Pastor de Flávio Bolsonaro defende retirada de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e diz que ela é um demônio
Por Ricardo Nêggo Tom — Brasil 247
Vamos falar sobre a polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. Peço até perdão à santa por colocá-la na mesma frase que um sujeito tão mentiroso e desqualificado como o filho do seu Jair. Quando o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional durante o programa “Despertar da Fé”, em 12 de outubro de 1995, o projeto de poder evangélico neopentecostal estava começando a mostrar a cara para todo o país. Os santos católicos – assim como os orixás e as entidades do culto de matriz africana – também eram demonizados pelos evangélicos sob a acusação de idolatria e invocação dos mortos. A segunda acusação chega a ser curiosa, uma vez que os evangélicos invocam a presença de Jesus que, ao que consta, não está vivo fisicamente.
Depois do ataque à imagem da santa em rede nacional, outros ataques foram feitos por parte de evangélicos contra a doutrina e a fé católica. Só para lembrar de alguns, entre tantos, cito a pregação inflamada da pastora Ana Paula Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha – a mesma afogada até o pescoço no caso do Banco Master –, que, em 2010, profetizou o fim da Igreja Católica e o fim do culto à Nossa Senhora, o qual ela chamou de “Mariolatria”. Durante o culto, a irmã de André Valadão mencionou uma visão sobre a queda da idolatria e uma renovação espiritual que atrairia fiéis católicos para a fé evangélica. Bastante criticada à época, a pastora bolsonarista disse que havia sido mal interpretada, negou que profetizava o fim do catolicismo e que apenas se referiu a um “avivamento espiritual” sobre a nação. Já o pastor Sérgio Fernandes, da Igreja Vida Nova, causou forte indignação ao pregar contra a instalação de um monumento de Nossa Senhora Aparecida na entrada da cidade de Bastos (SP).
Durante um culto, ele chamou a imagem de “Satanás fantasiado de azul” e afirmou que a escultura trazia “maldição” para o município. Bolsonarista, o pastor convocou a população da cidade a solicitar a retirada da santa, alegando que o dinheiro público não deveria financiar monumentos religiosos porque o Estado é laico. Ironicamente, o pastor nunca reclamou das verbas públicas destinadas às obras voltadas para o segmento evangélico. Após as reações negativas, o religioso emitiu um pedido de desculpas à comunidade católica. Mais recentemente, Silas Malafaia, o lobista político oficial da igreja neopentecostal brasileira, atacou o catolicismo e o culpou pela existência do Partido dos Trabalhadores. Em maio de 2026, na presença de Flávio Bolsonaro, que estava sendo apresentado como o candidato da sua igreja, Malafaia demonizou as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação. “A Teologia da Libertação não passa de uma tentativa de macular o cristianismo com o comunismo. Foi lá que começou o PT, na base da Igreja Católica”, disse ele durante o culto.
Defendendo o direito de os evangélicos ocuparem cargos públicos, Malafaia declarou que “nós não somos cidadãos de segunda classe. Nós temos direitos e deveres nessa nação. Direito de opinar, direito de escolher e direito de votar.” Só esqueceu de dizer que eles não têm o direito de querer implantar uma teocracia no país. Antes de citar trechos do livro nos quais o autointitulado bispo J.B. Carvalho defende que Nossa Senhora Aparecida deixe de ser padroeira do Brasil, recordo ainda as declarações feitas pelos fundadores da Igreja Renascer em Cristo, os também autointitulados bispos Estevam e Sônia Hernandes, que, em 2000, lançaram uma campanha nacional contra o título de padroeira do Brasil dado à santa católica. Na ocasião, as críticas contra o feriado nacional de 12 de outubro e a associação da imagem a práticas de “idolatria” geraram notas de repúdio por parte de lideranças católicas. Sete anos depois, o casal foi preso no aeroporto de Miami, nos EUA, tentando entrar no país com US$ 56.400 em dinheiro vivo, escondidos no fundo falso de uma Bíblia. Nada que o “perfume de Jesus”, lançado pela bispa em 2012, não disfarce o cheiro da vigarice e da pilantragem.
Chegamos ao pastor da igreja onde Flávio Bolsonaro e sua esposa foram batizados em 2024, e ao seu livro, publicado em 2001, no qual ele defende ferozmente a queda de Aparecida como padroeira do Brasil. J.B. Carvalho classificou como “ilegal” a lei que reconhece a santa como padroeira nacional e questionou também o feriado de 12 de outubro. A relação entre o senador e candidato à Presidência e o bispo evangélico é de líder e liderado espiritual. O que nos leva a deduzir que a obediência das ovelhas, tão propagada pelos líderes evangélicos, pontue a relação entre ambos. Segundo trechos do livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, Nossa Senhora Aparecida é um disfarce utilizado por deusas demoníacas e prostitutas que foram destituídas com a vinda de Jesus ao mundo. Atentem-se a este trecho do livro e reflitam se os fiéis da igreja desse pastor – como Flávio Bolsonaro o é – comungam ou não do seu mesmo pensamento.
