Aliados de Flávio Bolsonaro veem reação à crise com CNBB como “desastrosa”
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – A condução de Flávio Bolsonaro (PL) diante da notícia falsa sobre uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil provocou preocupação entre aliados do candidato à Presidência, que consideram especialmente prejudicial a decisão de envolver a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na controvérsia.
Segundo a coluna da jornalista Jussara Soares, da CNN Brasil, integrantes do entorno de Flávio Bolsonaro classificam como “desastrosa” a reação adotada pelo candidato. A avaliação interna é que uma situação inicialmente concentrada no combate a uma informação falsa se agravou depois que o senador acusou pessoas ligadas à CNBB de terem contribuído para disseminá-la.
A seis dias do primeiro turno, aliados temem que o episódio comprometa o esforço de Flávio Bolsonaro para ampliar o voto útil entre eleitores de direita e conquistar indecisos. Também avaliam que o confronto com a entidade católica abriu uma nova frente de desgaste político justamente quando a campanha entra em sua etapa decisiva.
Flávio acusa pessoas da CNBB e entidade reage
Durante agenda em Goiânia, no domingo (27), o senador afirmou que nunca existiu qualquer iniciativa para retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida e responsabilizou o PT e pessoas de dentro da CNBB pela circulação da informação.
“A maior fake news dessa campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida, algo que nunca, não existia esse movimento pra tirar ela de ser padroeira do Brasil, jamais existia, não tem projeto, não tem nada. O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com ajuda de gente dentro da CNBB, infelizmente, essa é a realidade”, disse.
A CNBB rejeitou a acusação de participação na produção ou disseminação de informações falsas relacionadas às eleições. Em resposta, a entidade afirmou que “a mentira não se combate com outra mentira” e sustentou que acusações feitas sem apresentação de fatos ou provas atingem injustamente a instituição.
De acordo com a reportagem, pessoas próximas ao candidato afirmam que a acusação contra integrantes da CNBB não fazia parte da estratégia previamente definida para responder à crise. Esses interlocutores atribuem a declaração ao cansaço e a um deslize provocado pela pressão em torno do episódio.
A campanha já havia orientado aliados a reduzir declarações públicas e buscava evitar improvisações de Flávio Bolsonaro nesta reta final, justamente para diminuir o risco de novas controvérsias.
Aliados temem repetição de desgaste do caso Master
No entorno do candidato, existe ainda a preocupação de que a repercussão alcance dimensão semelhante à provocada, em maio, pela divulgação de áudios nos quais Flávio Bolsonaro pediu recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL).
A avaliação relatada pela CNN é que Flávio Bolsonaro voltou à defensiva depois de um período de três semanas no qual sua campanha buscou pressionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao explorar a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e as relações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro.
Para aliados, o agravamento da controvérsia com a CNBB também ofereceu ao campo adversário um tema a ser explorado nos últimos dias antes da votação.
Fake news levou disputa ao TSE e ao STF
A informação falsa ganhou força nas redes sociais na noite de quinta-feira (24), depois que um comentário feito em um canal de televisão mencionou uma suposta preocupação de bispos com a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O canal posteriormente pediu desculpas pelo erro.
Flávio publicou um vídeo para desmentir a informação poucas horas depois. Na sexta-feira (25), sua equipe jurídica acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para impedir que o senador ou sua família fossem associados a uma suposta intenção de retirar o título religioso.
O ministro André Mendonça acolheu o pedido e determinou a indisponibilização imediata de 1.170 links indicados nas petições e anexos, desde que reproduzissem o conteúdo delimitado em sua decisão. A medida alcançou publicações no X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube.
Entre as postagens atingidas estava uma publicação do humorista Antônio Tabet. Sem mencionar nominalmente Flávio Bolsonaro, ele escreveu que a “família miliciana” teria atacado Nossa Senhora Aparecida e publicou uma imagem da santa acompanhada da frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”
Após recurso apresentado por Tabet, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou no domingo (27) a decisão de Mendonça. Nesta segunda-feira (28), Dino encaminhou o caso ao plenário, enquanto os advogados de Flávio Bolsonaro apresentaram recurso ao ministro Luiz Fux, também do Supremo, buscando suspender a medida.
Estratégia judicial também provoca questionamentos
A reação jurídica adotada pela campanha passou igualmente a ser questionada por aliados. A crítica se concentra especialmente na tentativa de retirar do ar a publicação de Tabet, já que o humorista utilizou a expressão “família miliciana”, mas não citou nominalmente os Bolsonaro.
Na avaliação desses interlocutores, Flávio Bolsonaro “mordeu a isca” ao reagir ao conteúdo e, com isso, ajudou a ampliar a repercussão política do episódio.
A preocupação é intensificada pelo calendário eleitoral. Com poucos dias restantes até o primeiro turno, integrantes da campanha temem que não exista tempo suficiente para neutralizar os efeitos da crise entre eleitores ainda indecisos.
Flávio decide participar de debate da Globo
Em meio à pressão, Flávio Bolsonaro participar do debate da TV Globo previsto para quinta-feira (1º), independentemente da presença de Lula.
A campanha pretende utilizar o encontro para reforçar o apelo pelo voto útil entre os eleitores de direita, divulgar o número do candidato e apresentar suas propostas, além de estabelecer um contraponto direto ao presidente.
Do outro lado da disputa, o PT busca ampliar a vantagem de Lula na reta final e tem explorado politicamente a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida. A estratégia petista ocorre também após medidas anunciadas pelo governo, entre elas a proibição das bets.
Fonte: Brasil 247