A gameleira no meio do meu caminho para a escola

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Por Sinésio Dioliveira — Jornal Opção

A gameleira no meio do meu caminho para a escola

Quando meu pai se separou de minha mãe, pegou os cinco filhos — eu e mais quatro irmãs — e veio de Belo Horizonte para Goiânia. Eu estava justamente naquela idade em que a infância ainda não sabe que um dia será saudade: essa tal “minha infância querida que os anos não trazem mais”, que o poeta Casimiro de Abreu disse no poema “Meus oito anos”.
Eu já havia feito o primário, mas chegamos a Goiânia quando as aulas já estavam andando. Meu pai, que nos estudos só ficou nas primeiras letras, conseguiu para mim uma vaga na Escola Municipal Professora Edna de Roure, em Campinas, onde morei por décadas. E lá fui eu fazer novamente o quarto ano primário.

Muito tempo depois, já formado em Letras pela PUC Goiás, me deparei com uma crônica, cujo nome do autor não me lembro, sobre o aprendizado das primeiras letras. Falava do encantamento do cronista que, ao decifrar as palavras, descobria o mundo que se esconde nelas. Fiquei curioso para saber quem era a mulher que dava nome à escola em que estudei. Fui atrás.

Descobri que Edna de Roure foi educadora e alfabetizadora pioneira em Goiânia. Aos 22 anos, fundou a Escola Patriarca, em Campinas. Viveu apenas 38 anos e morreu em 1960. Cinco anos depois, a escola foi inaugurada. A memória é curiosa: às vezes passa décadas dormindo e, de repente, alguém sopra uma palavra e ela acorda inteira. Esse despertar tem duas faces: pode trazer de volta uma alegria esquecida ou fazer doer novamente uma antiga ferida.

Escola Municipal Professora Edna de Roure, onde o cronista fez o 4° ano primário
| Foto: Sinésio Dioliveira

Você, altaneiro leitor, certamente tem acompanhado o alvoroço que rola na imprensa e sobretudo nas redes sociais em torno de algumas gameleiras (Ficus elastica, árvore de origem asiática) que cresceram além da conta nos lugares em que foram plantadas em setores diferentes da cidade. Há aquelas em calçadas estreitas, atrapalhando pedestres; as que avançaram sobre construções; e as que perderam galhos, capazes de transformar uma caminhada num fato desagradável. Vale citar também que existem aquelas dos parques e parques, vivendo tranquilamente sem risco de gerar acidentes. Inclusive já fotografei um urutau na gameleira da Praça Cívica.

Uma googlada basta para encontrar notícias de árvores que caíram, destruíram carros, casas e, infelizmente, também tiraram vidas. Mas por que falo disso? Porque, a cerca de 200 metros da escola onde estudei, há uma gameleira metida no imbróglio que envolve algumas dessas árvores e o Ministério Público, que quer porque quer essas árvores vivas. Assim, uma árvore guardada na minha infância voltou ao meu presente.

A primeira gameleira da minha história ficava em nosso lote, em Belo Horizonte. Nela, eu e meus coleguinhas brincávamos de Tarzan. Éramos todos Tarzans. Já contei essa história noutra crônica. A de Campinas ficava no meu caminho para a escola. Naquela idade, uma árvore era apenas uma árvore. Não sabia então que ela se transformaria em assunto de jornal numa abordagem ruim.

No último sábado, fui visitá-la. Ou melhor, me despedir dela. A gameleira cresceu muito, tornando-se enorme para o espaço que lhe deram. A calçada ficou pequena, e a casa ao lado passou a pagar a conta da exuberância da árvore, com rachaduras. O homem que a plantou, conforme matéria publicada neste jornal, se disse arrependido do plantio.

Eu gosto muito de árvore. Mas entre a vida de uma árvore e a segurança das pessoas em risco de vida por causa de queda daquela fico com as pessoas. Não há mérito nenhum em defender uma árvore quando o risco não está em nossa porta. Árvore é vida, sombra, abrigo, beleza, mas também matéria, peso, raiz, galho. Quando a natureza encontra uma calçada estreita, uma edificação e uma árvore que não para de crescer, não adianta transformar o problema numa disputa entre bons e maus.

A gameleira que esteve no meu caminho, para mim, continuará existindo naquele menino que ia para a escola e que, muitos anos depois, voltaria ali para descobrir que algumas árvores envelhecem e que gostar delas, às vezes, é aceitar que precisam partir, como ocorre no mundo humano.

Esta gameleira fez parte da minha infância. Já me pendurei inúmeras vezes em seus galhos. Gosto desta gameleira, mas, porém, todavia, contudo… Árvores urbanas são essenciais para a qualidade de vida e, justamente por isso, precisam ser plantadas no lugar certo e com planejamento adequado. Espécies de grande porte, em calçadas estreitas ou sob redes elétricas, podem causar danos à infraestrutura da cidade, acidentes e riscos à segurança pública.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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Fonte: Jornal Opção

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