“Quando Jesus veio ao mundo e o cristianismo tomou o planeta, as deusas foram destronadas e vistas como demônios e prostitutas. Banidas, elas acharam um jeito de se associarem ao cristianismo. Assim, as Astoretes, Aserins ou Ishtars receberam o nome de santas católicas e se sincretizaram ao culto cristão. Já a Rainha dos Céus, a soberana entre elas, recebeu o nome de Maria. Isto é história! Gravem bem isto: a Rainha dos Céus era cultuada em todo mundo pagão e foi adotada pelo cristianismo com o nome de Maria.”
Difícil de acreditar que Flávio Bolsonaro não tenha conhecimento desta visão do seu pastor sobre Nossa Senhora e o culto aos santos católicos. Mais difícil ainda é acreditar que ele não concorda com ela. O livro de J.B. Carvalho faz outros ataques a Nossa Senhora Aparecida. Como no trecho onde ele a classifica como “Deusa da Promiscuidade”, destacando sua perversidade e maldade. “Segundo os demonólogos, a Rainha dos Céus é a mais poderosa entidade infernal de todas as mitologias. Para outros, ela é o braço direito de Satanás. Trata-se de uma entidade macabra promotora da prostituição e da pornografia mundial, estando por detrás da indústria do sexo e da perversão, deusa do amor pervertido e amoral, deusa da fertilidade que promove o aborto, a licenciosidade e a lascívia”, escreve ele. Se permitem a ironia diante de algo tão absurdo, a deusa descrita por JB mais se associa à padroeira das festas do evangélico Daniel Vorcaro do que à santa de devoção católica.
Contestando o título atribuído a Nossa Senhora Aparecida, o pastor de Flávio Bolsonaro associa a recessão e a inflação no país nos anos 1980 ao fato de a santa ter sido entronizada como padroeira da nação. Em outro trecho do livro, ele escreve: “Após Aparecida ser estabelecida como a padroeira do Brasil, nosso país afundou na recessão, a inflação explodiu, as secas no Nordeste dizimaram as plantações, enchentes no Sudeste, criminalidade nas ruas, etc.” Um trecho que me assusta tanto pela associação feita quanto pela revisão de sua escrita. Vale ressaltar que o título de padroeira do Brasil foi decretado oficialmente pelo Papa Pio XI, em 1930. Já o reconhecimento do título como feriado nacional ocorreu no ano de 1980, quando o então presidente da República, João Batista Figueiredo, sancionou a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. Sob a alegação de que o país não era mais católico, J.B. Carvalho escreve em seu livro que “está na hora de destronarmos a Rainha em nossa nação e servirmos ao Deus verdadeiro”, e conclama os evangélicos a se levantarem contra Nossa Senhora Aparecida.
“Convoco a todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em sua palavra, que Aparecida não seja mais senhora em nossa nação, e que Jesus Cristo seja o nosso único senhor no Brasil” – J.B. Carvalho, pastor de Flávio Bolsonaro.
Terá sido muita coincidência o fato de Flávio Bolsonaro ter gravado um vídeo atacando os ateus e dizendo que seu primeiro ato como presidente, caso seja eleito, será declarar Jesus Cristo como o senhor da nação brasileira. Como eu não acredito muito em coincidências, sobretudo quando elas envolvem um mentiroso contumaz, compartilho mais um trecho do livro onde o pastor que batizou Flávio e sua esposa incita os evangélicos a protestarem contra o que ele chama de “institucionalização da adoração pagã em nossa terra” e exigir dos políticos a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida: “Está mais do que na hora de nossos representantes na Câmara e no Senado tomarem posição e fazer ouvir suas vozes, declarando a vontade do povo cristão, de que no Brasil não tenhamos mais Aparecida como nossa padroeira.” Aqui fica claro o dano que a presença de líderes evangélicos nos parlamentos pode causar à laicidade do Estado e aos direitos e liberdades individuais dos cidadãos que não professam a sua mesma fé. Esse é um dos pontos principais que abordo no meu livro Domínio Teocrático: O Brasil sob o fascismo evangélico.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, nega que tenha qualquer projeto para retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Mas, como ele costuma negar o que diz e faz, e depois admitir quando as provas do que disse e fez se tornam públicas por meio de prints e áudios de conversas no WhatsApp – como no caso de seu envolvimento com Daniel Vorcaro –, fica difícil de acreditar que ele não tenha esse projeto em mente e não vá obedecer às ordens do seu pastor. É bom que os católicos fiquem atentos. Afinal, não faria muito sentido a implementação de uma teocracia evangélica no país, tendo uma santa católica como padroeira da nação. Quando eu digo que a próxima tentativa de golpe será evangélica, há quem considere um exagero. Basta observar com atenção o crescimento político do segmento e sua atuação nos parlamentos. Conhecereis a verdade e ela vos libertará de uma ditadura religiosa cruel e violadora de direitos. Como já disse o filósofo francês Blaise Pascal: “Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa.”
Fonte: Brasil 247