Movimento de artistas do RJ lança manifesto em defesa do Centro Cultural dos Correios
Por Clivia Mesquita — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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Na esteira da recuperação econômica da estatal, os Correios pretendem anunciar novas diretrizes para ocupação dos seus espaços culturais a partir do próximo ano. Há uma preocupação com uma imposição de taxas para artistas exporem suas obras. No modelo atual, a cessão é gratuita e democrática por meio de edital.
O Centro Cultural dos Correios (CCC), no centro do Rio, não consta na lista de leilões anunciados recentemente pela estatal. No entanto, a empresa informou que está “revisando o modelo de cessão de uso de seus espaços culturais, com foco na otimização de recursos e na sustentabilidade”.
Sem detalhar quais serão os novos critérios e mudanças, os Correios afirmaram que as exposições já programadas serão realizadas no modelo atual até dezembro de 2026. “Para o próximo ano, estão em curso as tratativas com os proponentes e as produções culturais”, disse a nota ao Brasil de Fato.
Diante de um cenário de incerteza, cresceu nos últimos meses um movimento de artistas em torno da valorização do CCC para a democratização da cultura. A medida ameaça a viabilidade de projetos gratuitos em um dos mais importantes equipamentos do Corredor Cultural do Rio de Janeiro, que abrange ainda o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) e a Casa França Brasil.
Um dos defensores do CCC democrático é Luiz Ricardo Leitão, professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do projeto editorial Decanos da Arte Popular, que lançou recentemente a autobiografia de Nei Lopes no espaço dos Correios.
“Nós já fomos a capital cultural do Brasil. Como pretendemos manter algum papel de difusão da arte popular, que é a nossa identidade? Essa é uma questão de soberania. Quem não difunde a cultura, e em particular a própria cultura, não consegue se reconhecer no horizonte dos povos”, pontua.
A mobilização do setor cultural carioca defende a manutenção do modelo atual de gestão e gratuidade dos projetos no espaço. Um manifesto online já conta com mais de 1.500 assinaturas (acesse neste link).
“Historicamente, o centro proporcionou uma plataforma acessível para artistas emergentes, abrindo suas portas para um público diverso e ávido por experiências culturais. O possível encerramento de suas atividades ou a implementação de aluguel para os artistas que expõem suas obras no espaço representaria um grande retrocesso para o setor”, diz o abaixo-assinado.
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O foco do manifesto é a defesa do CCC para a vida cultural da cidade e que as exposições não sejam suspensas a partir de 2027. Para o professor Luiz Ricardo, é imprescindível manter o equipamento público, gratuito e com o perfil democrático.
“O centro do Rio antigo não pode ser dilapidado. E a dilapidação não significa botar um prédio abaixo. A dilapidação também é desvirtuar as funções para as quais este espaço se destinou. Essa experiência não pode ser privatizada em prol de uma recuperação econômica de uma empresa para a qual a cultura só contribuiu positivamente, nunca de maneira deficitária”, completa.
No atual modelo, o Centro Cultural dos Correios recebe exposições das mais variadas expressões artísticas, da cultura popular a gravuras de Rembrandt. No auditório acontecem lançamentos, exibições de filmes, apresentações teatrais. Já a praça se destaca pelas projeções e eventos ao ar livre.
Entre os prédios dos Correios leiloados no país está o que abrigou a antiga sede nacional do Correio Geral na Rua Primeiro de Março, no centro do Rio. O imóvel foi construído em 1878, durante o Segundo Reinado, e estava desocupado.
O prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1990 por integrar o conjunto arquitetônico e urbanístico da Praça 15, além de estar protegido pelo Corredor Cultural do Rio de Janeiro.
Com imponência típica dos primeiros “palácios dos Correios”, o edifício se tornou um marco urbano, reforçando a importância administrativa da Rua Primeiro de Março na antiga capital. O imóvel histórico foi vendido no site da VIP Leilões por R$ 53.598.124,72.
Em nota ao Brasil de Fato, o Iphan disse que não se manifesta em casos de transferência de propriedade ou posse de bens tombados. O novo proprietário do móvel tombado deve registrar a transferência da propriedade no Cartório de Registro de Imóveis e comunicar ao Iphan no prazo de até 30 dias.
“Para a autarquia, é indiferente quem seja o proprietário do bem. A responsabilidade pela integridade e manutenção do imóvel permanece com o detentor, que deve submeter previamente ao Instituto quaisquer propostas de restauração para análise e aprovação, conforme estabelece a Portaria nº 289/2025”, diz um trecho.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato