula? Os outros dois, Romeu Zema e Renan Santos, não foram convidados porque seus partidos não têm representação suficiente no Congresso, como estabelece a legislação eleitoral.
Muitos dirão que a Globo e os jornalões ficarão toda a sexta-feira atacando a ausência de Lula. Não haverá novidade. Não há o que ganhar indo a essa arapuca. Ninguém imagina que o Flamengo, às vésperas de vencer por antecipação a Série A, possa enfrentar um time de milicianos presidiários de Bangu 1, dentro da penitenciária.
E consideremos que, se Lula não for, como avisou à coordenação da campanha nessa segunda-feira, é provável que Flávio também avalie se vale a pena ir para levar bordoadas de Caiado. João, o evangelista, deve ter sido ouvido no Planalto: saia fora dessa, Lula, e fuja dos cortes e das mentiras de Flávio Bolsonaro.
Fonte: Brasil 247