Soberania, o império Patanjali e a crítica ao Ocidente: Baba Ramdev expõe as contradições e ambições da Índia contemporânea
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Figura incontornável da Índia contemporânea por unir espiritualidade de massas, poder político e um império empresarial bilionário, Baba Ramdev foi o centro de um debate de fôlego no episódio 445 do podcast da agência de notícias indiana ANI News, conduzido pela jornalista Smita Prakash.
Ao longo de quase duas horas de conversa, o fundador da gigante de produtos naturais e medicamentos tradicionais Patanjali transitou sem meias-palavras entre temas que definem o momento político do Sul Global: soberania produtiva, a colonização digital promovida por plataformas ocidentais, a falência do sistema de castas e os limites do modelo de governança de Narendra Modi.
Abaixo, os eixos centrais de um depoimento que ilustra as tensões entre tradição, modernização acelerada e autonomia nacional na maior democracia do planeta.
Soberania e autossuficiência contra a hegemonia externa
Um dos eixos mais enfáticos da fala de Ramdev foi a denúncia do que chamou de “escravidão econômica e cultural”. Para o líder, o conceito histórico de Swadeshi — a autossuficiência e o consumo de produtos nacionais, pilar da luta anticolonial de Mahatma Gandhi — precisa ser reeditado com urgência em tempos de capitalismo de plataformas e domínio de conglomerados transnacionais.
“A mente e a consciência do nosso povo hoje estão nas mãos de plataformas estrangeiras, sob controle dos Estados Unidos. Eles ditam o que devemos consumir, vestir, pensar e até como conduzir nossa política. Vinte ou trinta think tanks internacionais decidem o destino de nações inteiras. Não existe independência política real sem independência econômica e mental”, declarou.
Ramdev justificou a expansão agressiva da Patanjali — que agora avança sobre setores estratégicos como o de seguros, após a aquisição da Magma — como uma contraofensiva para manter a riqueza gerada pela população dentro das fronteiras nacionais. Questionado sobre a linha tênue entre a vida monástica e o acúmulo empresarial, rejeitou a pecha de mero homem de negócios:
“O trabalho e a criação de riqueza não podem ser vistos com desprezo. O problema não é gerar valor, é o destino desse valor. O império que construímos não pertence a mim; reverte-se em hospitais, centros de pesquisa e universidades. É prosperidade a serviço do bem coletivo contra a drenagem de recursos promovida por multinacionais.”
Ruptura com o sistema de castas e o debate sobre o “Hindu Rashtra”
Em um momento de visível tensão na entrevista, Prakash confrontou o líder com seu nome de nascimento e sua origem na casta Yadav. Ramdev rebateu com firmeza, classificando a persistência das categorias de casta como uma aberração que compromete a coesão social da Índia:
“Ao adotar o sannyasa (renúncia monástica), a casta deixa de existir. A raiz da desigualdade que corrói este país está nessa obsessão em classificar seres humanos por nascimento. Os textos fundacionais nunca chancelaram hierarquias hereditárias de opressão. Qualquer um pode ser líder, cientista, jornalista ou governante. Enquanto nos dividirmos por castas e preconceitos internos, seremos presas fáceis da dominação externa.”
O monge também buscou desarmar o discurso de ódio religioso ao tratar da controversa tese do Hindu Rashtra (a Índia como nação de matriz hindu). Afirmou que a verdadeira identidade civilizacional do país não se constrói pela perseguição a minorias muçulmanas ou cristãs, mas pelo resgate de deveres éticos (dharma) e pelo respeito estrito à Constituição:
“Dizem que ‘o hinduísmo está em perigo’ ou que ‘o islamismo está em perigo’. O que está em risco é o bom senso. Ninguém deve viver em conflito por causa de ritos ou símbolos. O sangue que corre nas veias de hindus e muçulmanos neste território tem a mesma cor e a mesma ancestralidade. A nossa lealdade tem de ser à soberania do país e aos princípios constitucionais, não a ódios sectários fomentados por conveniência política.”
Apoio a Modi, mas com alertas sobre desemprego e burocracia
Ramdev, cuja mobilização social foi um dos catalisadores da onda anticorrupção que desgastou o antigo governo do Congresso Nacional Indiano e abriu caminho para a ascensão de Narendra Modi em 2014, evitou críticas diretas à liderança pessoal do primeiro-ministro, mas não poupou a máquina estatal.
Ao comentar a insatisfação da juventude e os protestos recentes provocados por fraudes e vazamentos em exames nacionais (como o NEET), o líder admitiu que o país ainda enfrenta gargalos estruturais crônicos:
- Educação descompassada: Defendeu a unificação do sistema educacional público e privado e a abolição de modelos de avaliação obsoletos que empurram milhões de diplomados para a informalidade ou o desalento.
- Corrupção capilar: Apontou que a extorsão policial e as fraudes em processos de seleção e contratação pública continuam a asfixiar o cidadão comum, cobrando tolerância zero das instituições.
- Repactuação demográfica e produtiva: Defendeu que o bônus demográfico da Índia só se tornará um ativo geopolítico real se houver disciplina, capacitação técnica de excelência e geração em massa de empregos industriais e científicos.
Ciência tradicional e as batalhas com o establishment médico
A entrevista abordou ainda as recentes polêmicas judiciais envolvendo a Patanjali perante a Suprema Corte indiana, referentes a peças publicitárias que propagavam a cura definitiva de enfermidades crônicas pela medicina ayurvédica.
Sem recuar de suas posições, Ramdev argumentou que a medicina tradicional sofre perseguição coordenada do complexo farmacêutico global:
“O establishment quer transformar o paciente em consumidor vitalício de fármacos químicos. O que fazemos em nossos laboratórios é pesquisa clínica de ponta para restaurar a saúde de forma integrada. Não negamos a ciência moderna, defendemos a sua integração com conhecimentos milenares comprovados pela prática e pelo rigor analítico.”
A geopolítica da identidade
A fala de Baba Ramdev ao canal da ANI espelha com fidelidade o mosaico de forças que move a Índia no tabuleiro internacional: um país que busca projetar-se como potência global e liderança indiscutível do Sul, ancorado em uma narrativa de orgulho civilizacional, mas que trava uma luta diária contra suas próprias disparidades de classe, divisões confessionais e a dependência tecnológica em relação às potências do Norte. Assista:
Fonte: Brasil 247